Blumenauense que venceu o câncer percorre 10 mil km de bicicleta pelo Brasil ao lado de cachorrinha
Após enfrentar um câncer em estágio avançado, Jefferson Delgado largou tudo para pedalar pelo país ao lado de sua companheira de estrada, a cadela Toddynha
A viagem do blumenauense Jefferson Delgado, 39 anos, e da sua cachorrinha Toddynha atingiu a marca de 10 mil quilômetros percorridos pelo Brasil. A trajetória do ciclista foi contada em reportagem do jornal O Município Blumenau em janeiro de 2024, quando celebrava os quatro mil km pedalados.
Agora, o ciclista alcançou os 10 mil km município de Javi, na Bahia. Na bagagem, ele já coleciona histórias e novas amizades.
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Entre os destinos, Jefferson passou pelo litoral norte de São Paulo, sul do Rio de Janeiro, aldeias Pataxó entre Corumbau e Caraíva (BA), Ilha de Superagui (PR) e Ouro Preto (MG). Mas, para ele, o local mais marcante foi a capital baiana.
“Salvador, não gosto de cidade grande, mas lá senti tudo de forma diferente. A cidade tem uma energia surreal, muita história de resistência e luta, uma verdadeira aula de história, real, não a contada nos livros”, relata o ciclista.
“Saí de lá com muita bagagem de conhecimento, não só de curtição e festa como todos imaginam”, acrescenta.
A rotina na estrada inclui pedaladas de 8 a 9 horas por dia, começando cedo, com pausas a cada duas horas para cuidar de Toddynha. Em dias de calor intenso, ele interrompe a viagem entre 11h e 15h para evitar cansaço e mal-estar para a sua saúde e de sua cadela.

Diagnosticado com linfoma de Hodgkin em estágio avançado em 2020, Jefferson decidiu mudar de vida após o tratamento. Filho único, perdeu a mãe para o câncer aos 20 anos e trabalhou dos 15 aos 37 sem tirar férias. A doença o fez repensar nas suas escolhas de vida.
Em 22 de maio de 2025, o blumenauense comemorou cinco anos de remissão do câncer e afirma estar 100% curado. Para a reportagem, agradece ao médico Alysson, do Hospital Santo Antônio de Blumenau, por sua recuperação.

Hoje, se mantém com doações feitas por seguidores, via Pix: ociclistaviajante@gmail.com. Como aprendizado, destaca a superação da ansiedade e os desafios físicos e emocionais da estrada.
Início da viagem pelo Brasil que mudou a vida do ciclista
Em 23 de julho de 2023, Jefferson iniciou uma viagem de bicicleta pelo litoral do Brasil. O começo que transformou a sua vida em uma aventura.

A ideia surgiu após assistir a um vídeo de um cicloviajante. Com ajuda de amigos, montou a bicicleta, comprou barraca e utensílios básicos. Antes de partir, atualizou suas vacinas e consultou o médico.
Logo, partiu com sua fiel companheira, a cadela Toddynha, para conhecer todos os estados do Nordeste, pedalando pelo litoral até o Maranhão. O primeiro destino foi Penha, no litoral catarinense, onde acampou na praia Vermelha.
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No início da jornada, afirma ter enfrentado medo e insegurança, misturados com euforia pela nova etapa da vida.
“Nos primeiros momentos da viagem, saí com muita insegurança. Foi um misto de euforia e alegria pela liberdade e por sentir que estava começando a fazer algo da minha vida que eu realmente queria. Mas também com muita sensação de insegurança. Lembro que, para sair até chegar na BR-470, pedalei tremendo. Sempre fui ciclista, nunca tive problemas para pedalar, mas esse momento foi bem intenso”, relata.

Vencendo o medo
O ciclista afirma que, mesmo com receio, sempre foi otimista e manteve o foco nas estradas. “Tive certo receio no início, por falta de experiência. É algo totalmente novo, diferente de só pedalar, porque envolve alimentação, lugar para dormir, segurança, chegar a um local desconhecido e não saber como vai ser o dia seguinte”, diz.
“Nunca pensei que não conseguiria, porque não tenho esse tipo de pensamento. Se decido fazer algo, é porque tenho 100% de certeza de que vou conseguir e vou fazer. Em nenhum momento passou pela minha cabeça que eu não daria conta”, acrescenta.

