Falta de hormônios de crescimento no SUS de Blumenau atrasa tratamento de crianças

Problemas na distribuição do medicamento afetam diversos municípios do estado

Falta de hormônios de crescimento no SUS de Blumenau atrasa tratamento de crianças

Problemas na distribuição do medicamento afetam diversos municípios do estado

Alice Kienen

Em muitos momentos da vida cotidiana precisamos responder dois números: nosso peso e estatura. Enquanto o primeiro ainda está parcialmente sob nosso controle, o segundo é definido por uma mistura de genética e questões como boa nutrição e saúde.

Basicamente, é uma questão de sorte. E de hormônios. Como tudo no corpo humano, nem sempre a quantidade de hormônios de crescimento produzido pelo nosso corpo é suficiente. Essa deficiência é a responsável por problemas de crescimento em diversas crianças e adolescentes.

Para impedir que a altura final das crianças não passe de 1,30 metro, a solução é injetar hormônios de crescimento sintéticos. Maria Eduarda é uma das blumenauenses que depende do medicamento para alcançar uma estatura adequada.

Hoje com 13 anos, a pré-adolescente iniciou o tratamento em fevereiro de 2018, mas há dois meses precisou interrompê-lo pela falta do medicamento na Farmácia de Alto Custo de Blumenau. Ana Cláudia Figueiredo, mãe de Maria Eduarda, segue buscando por respostas que expliquem a situação.

“Desde o início de junho está assim. Duas vezes agendaram um horário para buscarmos o medicamento, mas quando chegávamos lá, não tinha. E ninguém sabe explicar o motivo da falta ou por que ainda não foi comprado”, relata.

De acordo com Ana Cláudia, a médica alertou a família de que isso era comum no passado. Ela descreveu a distribuição do medicamento como uma “loteria”. Entretanto, foi apenas no início deste ano que a situação voltou a ser comum.

“Se atrasasse alguns dias eu até poderia pagar, mas como não existe previsão alguma de voltar eu não posso arcar com esse custo. Cada ampola custa pelo menos R$ 200 e dura no máximo três dias. Algumas crianças precisam de uma inteira por dia”, comenta.

A entrega da medicação tem atrasado desde janeiro, mas foi no início de junho que ela ficou indisponível. Ela também relata que acompanha vários grupos de familiares sobre o tratamento e que a situação se espalha em todo o estado, mas não parece se repetir em outras regiões do país.

“Eu tentei ligar na ouvidoria da secretaria do estado e não me deram respostas, apenas me instruíram a ligar para o setor de compras, já que ouvi que o problema seria com o fornecedor. Quando pedi o número deles a atendente apenas riu da minha cara e desligou o telefone”, conta.

Segundo a médica que acompanha Maria Eduarda, cada dia que ela passa sem o hormônio representa uma semana de atraso no tratamento. Ana Cláudia comenta que a filha estava respondendo muito bem ao medicamento e já cresceu dez centímetros neste um ano.

“É um tratamento delicado e que não pode ser interrompido. É uma pena. Ainda não sabemos quais serão as consequências dessa pausa forçada. E mesmo se eu pudesse pagar, é muito controlado e complicado. Não é só ir na farmácia e comprar”, comenta.

Para ter direito ao tratamento, a criança precisa passar por diversos exames médicos que comprovem a deficiência do hormônio do crescimento. De acordo com Ana Cláudia, é necessário “um laudo gigantesco e uma burocracia absurda”, envolvendo exames a cada três meses, para conseguir o medicamento.

“Depois de tantos exames, não conseguimos o hormônio. Pediram para voltarmos amanhã dizendo que vai ter o medicamento, mas depois de tantas vezes esperando e descobrindo que não tem, estou desesperançosa”, reclama.

Problema afeta todo o estado

Em grupos formados por pais e familiares de crianças que necessitam do tratamento, é possível encontrar reclamações de diversas regiões de estado. Marta Nunes mora em Araranguá, na região metropolitana de Criciúma, e teve acesso ao hormônio durante apenas algumas semanas deste ano.

O filho dela, Arthur, tem 12 anos e depende do tratamento para passar pelo estirão, momento da puberdade em que os meninos crescem rapidamente. A mãe teme pelo prejuízo que a falta dos hormônios pode trazer neste período tão decisivo.

“Meu filho está sofrendo bastante. Eu estou super frustrada, porque isso afeta muito o psicológico dele. Minha preocupação é que ele não cresça. Estou literalmente sem dormir por não saber mais o que fazer”, relata.

Arquivo pessoal

Marta afirma que essa não é a primeira vez que Arthur fica sem os hormônios. Ele faz tratamento há oito anos e, durante este período, esta é a quarta vez que o medicamento está em falta. Entretanto, por se tratar de uma fase crítica de crescimento, a preocupação é maior.

“Antes eu buscava doações, mas agora já procurei o Ministério Público, liguei na ouvidoria, fui várias vezes ao hospital do município… Ninguém dá uma resposta concreta. Um fala que é problema de licitação, outro que é com o representante”, desabafa.

Entre janeiro e abril deste ano, Arthur já ficou sem o tratamento e teve o crescimento afetado. Após algumas semanas com o retorno do medicamento, ele voltou a faltar novamente. Agora, Marta considera pedir ajuda financeira à família e criar dívidas para bancar o tratamento.

“O endocrinologista já disse que não pode ficar sem. Não tenho alternativa. Se o SUS não fizer nada serei obrigada a trancar minha faculdade e parar de pagar minhas contas. Apenas pro meu filho o tratamento sai uns R$ 2 mil por mês, mas estou disposta a fazer isso se o medicamento não vier”, decide.

Contraponto

De acordo com a Farmácia de Alto Custo de Blumenau, a situação deve ser regularizada ainda nesta semana com a chegada do medicamento na terça-feira, 20. Entretanto, eles não souberam explicar o motivo da falta do hormônio durante os últimos meses.

Segundo eles, a responsabilidade é do Governo Federal e eles apenas recebem e repassam os medicamentos. Eles ainda enfatizaram que não houve problemas significativos com outros remédios, apenas com os hormônios de crescimento.

Em junho deste ano, Blumenau já sofreu com a falta de medicamentos nas farmácias municipais por conta de problemas com os fornecedores. Na época, 13% dos remédios distribuídos pelo município estavam em falta.

A reportagem tentou contato com a assessoria da Secretaria de Saúde de Santa Catarina, mas não obteve sucesso.

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