Mudando um pouco o tema habitual desta coluna, peço licença ao leitor para compartilhar recente troca de mensagens de WhatsApp sobre educação, ensino e comportamento, num grupo de velhos colegas do tempo da graduação, considerando que cada hífen no início da frase significa um novo participante que escreveu. Procurei manter com mínimas adaptações a linguagem do grupo.

– (Colega) Pelos caminhos da vida nos últimos 40 anos, nunca vi uma juventude apática, sem influência, insensível, sonhadora, preguiçosa e ignorante no que se refere à proteção do seu lar, o meio ambiente.

– Mais que isso, caro amigo. Chegou agora ao mercado de trabalho uma geração que não sabe o que é um compromisso, que desdenha normas mínimas no trato com o público, não cumpre horários e prazos, salvo se com a corda no pescoço, não se empenha com denodo ao trabalho, não se incomoda se for demitido de um emprego, não demonstra maior respeito aos mais velhos, vão logo chamando uma autoridade por tu, na maior intimidade, não quer saber de pegar no pesado (…), etc. Os de nós que são empresários sabem muito bem disso e os que não o são, sentem isso quando contratam um serviço qualquer. Aumenta dia a dia os prestadores de serviço que não dizem se podem ou não podem te atender, vão enrolando e, se tu não corres atrás eles não estão nem aí. Estão se tornando raros os prestadores de serviço que informam se podem ou não podem atender e quando podem, numa agenda organizada.

– (Colega empresária) Conservo meus profissionais mais velhos como se fossem verdadeiros tesouros. São os que ficam, pegam junto, são fiéis e amigos. Estão há 35, 30, 25, 20, 15, 10 anos. Depois disso é giro total. (aparece aqui uma pista sobre o comportamento da chamada geração Z).

– A questão certamente é por demais complexa, mas, certamente, a onda, chata, por sinal, de tudo ter que ser politicamente correto, seria uma das responsáveis por essa situação. Se uma escola organiza os alunos em tarefas de organização, limpeza etc. logo aparece quem critica essa disciplina como “trabalho escravo” – “onde já se viu aluno ter que fazer serviços como juntar lixo, limpar e arrumar a sala, etc?”

– (Colega) Lamentável e desolador que esse descompromisso de muitos, não todos, seja como foi descrito. A educação é a base de tudo, Vide Japão e tantos outros países.

– (Colega) Sobre essas gerações X, Y, Z, agora surgindo a alfa, sempre digo, Pais bundões, filhos bobalhões e não é só no Brasil.

– Obediência cega, obviamente, é um aspecto que não dá para concordar, mas, disciplina, respeito, polidez, noção de limites etc. são coisas que todos os jovens precisam e, no fundo, apreciam! E muitas escolas atuais têm falhado demais nisso.

– Certa vez (depoimento deste colunista), dei palestras em duas escolas municipais no mesmo bairro, Itoupava Central, em Blumenau, com uma diferença astronômica no comportamento e disciplina dos alunos. Se ambas eram da rede municipal de ensino, com a mesma orientação pedagógica e do mesmo bairro, com realidades socioeconômicas similares, por que tanta diferença?

Na primeira escola fui bem recebido e logo fui encaminhado à professora responsável, que, formalmente fez a abertura e apresentação do palestrante. Na segunda escola, sem absolutamente qualquer formalidade, sequer uma apresentação, a professora me disse, “pode começar” e jogou as duas ou três agitadas turmas de adolescentes reunidos num auditório no meu colo. Tive a sensação de que os alunos nem sabiam o que estava acontecendo. Foi uma zoeira total.

Perguntei se no turno vespertino seria igual e ela friamente me respondeu que eles eram piores ainda. “Ficamos um terço do tempo berrando para que os alunos fiquem quietos”, disse. Sugeri então que, no turno vespertino, ela fosse mais formal. Eu ficaria sentado até que ela dissesse do porquê os alunos estavam ali reunidos e me chamasse e me apresentasse formalmente, após uma brevíssima apresentação e ela o fez. Também procurei ser minimamente mais formal. O que pareceu ser um simples minúsculo detalhe fez uma enorme diferença. A turma do “pior ainda” comportou-se magnificamente bem. Que conclusão podemos tirar disso?

Poucos dias depois fui doar livros na última escola do bairro Progresso, com a maioria dos alunos oriundos de famílias mais humildes, muitos morando em ocupações irregulares em encostas de morros de fundos de vale. Ao chegar o silêncio oriundo das salas de aula era tal que cheguei a perguntar na secretaria se naquele dia a escola não havia aulas e ela respondeu que sim, as aulas transcorriam normalmente naquele momento.

Por inacreditável, fiquei pasmo, pois, o triste padrão seria o dos professores aos berros diante de classes indóceis, de muitos alunos mal-educados ou simplesmente oriundos de famílias desestruturadas etc. e não foi o caso. Concluí que era em função do comando, das respectivas diretoras(es). Claro, há muitos outros fatores em jogo, mas, quanto ao pulso firme e ao mesmo tempo respeitoso da direção, pelo menos, estou bem convicto disso.

Curiosidade: naquela escola mais problemática da Itoupava Central, quando cheguei para me apresentar na Secretaria, ouvi pela porta entreaberta da direção, a diretora repreendendo um aluno quase aos berros, com coisas do tipo: “deixa teu pai saber disso”. Ouvir isso até me causou certo mal estar, um desconforto, a forma grotesca com que a diretora se dirigia ao aluno, que certamente até podia estar merecendo uma boa reprimenda, mas, não daquele jeito. Conclusão: Simples berros de diretores e de professores resolvem alguma coisa?

– (Colega) Bacca, que tal saíres do padrão habitual e escreveres um artigo sobre essas observações feitas em diferentes escolas?

Aqui está cumprida, caras e preclaras leitoras e leitores, a sugestão do amigo e respeitado professor aposentado, ex-chefe de gabinete de vários reitores, ex-presidente da Acaprena e colega naturalista dos tempos da faculdade, Aloir Arno Spengler.

Baú ambiental

Lauro Eduardo Bacca

A imensidão das águas e a visão do talvez indefeso menino potencializam ainda mais a sensação de fragilidade da minúscula canoa cruzando um dos enormes rios da Amazônia brasileira, ao mesmo tempo que sinaliza para o extraordinário modo de vida do caboclo ribeirinho. Foto: Lauro Eduardo Bacca (Amazônia Central, 1977).