Empresas de Blumenau se reinventam para tentar sobreviver à pandemia

Conheça iniciativas que empresários aderiram para tentar se manter durante isolamento social

Empresas de Blumenau se reinventam para tentar sobreviver à pandemia

Conheça iniciativas que empresários aderiram para tentar se manter durante isolamento social

Alice Kienen

Após 26 dias com as portas fechadas, a maior parte do comércio blumenauense voltou a atender na segunda-feira do dia 13. Já os shoppings e centro comerciais só foram liberados nesta quarta, 22.

Apesar das imagens do shopping no Centro da cidade mostrarem uma multidão entrando no estabelecimento após um mês fechado, a realidade é bem diferente. Nem mesmo nos centros comerciais as vendas foram expressivas.

Isso se deve a diversos fatores. Além de que os comércios não podem permitir que o cliente prove ou experimente os produtos, muitas pessoas ainda estão cumprindo o isolamento domiciliar e evitando sair de casa.

Fora isso, boa parte da população foi afetada pela crise econômica causada pela pandemia. De acordo com uma pesquisa do Sebrae, cerca de 406 mil catarinenses perderam o emprego nas últimas semanas.

Uma das medidas tomadas pelo comércio logo no início da pandemia foi o delivery. Mesmo os estabelecimentos que não possuíam o serviço, aderiram às entregas para manter parte da renda. Um deles foi o Factory Coffee Bar, localizada na avenida Beira Rio.

“Já estávamos estudando passar a entregar antes da pandemia. Mas é uma produção e uma estrutura muito diferente. Nossa cozinha é enxuta e cobre uma demanda específica. Passamos duas semanas planejando e estamos aprendendo muita coisa na marra”, conta Marcelo Kaiser, sócio da Barba Ruiva Produções.

Kaiser conta que ver a marca sendo espallhada pela cidade é uma das alegrias do período. Foto: Factory Coffe Bar

O restaurante permanece fechado. Por ser um espaço pequeno, seria difícil cumprir todas as normas. Além do mais, caso o isolamento fosse determinado novamente, a burocracia seria ainda maior.

O empresário também comenta que a união entre outros donos de restaurante têm se fortalecido neste período. Em um grupo do qual ele faz parte, todos compartilham dicas, pedem ajuda e comentam sobre suas experiências.

A empresa conta ainda com duas casas de festa, que estão sem renda. Uma das soluções foi vender parte do estoque de produtos. Um deles, o Ahoy, completaria 10 anos neste mês, mas todos os eventos e produtos relacionados precisaram ser cancelados.

E quando a equipe faz parte do grupo de risco?

Apesar dos comércios, restaurantes e academias terem sido liberados para abrirem suas portas, funcionários no grupo de risco ainda precisam ter sua saúde preservada. Na Cafeteria Especial, isso representa praticamente toda a equipe.

Voltada para a inclusão social e empregando apenas pessoas com Síndrome de Down, o endereço ficará fechado por tempo indeterminado. Para passar a entregar alguns produtos e manter parte da renda, Giorgio Sinestri, proprietário do restaurante, contou apenas com a ajuda da gerente do local.

“Nunca trabalhamos com delivery porque nossa prioridade é sempre empregar pessoas com deficiência. Na entrega isso não é tão simples. Depois do decreto, precisamos começar do zero de novo. Afinal, não dá pra entregar uma xícara de café”, explica.

Giorgio Sinestri (dir.) e Delfino Andrade, seu sócio, com funcionários da cafeteria. Foto: Divulgação

Com o tempo, voluntários se ofereceram para colaborar com o serviço. Foram três dias estudando técnicas. O novo cardápio e o funcionamento do restaurante estão sendo adaptados a partir da demanda e das ideias que surgem com o tempo.

Todos os sábados, o restaurante trabalha com almoços especiais, como risotos, feijoada e entrevero. Na quinta-feira, é o dia da comida árabe. Ainda assim, a queda no faturamento foi de quase 90%. Além da falta de estrutura, a casa não é conhecida pelo delivery, então os pedidos não suprem a necessidade. Porém, Sinestri não cogita abrir a casa sem a equipe.

“Imagina obrigar uma pessoa a vir de máscara pra comer? Ou usar luva descartável em um ambiente que está todo ligado com o abraço, a afetividade e o carinho? Estamos descobrindo como fazer isso sem tirar a essência do projeto e a alegria que a casa sempre teve”, relata Sinestri.

