Corpos de 6 mil anos: quando ossadas humanas foram encontradas na BR-470 e preservadas em SC

Descobertas ocorreram durante obras em 2018, em Ilhota; materiais foram analisados por especialistas e estão sob guarda de universidade catarinense

Sepultamentos com cerca de seis mil anos foram alvos de estudo por especialistas após ossadas serem encontradas em um sítio arqueológico, denominado “Sambaqui Ilhota 2”, às margens da BR-470, em Ilhota. As pesquisas iniciaram no começo de 2018, durante as obras de duplicação da rodovia.

A descoberta mobilizou biólogos e arqueólogos, que concentraram as análises dos restos mortais de uma mulher jovem, com foco no tártaro dentário como fonte de informações sobre os hábitos alimentares de povos antigos.

Achados de sepultamentos em uma das rodovias mais importantes da região Sul do Brasil

Em 2018, durante as obras de duplicação da BR-470, em Ilhota, foi descoberto um sítio arqueológico de sepultamentos e vestígios de presença humana, com idade estimada em cerca de 6 mil anos.

A análise do material ficou a cargo da empresa Espaço Arqueologia, contratada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com datação realizada pelo laboratório Beta Analytics, na Flórida, nos Estados Unidos.

Raquel Schwengber/Divulgação

Entre os materiais encontrados estavam restos de carvão de duas fogueiras e dois corpos na base de um sambaqui. Simulações indicaram que, há milhares de anos, o local era uma pequena ilha situada em uma laguna.

Atualmente, essa área está localizada sobre uma elevação argilosa, cercada por plantações de arroz e a cerca de 18 km do mar. A ausência de água potável e o isolamento do espaço sugerem que ele era utilizado para rituais e cerimônias funerárias.

Raquel Schwengber/Divulgação

Conforme os estudos realizados no sítio, e coordenados pelo arqueólogo Valdir Luiz Scwengber, os vestígios de fauna encontrados apontam para o consumo de peixes por parte dos antigos habitantes.

As espécies mais identificadas foram bagre, miraguaia, sargo-de-dente, robalo e corvina. Ao contrário de outros sambaquis da região continental, não foram localizados vestígios de mamíferos marinhos ou animais de floresta.

“Dados coletados no local apontam que tinham uma dieta de peixes. O pequeno tamanho dos peixes indica que a base alimentar estava na pesca de peixes juvenis presentes nas águas rasas”, destaca o arqueólogo.

ossadas BR-470
Raquel Schwengber/Divulgação

Segundo ele, os indivíduos sofreram desgastes ao longo do tempo, como a rodovia construída nos anos 1980. A passagem de veículos e o peso deles comprometeram parte dos vestígios encontrados.

A pesquisa envolveu profissionais de áreas como biologia, história e arqueologia, para compreender melhor a ocupação do litoral centro-norte de Santa Catarina por grupos de pescadores, caçadores e coletores.

Pesquisas sobre as ossadas não atrapalharam a continuação das obras na BR-470

Apesar da descoberta, as obras de duplicação da BR-470 não foram interrompidas.

ossadas BR-470
Raquel Schwengber/Divulgação

Enquanto o Iphan atuava no salvamento arqueológico, os trabalhos seguiram em outros trechos. Em agosto de 2018, o local já havia sido liberado para a continuidade das obras.

Descobertas a partir da arcada dentária 

Em 2019, parte dos corpos encontrados às margens da BR-470 continuou sendo estudada por biólogos.

Os especialistas concentraram na investigação da alimentação dos dois esqueletos por meio de vestígios presentes nos dentes de um deles. O foco das análises foi o cálculo dentário, o tártaro presente em um dos esqueletos.

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O sambaqui Ilhota 2, onde as ossadas da BR-470 foram localizadas, vinha sendo estudado desde o ano anterior pelo laboratório Espaço Arqueologia, contratado pela MPB Engenharia com autorização do Iphan. O local possui idade estimada em quase 6 mil anos.

Dos dois sepultamentos, somente um apresentava bom estado de conservação. O crânio permitiu identificar que se tratava de uma mulher jovem, entre 20 e 30 anos. O outro estava muito deteriorado.

ossadas BR-470
Raquel Schwengber/Divulgação

O tipo de enterramento e o local onde ele ocorre influenciaram diretamente na preservação. Enterros secundários eram comuns entre esses grupos, porém tendiam a comprometer a conservação dos corpos.

Contudo, o sítio não era utilizado como moradia, mas possivelmente como espaço para rituais fúnebres ou demarcação de território. Para Valdir, a descoberta está entre as mais relevantes de Santa Catarina.

ossadas BR-470
Raquel Schwengber/Divulgação

A análise concentrou-se nos micro-vestígios presentes no tártaro dental, como os fitólitos, considerados estruturas microscópicas que permanecem após a decomposição e ajudam a identificar hábitos alimentares.

Assim, a identificação desses fitólitos revelou que os habitantes do sambaqui Ilhota 2 tinham uma dieta baseada em peixes de água salgada e frutas, como jerivá.

ossadas BR-470
Raquel Schwengber/Divulgação

No local, também foram encontrados coquinhos carbonizados dessa fruta. Esse padrão alimentar contrasta com o de outros sítios da região, onde foram identificados o consumo de milho e batata-doce.

A mulher estudada apresentava ainda baixa incidência de cáries dentárias.

Estudo foi identificado raro e ossadas encontradas na BR-470 foram preservadas no Brasil

O estudo foi considerado raro no Brasil e exigiu uma extensa consulta à bibliografia especializada. Outros especialistas também foram envolvidos para contribuir com a pesquisa.

Na época, somente as amostras do tártaro permaneceram com os arqueólogos. As demais partes das ossadas foram encaminhadas à reserva técnica da Universidade do Extremo Sul Catarinense, em Criciúma.

Raquel Schwengber/Divulgação

Por serem frágeis, os corpos foram armazenados em ambiente com controle de iluminação e temperatura. Atualmente, eles não são expostos ao público, mas podem ser estudados por cientistas.

“Não temos uma verdade completa, mas esse sítio abriu uma janela importante para compreendermos parte da história dessas populações antigas. O que encontramos aqui é mais antigo que o Império Romano e único por diversos fatores. Conseguimos preservar o material e realizar um estudo preciso. Isso garante que, mesmo com a escavação, os dados estejam registrados e disponíveis para futuras análises”, finaliza o arqueólogo.

Raquel Schwengber/Divulgação

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