Das Kino - Um olhar crítico sobre o cinema

Jéssica Frazão é doutoranda na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e escreve sobre cinema, artes e produção audiovisual.

Três séries da Catalunha para maratonar na Netflix

Colunista apresenta três seriados catalães à disposição no serviço de streaming

Das Kino - Um olhar crítico sobre o cinema

Jéssica Frazão é doutoranda na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e escreve sobre cinema, artes e produção audiovisual.

Três séries da Catalunha para maratonar na Netflix

Colunista apresenta três seriados catalães à disposição no serviço de streaming

Línguas minoritárias no streaming

Produzidas originalmente para a TV3, emissora de televisão pública da Catalunha com conteúdo televisivo apenas em catalão, as séries que mencionarei nesta publicação vêm conquistando o público estrangeiro graças a possibilidade de acesso pelo serviço de streaming Netflix.

Estas produções funcionam como uma estratégia política e contribuem para disseminação da língua e cultura da região. Tudo começa por intermédio da Catalan Films & TV, um programa de internacionalização do audiovisual ligado ao ICEC (Instituto Catalão das Empresas Culturais).

Além do incentivo aos mercados e festivais internacionais, existe um encorajamento para coproduções, distribuição destes projetos e acompanhamento de projetos audiovisuais em suas distintas etapas do processo. É dessa forma que a Netflix, uma das maiores empresas estrangeiras de distribuição e parceiras do ICEC, viabiliza o acesso a séries e filmes em idioma catalão.

A Catalunha compõe 40% da indústria fílmica da Espanha e produz, em média, 80 longas-metragens ao ano. Uma destas obras é conhecida como Verão 1993, selecionada como representante espanhol na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar 2018. A título de comparação, um país com proporções como o Brasil produziu 185 longas-metragens em 2018.

Diferentemente do ICEC, que proporciona fomento estatal para produções locais, por aqui estamos sofrendo, desde abril de 2019, uma paralisação de verbas e censura voltadas para o principal órgão de produção de filmes e séries no país, a Agência Nacional do Cinema (Ancine), intermediadora do fomento para o audiovisual brasileiro.

As agências de fomento, sendo lugar da cultura, são também espaços privilegiados para narrativas televisivas e ficcionais experimentais. Em corrente iniciada na Austrália e no Reino Unido, a Catalunha prioriza as indústrias culturais e criativas como fator de competitividade e desenvolvimento econômico e cultural.

Desse modo, além de cultura e arte, os órgãos responsáveis entendem que o audiovisual é também gerador de emprego e renda. A TV3, campeã de audiência, além de reforçar sua liderança durante todas as tentativas recentes de independentismo catalão, produz um número significativo de séries televisivas vencedoras de prêmios internacionais.

A universalidade dos temas e a normatização da língua nestas produções provocam uma naturalidade junto ao público estrangeiro. Ficou com curiosidade? Comento a seguir sobre três séries catalãs disponíveis na Netflix para maratonar.

1. Merlí

Sendo a mais conhecida série da Catalunha entre os brasileiros, Merlí nos apresenta a história de um professor de filosofia do ensino médio que, por meio de métodos de ensino nada convencionais, incentiva seus alunos a pensarem criticamente.

Criada por Héctor Lozano e dirigida por Eduard Cortés, a produção conta com três temporadas e tem o intuito de mostrar, por meio do humor, como a filosofia pode ser apaixonante, agradável e estimulante, atividade do pensamento não pertencente unicamente aos eruditos.

Extremamente bem recebida, Merlí é a segunda série de ficção mais bem-sucedida da TV3. O protagonista é anti-herói, subversivo, misógino e desajustado às convenções sociais. Pensando por este lado, poderia faltar interesse em ver a série, mas na medida em que vamos conhecendo mais da personalidade do protagonista, percebemos que o que ele faz é provocar, a seu modo, o senso crítico dos seus alunos.

Com metodologia próxima de Sócrates, que estimulava os cidadãos atenienses a buscarem a verdade por meio da dúvida, este professor de Filosofia utiliza piadas e ironia para incentivar com que o estudante pense por si mesmo e enfrente os desafios do cotidiano.

Similaridades entre a série e o filme Sociedade dos Poetas Mortos são visíveis. De um jeito cativante, cada episódio se baseia em algum pensador ou escola filosófica, de modo que o espectador se aproxime naturalmente de conceitos ou ideias que serão aplicadas mais adiante no dia a dia dos alunos.

Dessa forma, conhecemos melhor os peripatéticos (nome em que Merlí chama carinhosamente sua turma), e alguns dos filósofos por eles estudados: Sócrates, Aristóteles, Nietzsche, Schopenhauer, entre outros.

Dentre as críticas que a série da Catalunha já recebeu, a forma simplória com que trata dos temas filosóficos é uma das mais ressaltadas. Entretanto, para o jovem que está tendo contato com ideias filosóficas pela primeira vez, a série tem função educativa importante, ainda mais se levarmos em consideração que o audiovisual é um poderoso veículo capaz de estimular o interesse nas pessoas de seguirem estudando uma temática que lhes interessa.

Em um ambiente não necessariamente harmonioso, os estudantes representam um grupo bastante diversificado, e Merlí tem que aprender a lidar: com o próprio filho (também seu aluno), em um momento em que ele está descobrindo sua sexualidade; com um estudante que parou de ir à escola por ter sofrido bullying, com uma garota rebelde dentro de sala, com um garoto estudioso e tímido, de família extremamente rígida; entre tantos outros.

