Caso Bianca: “É muito difícil fazer a prevenção desses crimes”, diz PM

Tenente Karla Medeiros, que coordena a Rede Catarina de Proteção à Mulher em Blumenau, fala sobre sensação de impotência que impede que mulheres denunciem violências e os desafios no trabalho de prevenção

Caso Bianca: “É muito difícil fazer a prevenção desses crimes”, diz PM

Tenente Karla Medeiros, que coordena a Rede Catarina de Proteção à Mulher em Blumenau, fala sobre sensação de impotência que impede que mulheres denunciem violências e os desafios no trabalho de prevenção

Bianca Bertoli

O áudio de Bianca Wachholz, 29 anos, em que ela relata as ameaças de morte que Éverton Balbinott de Souza fez um dia antes de assassiná-la com um tiro no rosto, revela a impotência que estava sentindo. Bianca não suportava mais a relação, mas mentiu que queria por medo. No momento em que fez a gravação, cogitou registrar um boletim de ocorrência contra o ex-namorado, mas concluiu: “Nada acontece”.

A tenente da Polícia Militar Karla Medeiros, que coordena a Rede Catarina de Proteção à Mulher em Blumenau, conta que esse pensamento é frequente pelas falhas em todas as esferas de proteção à vítima  – desde o atendimento até o processo condenatório do agressor.

A Rede, que desde novembro do ano passado até final de julho já atendeu 145 mulheres em situação de violência, é um programa que consiste no acompanhamento de vítimas que possuem medida protetiva, mas, segundo Karla, qualquer mulher que precise de ajuda pode procurar a equipe. Atualmente 37 mulheres são atendidas regularmente.

Confira a entrevista:

O Município Blumenau: No áudio, a Bianca fala que “não adianta nada fazer B.O”. As mulheres realmente têm amparo? Por que elas não acreditam que serão de fato protegidas?

Tenente Karla Medeiros: É estranho falar de outra instituição, mas realmente elas se sentem constrangidas [na Delegacia da Mulher] porque muitas vezes não há um atendimento adequado. Só que dali pra frente, nós atendemos mulheres que tem sucesso na sua demanda.

Então assim, ela não pode deixar de fazer com esse pensamento, porque se ela não fizer, é certeza que não vai ser ajudada e, se ela fizer, a possibilidade é que vá ser. Qual a maior probabilidade de ela conseguir alguma coisa? Fazendo ou não fazendo?

Pelo menos no que diz respeito à Polícia Militar a gente tenta sempre orientar a questão do atendimento porque já é a ocorrência mais delicada que a gente atende. Se a mulher já sofre uma violência, aí ela vai sobre a segunda violência por parte do estado? Isso não é o que queremos.

Mas, de fato, o medo de passar por constrangimentos e descaso nas delegacias ainda afugentam muitas mulheres…

Não só nessa parte inicial da delegacia, outra questão que as mulheres acreditam que não vai dar em nada é o processo em si, porque demora para o homem ser condenado, muitas vezes nem é…Então é tudo. Mas a questão da medida protetiva ela é concedida em até 48 horas. Pedir a medida ajuda em boa parte dos casos. Outros a medida não ajuda tanto, mas a maioria, sim. Porque o descumprimento é crime e ele vai preso se não cumprir.

E o que fazer com essa parcela que a medida protetiva não resolve?

Um dos fatos de ser difícil de prevenir é a imprevisibilidade. Porque existem homens que ameaçam as mulheres de morte por uns dez anos e nunca fazem nada. E outros que você vê que ele está decidido a fazer e vai lá e faz. Então assim, a mulher às vezes busca meios informais, ela some, ela sai de casa, troca de número. Tem a questão da casa Elisa, que é um lugar anônimo. Então existem opções, sim. Nós não podemos ficar descrentes no estado, não em relação a isso. A probabilidade é maior de dar errado.

Mesmo depois de ter uma arma apontada para a cabeça dela, a Bianca diz que não pretende prejudicar o Éverton. Isso é comum entre as mulheres vítimas de violência?

É muito comum. No fim ela acaba se sentindo culpada porque ele vai preso ou porque ele vai ter um processo contra ele. Isso é inaceitável. Ele é responsável pelos próprios atos. Ele que está prejudicando ele, não o contrário.

Qual a maior dificuldade para a Rede Catarina chegar a esses casos antes de um feminicídio?

É muito difícil fazer a prevenção desses crimes porque eles normalmente acontecem entre quatro paredes. Quando a gente nota que aquilo é um caso mais grave, a gente dá uma atenção diferenciada, visita com mais frequência, está sempre em contato.

Que sinais são esses?

Primeiro, mesmo quando ele tem a medida ele continua em contato, ameaçando, ele vai no trabalho da vítima… Isso é o mais perigoso, porque mostra que ele não respeita a medida protetiva.

Nós tivemos casos em que o agressor continuava indo todo dia na casa dela, ele tirou o freio do carro dela. Para continuar nesse sentido e fazer algo pior, a gente nunca sabe.

Mas antes mesmo da violência doméstica, existem sinais de alerta do relacionamento ser abusivo. Do cara ser machista, achar que é dono dela, de proibir de fazer certas coisas. Quando o relacionamento se mostra dessa forma, é muito provável que ele vá evoluir para uma agressão ou humilhação.

Se ela sofrer agressões, precisa denunciar. Ela não pode esperar que chegue no ponto de ter a possibilidade de ser morta.

Como as mulheres podem acessar os serviços da Rede Catarina?

As demandas chegam para a gente através do poder judiciário, são mulheres que têm medida protetiva. Mas, se a mulher quiser procurar os nossos serviços antes de ter uma medida protetiva, nós estamos disponíveis peço e-mail 10bpmredecatarina@pm.sc.gov.br e pelo telefone 3221-7332. Nós estamos de portas abertas, sabemos que têm muitas mulheres que não têm medida protetiva e que precisam mais ainda da orientação e da proteção.

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