Economista compara impacto da greve dos caminhoneiros com o da tragédia de 2008

Nazareno Schmoeller explica como a mobilização pode afetar a geração de empregos e os preços de produtos

Economista compara impacto da greve dos caminhoneiros com o da tragédia de 2008

Nazareno Schmoeller explica como a mobilização pode afetar a geração de empregos e os preços de produtos

Bianca Bertoli

Os efeitos da greve dos caminhoneiros ainda estão sendo analisados em diversos setores. No econômico, é cedo para mensurar com exatidão as cifras que deixaram de entrar na grande máquina que faz Blumenau girar.

Nazareno Schmoeller coordena o Sistema de Informações Gerenciais e de Apoio à Decisão (Sigad), um projeto da Furb que armazena dados sobre a economia local. Ele também é chefe do Departamento de Economia. Para Schmoeller, o momento é anestésico para empresários e consumidores. Mas tão logo os números comecem a ser consolidados, as consequências ficarão aparentes.

O economista acredita que serão necessários meses para recuperar os prejuízos causados. Entre os impactos esperados estão piora do emprego e alta de preços. Em entrevista ao Município Blumenau, Schmoeller comparou a situação atual com os impactos causados pela tragédia de 2008 na economia de Blumenau. E disse que os efeitos podem ser até piores. Confira:

Furb/Divulgação

O Município Blumenau: Uma greve de 10 dias pode gerar consequências por quanto tempo?

Nazareno Schmoeller: Nossa expectativa é de pelo menos três meses até começar a normalizar e ter uma verdadeira análise de quais são os efeitos. Porque nós estamos assim meio que anestesiados. Só vamos sentir as dores depois que passar o efeito da anestesia.

Quais serão os resultados mais imediatos?
A nossa percepção é a seguinte: primeiro depende da expectativa que for gerada na economia no sentido de postura dos empresários, postura do governo, postura dos consumidores em relação ao que cada um desses agentes fizeram de interpretação da greve. Essa expectativa vai ser fundamental para o resto do ano.

Abala as perspectivas de melhoras na economia?
Abala. Todos os planejamentos precisam ser refeitos. A questão ruim é que pegou todo mundo, a questão boa, não sei se pode ser boa ou menos mal, é que nivela todo mundo num patamar mais baixo. E aí todos vão buscar a recuperação. É nisso que se aposta.

Vai gerar alta de preços?
Há uma ideia de que os preços devem aumentar. Deve ter um aumento de preço na cadeia produtiva. E sabe-se o que se chama na economia de choque de oferta. Por exemplo: uma greve de caminhoneiros ou uma estiagem, etc, os preços das matérias-primas sobem impactando no preço final. O preço sobe, mas o salário dos trabalhadores, não. Evidentemente então que o consumo cai. Quando o consumo cai, significa queda de renda.

Pode gerar desemprego?
Pode gerar desemprego. Por isso que o cenário vai ser feito pela expectativa que cada um desses agentes interpretarem. Se tiver uma leitura de mudança, uma leitura positiva, isso tem impacto nos negócios. As pessoas se animam a comprar, vender etc. Se a expectativa for ruim, todo mundo se retrai. Eu sou sempre otimista, creio que pode dar esse sentimento de que a população pode mudar as coisas, pode se mobilizar, participar etc.

Nós vamos perceber isso quando?
Eu acho que já nesse primeiro mês vai se sentir alguma coisa. Além de que junho, julho e agosto são meses ruins para emprego. Já é uma época de empregabilidade bem ruim.

E quando se fala em alta de preços, é em todos os setores?
Praticamente em todos os setores. Porque acaba tendo um efeito chamado de encadeamento. Tudo vai depender da demanda, mas um pouco de repasse nos preços é possível fazer, outros não porque a renda não aumenta para consumir.

E sobre o preço da gasolina?
O preço está muito alto, subiu muito e muito rápido. Em Blumenau nós tínhamos gasolina, a mais cara, a R$ 3,99. Agora a mais barata está R$ 4,20. Eu acho que vai cair o preço, porque o consumo vai cair e também porque o dólar vai cair. Então a expectativa é de que o preço do combustível deva cair.

Que setores podem ser mais afetados?
É bem difícil no momento dizer. De imediato são os produtos gêneros de primeiras necessidades [frutas, granjas, etc]. Eu acho que todos os setores que trabalham nessa cadeia produtiva, leite, derivados, frutas, verduras…Esses vão ter impacto mais imediato. O restante depois é um efeito de encadeamento na economia como um todo.

Já dá para medir o quanto essa greve custou para Blumenau?
Ainda é cedo. O que podemos entender é que por exemplo, Blumeneu gera R$ 50 milhoes de Produto Interno Bruto (PIB) por dia. Então se as atividades caíram 20%, você tem em 10 dias, uns R$ 100 milhões. Em 2008 [desastre climático] nós calculamos em torno de R$ 80 milhões, R$ 100 milhões de perdas para a atividade econômica. Então, agora é bem possível que o efeito até possa ser um pouquinho maior.

Quando se fala que a greve afetou a confiança na economia, o que isso quer dizer?
Afetou a confiança no sentido de que: ‘puxa, eu vou tocar minha vida, meu negócio e daqui a pouco tem outra greve dessa’. Nesse sentido. Mas eu acho que não, por um momento nós vamos perder a confiança, depois disso você sai mais experiente. Você vai vendo que a roda gira, tu se prepara melhor para os próximos eventos. Um crise gera outras oportunidades. Num primeiro momento abala a confiança, mas depois começa a ver: ‘ah, não podemos ficar tão reféns do transporte rodoviário, temos que ter alternativas’.

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