Questões como identidade sexual, relacionamento com os pais, primeiros namoros, exposição nas redes sociais etc, são abordadas, em uma espécie de conversa informal em que Merli é mentor e conselheiro. Digamos que a construção e desenvolvimento de todos esses personagens dentro da série servem de subsídio, na prática da vida, para uma reflexão de descoberta de um mundo de pensamento. Além do corpo discente e docente, os familiares também participam da trama, e cada personagem apreende e a expõe a sociedade catalã de maneira singular, indo desde o conservadorismo ao desejo de ampliar os costumes para o novo.

2. Bem-vindo à família (Benvinguts a la família)

Depois do sucesso de Merlí, a TV3 confiou a esta ficção da Catalunha, criada por Pau freixas e Ivan Mercadé, a tentativa de o canal seguir sendo uma referência. De fato, a série também teve êxito na Catalunha. Na Netflix do mundo inteiro, ela estreou em 27 de julho de 2018, e conta com uma temporada até o momento.

A história narrada é da família de Ângela Navarro, mulher divorciada, com três filhos. Certo dia, ela recebe uma ordem de despejo, por falta de pagamento da hipoteca do apartamento, e se vê obrigada a voltar para a casa do seu pai, alguém que não fala há mais de 10 anos.

Nessa situação, conhece Victoria, a segunda esposa de seu pai, uma atriz fracassada e alcoólatra. Na casa do pai também mora a filha de Victoria, Àlex. O pai de Ângela acaba morrendo na piscina de sua casa, durante a visita da filha.

Tanto Ângela quanto Victoria, quando percebem que não constam no testamento do patriarca, resolvem elaborar um plano para encobrir sua morte. No enredo, lemos: “Algumas famílias são de nascença.

Outras, formadas ao longo da vida, enquanto escondem o cadáver do pai em um freezer”. De forma pouco convencional, a narrativa prende a atenção do espectador uma vez que de algum modo, nos interessamos em saber se a família será bem-sucedida ou não.

Reafirmando a compreensão e acesso diante da audiência internacional, a série conta com uma variedade de legendas e dublagens, incluindo português brasileiro. Com uso equilibrado de elementos cômicos e trágicos, a produção vai nos apresentando o cotidiano da família.

Ângela, que quando criança sonhava em ter uma família perfeita, foi abandonada pelo marido e se vê passando por sérios problemas financeiros. A série propõe, com uso do humor, uma crítica social importante. Ângela é uma mulher divorciada e trabalhadora, que dedica sua vida ao bem-estar da sua família.

Quando se vê em situação de desamparo, não mede esforços para que todos tenham algo para comer e local para dormir. O que vemos, enfim, é uma narrativa com toques de humor negro sobre uma família real e pouco convencional, um tanto atípica e desestruturada, mas que do seu jeito próprio, se faz unida.

A cada episódio, temos uma infinidade de situações inverossímeis, decisões absurdas e comentários fora do lugar, o que, de certo, nos provocará gargalhadas.

3. Se eu não tivesse te conhecido (Si no t’hagués conegut)


Partindo do imaginário que envolva situações históricas alternativas, viagens ao passado que modificam o presente, e personagens que quebram as sequencias lógicas de tempo e espaço, Se eu não tivesse te conhecido propõe uma reflexão sobre o que seria das nossas vidas se pudéssemos mudá-la em uma realidade paralela.

Em dez episódios, conhecemos a história de Eduard, um homem que perdeu sua família em um acidente de carro, situação indiretamente causada por ele mesmo. Por conta da culpa e da depressão, ele decide tirar sua própria vida quando, no momento em que ia se jogar de uma ponte contra um trem em movimento, é salvo por uma velha senhora chamada Doutora Everest, que lhe oferece uma segunda chance para alterar sua realidade e da sua família por meio do acesso a dimensões paralelas. Eduard vê, então, uma oportunidade de mudar os acontecimentos, mesmo que isso signifique nunca conhecer o amor da sua vida, falecida no acidente.


Com pitadas de ficção científica inspirada na concepção original do famoso dramaturgo catalão Sergi Belbel (que assina a série ao lado dos roteiristas Cristina Clemente e Roc Esquius), esta série não quer focalizar nossa atenção nas explicações sobre passagem aos universos, e sim, em como os acontecimentos diferem, transformando-nos psicológica e emocionalmente.

Além de elementos de ficção científica, há espaço para o drama, o romance e o mistério. A maior lição está na reflexão de como seria se pequenas mudanças pudessem afetar nossas vidas. Os roteiristas nos fazem perceber, entretanto, que não importa a decisão tomada, a vida nos leva sempre para certos momentos de início/fim, capazes de explicar nossa existência. Os universos paralelos surgem, portanto, como variações da mesma trama.

A série explora, sem se aprofundar, na tese de múltiplos universos (multiverso) de Stephen Hawking, ideia existente na Teoria das Cordas, afirmando que mais de um universo surgiu durante o Big Bang, e que, portanto, viver em realidades alternativas seria possível. Assim como a série alemã Dark, Se eu não tivesse te conhecido possibilita de igual forma que o personagem do futuro viaje no tempo e se depare com ele mesmo do passado.

Percebemos nuances políticas, sociais e econômicas que já aconteceram ou ainda irão acontecer, inclusive em relação à luta pela independência da Catalunha, que sequer era imaginada quando conhecemos o Eduard do passado. Em resumo, o fator primordial da relação do personagem e dos universos paralelos está na maneira como, a partir das perdas e conquistas, ele reflete e se transforma.

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