Das Kino - Um olhar crítico sobre o cinema

Jéssica Frazão é doutoranda na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e escreve sobre cinema, artes e produção audiovisual.

“Por que o filme Bacurau não veio para Blumenau?”

Colunista questiona posicionamento de salas de cinema locais terem deixado de exibir a película

Das Kino - Um olhar crítico sobre o cinema

Jéssica Frazão é doutoranda na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e escreve sobre cinema, artes e produção audiovisual.

“Por que o filme Bacurau não veio para Blumenau?”

Colunista questiona posicionamento de salas de cinema locais terem deixado de exibir a película

Bacurau (2019), de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, está na contramão do desmonte no audiovisual que passamos no país. O filme faz parte de um cinema feito no Nordeste que, descentralizando a produção do eixo Rio-São Paulo, ganha cada vez mais visibilidade internacional, como o prêmio do júri do Festival de Cannes e a principal crítica do mês de setembro na tradicional Cahiers du Cinéma, isso apenas para citar algumas menções.

Desde a sua estreia no Brasil, há 2 meses, Bacurau vem se mostrando um sucesso de crítica e público. Ainda em cartaz em diversas cidades brasileiras, em Santa Catarina foi possível assisti-lo apenas na capital, Florianópolis, deixando o público da maior cidade do estado, Joinville, e da terceira cidade mais populosa, Blumenau, impossibilitado de contemplar seu próprio produto nacional.

Victor Jucá / Divulgação

Inacreditável é perceber que a produção foi exibida em cidades muito menores Brasil afora, como Altamira, no Pará, com pouco mais de 100 mil, Itajubá, em Minas Gerais, com 96 mil, Frederico Westphalen, no Rio Grande do Sul, com 30 mil, ou ainda Três Passos, também no Rio Grande do Sul, com apenas 23 mil habitantes.

Sabendo disso, contatei os três exibidores de Blumenau, o GNC Cinemas, o Arcoplex Cinemas e o Cinépolis para mais esclarecimentos. Obtive respostas que iam desde a falta de demanda ou de cópias disponíveis até possíveis empecilhos advindos da distribuidora da obra audiovisual, no caso a Vitrine Filmes.

Entretanto, o filme já foi visto por mais de 700 mil pessoas e esteve presente em 298 salas, incluindo cidades muito menores que a nossa, ainda que em sessões esporádicas.

Victor Jucá / Divulgação

Será mesmo que é um problema de distribuição ou também há falta de vontade dos multiplexes em proporcionar essa experiência ao espectador para além dos blockbusters?

Tais questionamentos reacendem o debate sobre os direitos dos consumidores, ainda mais se lembrarmos, por exemplo, que o filme Vingadores Ultimato, também lançado esse ano, ocupou 80% das salas de cinema do Brasil, uma ocupação feita de forma massiva e chamada na época pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) de “lançamento predatório”.

Há tempos estamos reféns de um cinema hegemônico. Um cinema que dificilmente daria espaço para filmes como Bacurau, que fala da nossa gente, que fala de um Brasil com foco na construção discursiva de sujeitos sociais minoritários: os esquecidos, os interioranos, os subalternos, os negros e negras, as prostitutas, a cangaceira trans, todo um cangaço de lutas representado na tela e que fala da união do coletivo pela necessidade de viver, de manter-se atento e forte, e não de matar. Em outras palavras, um retrato do Brasil distópico do tempo presente.

Victor Jucá / Divulgação

Bacurau é um filme sobre resistência e de resistência. Para alcançar os espaços, é preciso não apenas criticar a centralização das salas de cinema e a forma com que o nosso sistema de exibição de filmes trabalha, um modelo, em geral, de quase aniquilação de possibilidades para além dos blockbusters. É preciso, principalmente, perceber a urgência da formação de público para o cinema nacional.

Historicamente, o Brasil é um país com formação cinematográfica precária. Formar público vai além de dar acesso às produções. É propor ferramentas para que o espectador conheça e compreenda suas produções nacionais, e com isso tenha uma experiência completa com a linguagem audiovisual.

Victor Jucá / Divulgação

É saber que o filme não acaba quando sobem os créditos finais, ele pode permanecer conosco e extrapolar os limites do próprio filme. É fazer o brasileiro apreciar seu próprio produto cultural, diminuindo nosso vira-latismo diante da importância que damos a tudo que é estrangeiro. Aliás, o Bacurau nos ensina muito sobre isso também.

Para finalizar, se o filme não veio para Blumenau por falta de vontade, melhor esquematização, interesse ou prejulgamento dos exibidores de que não haveria demanda por aqui, nem mesmo para sessões intermitentes entre outros filmes em cartaz, estamos criando um movimento totalmente independente para tentar trazer o filme para a cidade, justamente pelo direito dos consumidores blumenauenses de assistirem a essa importante obra nacional.

Assim como os moradores de Bacurau, que tiveram que se organizar para sobreviver, por aqui também há organização e resistência para fazer viver um cinema que é nosso.

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