Das Kino - Um olhar crítico sobre o cinema

Jéssica Frazão é doutoranda na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e escreve sobre cinema, artes e produção audiovisual.

Em tempos de pandemia, chegou a hora e a vez dos cinemas drive-in

Modelo de exibição é alternativa ao isolamento social exigido durante a pandemia de coronavírus

Das Kino - Um olhar crítico sobre o cinema

Jéssica Frazão é doutoranda na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e escreve sobre cinema, artes e produção audiovisual.

Em tempos de pandemia, chegou a hora e a vez dos cinemas drive-in

Modelo de exibição é alternativa ao isolamento social exigido durante a pandemia de coronavírus

Em meio à pandemia do novo coronavírus, os cinemas drive-in estão passando por um inesperado ressurgimento. Tiveram seu momento de glória nas décadas de 1950 e 1960, nos Estados Unidos, um país que já contou com mais de cinco mil cinemas com este formato, a maior parte em áreas rurais. No Brasil, a popularização ocorreu nos anos 1960 e 1970.

Patrimônio cultural, o Cine drive-in de Brasília era, até pouco tempo atrás, o único cinema drive-in em funcionamento em toda América Latina. Existente desde 1973, possui a maior tela de projeção cinematográfica do país, com 312 m². Conta com projetor digital desde 2015, graças ao auxílio, na época, oferecido pela Ancine (Agência Nacional de Cinema) aos pequenos e médios empreendimentos de cinema.

Os cinemas drive-in passaram a ser uma alternativa em tempos pandêmicos justamente pela viabilidade de assistir ao filme de dentro dos carros, com o distanciamento social exigido. O cine drive-in tem o privilégio de, neste momento complicado, trazer um pouco mais de vida aos brasileiros, ainda que de forma reduzida.

Cine drive-in de Brasília. Foto – Vítor Mendonça

Com capacidade para 380 veículos, o Cine drive-in de Brasília só permite, no máximo, 200 automóveis por sessão, com distanciamento obrigatório entre as vagas. Além disso, é proibido, como se costumava fazer, assistir aos filmes em cadeiras de praia ou em cangas, e o uso do banheiro é permitido apenas com uma pessoa por vez, com obrigatoriedade do uso de máscaras. A venda de lanches também está proibida, como reforça a sócia proprietária e administradora do drive-in, Marta Fagundes.

A procura dos espectadores pelo drive-in, contudo, nem sempre foi assim. Um pouco dessa história está representada no longa-metragem ‘O último Cine Drive-in’, de Iberê Carvalho, uma produção brasileira gravada no Distrito Federal que está no catálogo da Netflix.

A narrativa nos apresenta Marlombrando, jovem obrigado a voltar a Brasília, sua cidade de natal, devido à doença de sua mãe, Fátima. Lá, ele reencontra seu pai, Almeida, dono do Cine drive-in há 37 anos. Ele insiste em manter vivo o cinema, mesmo não atraindo mais espectadores, como na década de 70.

Com a ameaça de demolição do Cine drive-in e o agravamento da doença de Fátima, pai e filho se unem para reviver o espaço.

Dadas as condições atuais, outros cinemas no modelo drive-in já estão ou em funcionamento, ou com previsão para inauguração muito em breve. Exemplo é o cine drive-in situado no Litoral Plaza Shopping, na Praia Grande, litoral de São Paulo, um projeto criado pela Cinesystem.

Em São Paulo capital, o Allianz Parque inaugurará o “Arena Sessions”, que contará com filmes, shows e palestras para serem assistidas de dentro dos automóveis.

No Rio de Janeiro, a Cidade das Artes anunciou a inauguração de um cinema drive-in até o fim de maio. Com valorização maior do cinema brasileiro, o filme de inauguração será “Deus é Brasileiro”, de Cacá Diegues, uma homenagem aos 80 anos do cineasta, aniversariante do mês.

Com curadoria da Cinemateca do Museu de Arte Moderna e da Rio Filme e diferentemente de outros drive-ins, aqui há uma preocupação em direcionar parte da renda para aos trabalhadores do setor cultural, um dos mais afetados e desmerecidos do governo Bolsonaro, mesmo antes do início da pandemia.

Paralelamente, vários outros cinemas drive-in estão sendo criados, tanto no Brasil quanto no mundo. No Irã, a criação do primeiro cine drive-in, em 41 anos, alterou significativamente a vida dos iranianos. A primeira sessão apresentou o filme “Exodus”, de Ebrahim Hatamikia.

Cine drive-in de Brasília. Foto – Luís Tajes (Setur-DF)

Os cinemas drive-ins foram proibidos de existir no país desde a chamada “revolução islâmica” de 1979, e agora, por conta da Covid-19, o Irã, que já conta com mais de 100 mil infectados e 6,684 mortes, é um dos exemplos de nação que sofre com alterações estruturais de exposição da cultura.

Os pontos positivos dos cinemas drive-in são muitos: possibilitar segurança aos espectadores para fazerem uso dos seus carros com roupas e calçados confortáveis, utilizar o celular, conversar, namorar e comer lanches sem o risco de incomodar os outros, possibilitar que também as pessoas obesas e com deficiência (PcD) (desde que pensando em tecnologia devidamente assistiva) sintam-se mais confortáveis dentro dos automóveis, bem como idosos, bebês e crianças pequenas, que podem fazer barulho sem reprovações.

O velho cine drive-in está de volta. Resiste ao tempo. Proporciona uma experiência bastante diferente em relação às grandes redes de cinema e multiplexes. Será que Blumenau também não mereceria ganhar um cine drive-in, uma alternativa aos cinemas dos shoppings centers e às cinematografias estadunidenses?

Colabore com o município
Envie sua sugestão de pauta, informação ou denúncia para Redação colabore-municipio
Artigo anterior
Próximo artigo