O empresário defende o isolamento e acredita que a melhor forma de tomar todas as decisões é baseado nas evidências científicas. A prioridade da cafeteria é manter o emprego e o salário de todos os funcionários.

Uma das soluções encontradas foi o Voucher Especial. Metade do valor é revertido em produtos que podem ser adquiridos quando a casa reabrir. A outra metade é uma contribuição para que a empresa se mantenha. Com a participação da comunidade, a empresa conseguiu garantir o salário dos funcionários.

“Acima de tudo, nossa preocupação é com a coletividade. Queremos tomar a melhor decisão pensando em todo mundo. Isso envolve manter nossa equipe, mas também cuidar dos nossos clientes. Cada decisão é feita com amor”, conta.

Blumenau sem feirinhas

Entre os eventos cancelados por conta da pandemia estão as feirinhas de rua. A da Servidão tentou reverter o prejuízo das marcas criando uma vitrine virtual com 35 produtores de Santa Catarina. Entretanto, mesmo marcas que também trabalham com entrega sentiram o impacto da queda nas vendas.

A Modo Avião, que produz camisetas há oito meses, investiu no e-commerce, focou nas produções de conteúdo para redes sociais e desenvolveu uma nova coleção. Eles abriram mão da feirinha virtual e focaram o marketing em influencers e mídia patrocinada.

“Esse tem sido um período bem desafiador para gente. Como uma empresa nova, já temos os desafios comuns para quem começa a empreender no Brasil, como alta carga tributária, concorrência desleal, pouco know-how etc. O coronavírus foi um ingrediente a mais nesse panelão”, desabafa André Cantoni, que criou a marca com a companheira, Joice Morastoni.

Casal que vendia camisetas nas feirinhas de Blumenau precisou se adaptar. Foto: Arquivo pessoal

Para incentivar as vendas, a marca lançou o Voucher do Bem. Adquirindo o produto, o cliente recebe 50% a mais em crédito. Pagando R$ 40, por exemplo, o cupom se reverte em R$ 60.

O voucher pode ser usado até o último dia de 2020. Também é possível usar apenas parte do cupom, deixando o restante do valor para a próxima compra. Além, é claro, de presentear alguém com o valor.

“É uma forma de nos ajudar agora que estamos passando por essa dificuldade na economia e o cliente de valorizar mais o seu dinheiro nesse momento em que todos precisam otimizar seu capital”, diz Cantoni.

A marca virou notícia no início do ano após lançar uma estampa em braile. Parte do lucro da camiseta é revertido para causas para pessoas com deficiência visual. A Modo Avião também aceita encomendas de estampas personalizadas.

Pequenas marcas são as mais impactadas

Além das tradicionais feirinhas, outro espaço de Blumenau abriga diversas marcas menores da região: a Enxame. A loja colaborativa abriga dezenas de marcas locais de pequenos produtores.

“Esse é um momento complicado para as marcas, pois a maioria tem pouco fluxo de caixa e depende das vendas de cada mês. Num momento como esse as pessoas tendem a comprar menos”, comenta Maria Eduarda Boaventura, que fundou o espaço com o companheiro Roberto Jantsch.

Inicialmente, a Enxame priorizou a divulgação dos pequenos empreendedores que estavam atendendo com delivery na região. Em seguida nasceu o e-commerce da loja, com as entregas sendo feitas pelo casal.

“Foram adaptações que precisaram ser feitas rapidamente e com todos os cuidados: distanciamento, álcool, máscara e dando preferência para pagamento por transferência”, conta a empresária.

Apesar da liberação para a reabertura das lojas, a Enxame preferiu abrir apenas a janela. O objetivo é garantir a segurança da equipe e dos clientes, que continuam fazendo os pedidos pelo site ou pelo Instagram.

Especial O Município Blumenau

Maria Eduarda defende que este é um momento para analisar ainda melhor as marcas que selecionamos. Pensando não apenas em onde investir o dinheiro, mas também em quem será financiado por ele.

“Hoje, mais do que nunca, precisamos investir em algo que acreditamos. Em marcas que queremos ver fortes e vivas. Porque com tudo que tem acontecido, muitas empresas podem fechar. Para mantê-las fortes, é preciso apoia-las e comprar de forma consciente”, recomenda.

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