Durante momentos de adrenalina e felicidade, também existem momentos de pressão e dificuldade. Em março de 2024, na Bahia, Delgado explica que quase desistiu de seu sonho, por questões momentâneas e de abalos emocionais.
“Naquela época, estava com onda de calor. A gente pegava 40 °C com facilidade, e isso estava muito difícil para mim e para a minha cachorra, principalmente para ela. Então, precisei fazer uma pausa em Salvador. Voltei para Blumenau, reencontrei minha família e arranjei um emprego para melhorar os recursos da viagem. Foi nesse momento que quase desisti, por não ter estrutura para continuar. Mas voltei e recomecei para não desistir”, conta o ciclista.
Toddynha, a melhor companhia para todas as viagens
Com 10 anos, Toddynha é a cadela de estimação e parceira de viagens do ciclista Jefferson. Ele relembra o momento em que a conheceu e a ligação que tinha desde o começo com a cachorra.
“A Toddynha entrou na minha vida por causa das minhas duas afilhadas, gêmeas. Estavam voltando da escola e encontraram a Toddynha abandonada na rua Doutor Pedro Zimmermann. Levaram ela para casa. Fomos atrás do dono, compartilhamos, mas não encontramos. Enfim, acredito que era para ser minha, porque tinha acabado de perder uma cachorra que viveu comigo por 18 anos e, poucos dias depois, a Toddynha chegou nos braços das minhas afilhadas”, relata.

A sua fiel amiga adora os passeios e diversões que a viagem proporciona. O ciclista fica contente em proporcionar alegria, uma vida de cachorro, para a sua cadela.
“Ela representa a felicidade da viagem. Curte ainda mais do que eu. É gratificante ver o quanto ela gosta de sentir a brisa do mar, o vento das montanhas… A coisa que ela mais ama é fazer trilhas. Ver que ela está vivendo uma vida de cachorro de verdade me mostra que tudo vale a pena”, diz o ciclista.

Além da diversão, Toddynha já o ajudou em momentos difíceis, principalmente em trilhas. A cadela sempre segue como um guia e uma companheira nos desafios que as trilhas podem oferecer.
“Ela tem uma mistura de raça Terrier, então é ótima e adora passear nas trilhas. Já aconteceu de eu fazer uma trilha e, no retorno, haver muitas bifurcações e eu não lembrar em qual delas precisava entrar. Ela sempre está na minha frente e sabe o caminho feito, porque vai farejando. Então, nunca me perco em trilha, porque ela sempre me ajuda nos retornos. Isso é um fator de 100% de segurança para mim”, destaca Jefferson.

Mudança de vida após o diagnóstico
No momento em que foi diagnosticado com câncer em estágio avançado, começou a ter uma visão diferente de sua vida. Jefferson diz que a ideia de começar o “Cicloviagem” veio após a doença, por querer viver e realizar seus sonhos.
“Quando a doença chegou, percebi que já estava morto por dentro. Decidi que, se me recuperasse, iria viver de verdade. Hoje, aproveito a vida sem medo, porque sei que, se partir, fiz essa vida valer a pena”, diz Jefferson Delgado.

O ciclista também não estabeleceu limites para a viagem. Ele sempre busca expandir suas vivências, conhecer lugares novos, pessoas e culturas diferentes. O seu objetivo atual é conhecer todos os estados do Brasil e viajar pela América do Sul.
“Eu não tenho um destino, porque a Cicloviagem, para mim, se tornou um estilo de vida. Vivo assim. Não tenho uma casa para retornar, a minha casa é o mundo. Não penso mais em parar. Não consigo parar. Minha vida não tem como parar”, explica Jefferson.
Superação, conexões e reflexões pelo Brasil
Jefferson Delgado encontrou na Cicloviagem uma forma de ressignificar a vida. Após enfrentar momentos difíceis, ele se apoia no próprio passado e no incentivo das pessoas que o acompanham para continuar pedalando.
Segundo ele, a viagem nunca é solitária: é uma troca constante com quem cruza no caminho, seja nas ruas ou nas redes sociais.

Ao longo da jornada, o propósito pessoal se ampliou. Campanhas para ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade, apoio a animais abandonados e conversas com desconhecidos acabaram transformando a trajetória em algo coletivo.
“Essa viagem não é só minha. Ela transforma quem cruza meu caminho”, afirma o ciclista.

Na virada de 2025, viveu um dos episódios mais marcantes: foi acolhido por uma senhora desconhecida durante uma tempestade. Ela o recebeu em casa, mesmo vivendo em condições precárias.
Com apoio de seguidores, organizou uma campanha e conseguiu recursos para ajudá-la. O gesto o marcou profundamente e reforçou a ideia de que não viaja sozinho.

A estrada também trouxe reflexões. Para Jefferson, o maior desafio não está nas subidas ou distâncias, mas no emocional. “Sem estímulos externos, os pensamentos tomam conta. O difícil é lidar com a própria cabeça”, relata.
Ele também diz que a experiência revelou algo essencial: os limites pessoais nem sempre são reais. “A gente acha que sabe até onde consegue ir, mas a estrada mostra que dá para ir além”, comenta.

A quem pensa em começar, ele resume com leveza: “Vá feliz, de coração aberto. A estrada é mágica. Tem muito mais gente boa no mundo do que a gente imagina”, finaliza.
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