Após muitos anos de reivindicações, as mulheres brasileiras conquistaram o direito ao voto em 1930. Entretanto, levou mais de 45 anos para que Blumenau elegesse uma. Maria do Carmo Carl, conhecida como Polaca, assumiu o primeiro mandato como vereadora em 1977.

Terceira mais votada daquelas eleições, a integrante do MDB atuou por doze anos como a primeira vereadora de Blumenau. Na época, os legisladores permaneciam no cargo por seis anos. Durante os mandatos, foi segunda e primeira secretária da Câmara.

Inicialmente avessa à ideia de entrar na política por acreditar que “mulher não vota em mulher”, Polaca sempre foi uma liderança importante no bairro em que vivia, Fortaleza. Filha de comerciantes, desde os 15 anos ela esteve ligada às causas sociais.

O contato com a comunidade, por conta do armazém de “secos e molhados” da família, foi o que a levou ao voluntariado. O que começou com a organização de rifas culminou na criação de um dos primeiros clubes de mães da cidade.

“Muitas mulheres vinham ao comércio reclamar da vida. Quando os filhos cresciam, elas sentiam que não tinham nada pra fazer. Na época eu era muito jovem, tinha 30 e poucos anos. Resolvi implantar um clube de mães para que essas senhoras pudessem se ocupar”, contou Polaca em uma entrevista ao jornalista Vilmar Minozzo para a TV Legislativa.

Entretanto, faltava um espaço adequado para as reuniões. Conversando com o marido e os dois filhos, resolveu falar com o prefeito da época. Ela atuava como voluntária em um jardim de infância que havia sido fundado por ele e o abordou com a ideia. Carlos Curt Zadrozny era da Arena, partido de oposição ao MDB, com no qual Polaca já tinha amigos.

“Ele não entendia o que era um clube de mães. Expliquei que queria dar algum lazer para aquelas mães de 40 e poucos anos que não têm instrução e não conseguem mais trabalho. Começamos com cinco senhoras, logo já estávamos em quarenta”, lembrou ela.Foi Evelásio Vieira, prefeito do MDB que suscedeu Zadrozny, quem convenceu Maria do Carmo a se candidatar. Ele frequentava o comércio da família dela e sempre recomendava que ela se tornasse vereadora, por conta do trabalho dela.

“Eu disse pra ele: ‘Olha seu Evelásio, mulher não vota em mulher. Já tiveram quantas candidatas que tentaram e nenhuma foi eleita?’. Mas ele dizia que eu ia ser a primeira. Ele foi o grande incentivador”, recordou.

Entretanto, foi apenas no final do mandato do próximo prefeito do partido, Félix Theiss, que ela aceitou se candidatar. O trabalho com a comunidade nunca ficou de lado, mas o resultado das eleições surpreendeu.

Cédula da primeira eleição. Foto: Acervo Fundação Cultural de Blumenau

“Até então, ninguém procurava uma líder de comunidade pra ajudar na política. Sempre trabalhei não querendo aparecer, porque diz a nossa Bíblia o que dá com a direita a esquerda não precisa saber. Mas tive votos até na Vila Itoupava e no Garcia. Não teve uma urna que não tivesse algum voto para mim”, disse ao programa Nossa Gente.

Ao comparar sua época a de 2008, quando a entrevista foi gravada, ela defendeu que as sessões eram mais respeitosas. Mesmo reconhecendo que havia discussões, ela afirmou que não havia escândalos como os que assistia na televisão. Mas ainda se orgulhava da atuação dos legisladores.

“A Câmara de Blumenau tem demonstrado um trabalho de dar inveja para outras cidades. Pelos projetos, pelos debates… Acompanho todas as reuniões, leio os jornais às vezes até dá vontade de estar lá para responder”, disse aos risos.O antigo companheiro de partido, Ivo Hadlich, lembra com orgulho que a vereadora nunca faltava às sessões. Em seu período no legislativo blumenauense, ele acompanhou as três primeiras mulheres na Câmara.

Ex-vereador segura uma foto de outubro de 1997, quando prestou homenagem às mulheres vereadoras. Foto: Alice Kienen

Ivo conheceu “dona Polaca”, como se refere à ex-colega, ainda jovem. Quando ele estava terminando os estudos na escola Machado de Assis, a moradora da Fortaleza vinha de bicicleta buscar o filho. “Ela atravessava o rio Itajaí-Açú de balsa. E o pai dela, Lauro Muller, era nosso benzedor. Sempre que alguém se machucava, ia à casa dele”, conta.

Ele cresceu admirando a solidariedade e a simplicidade de Polaca. Ele conta que, na época, os vereadores não se destacavam tanto pelos projetos como hoje, mas sim pelo trabalho diretamente com a comunidade.

“Como atuávamos praticamente na mesma região, íamos juntos para os bairros. Ela fazia o verdadeiro trabalho de um vereador. Subia os morros, ouvia as pessoas. E continuou sendo participativa na igreja e nos clubes de mães. Sempre queria ajudar os mais pobres”, lembra.

Mesmo atuando na Câmara, ela continuou ajudando ativamente nos eventos da comunidade, especialmente nas procissões. Vendia tickets de pastel e churrasco até dentro da casa do legislativo. Ivo lembra que alguns vereadores não gostavam, mas ela nunca deixou de participar.

“Em uma época muito difícil, quando poucas mulheres se candidatavam, ela fez a diferença com as pequenas coisas. Iluminação pública, macadame na rua, orelhões públicos… Ela realmente se preocupava”, conta.Polaca defendia que mais mulheres devem fazer parte da política. Não apenas em Blumenau, mas em todo o país. Na visão dela, o reduzido número de vereadoras no legislativo blumenauense se devia ao fato de que não havia apoio das eleitoras.

“Na minha legislatura ouvi de amigas próximas que não votam em mulher, mas iam votar em mim por ajudar a família delas ou pelas caridades que eu fazia. Mas a mulher tá se firmando, felizmente. Fico muito satisfeita porque todas essas que vieram depois de mim mostraram que as mulheres são capazes”, contou.

Polaca em uma sessão da Câmara de Vereadores. Foto: Câmara Municipal de Blumenau

Entretanto, ela acredita que não sofreu preconceito dentro da Câmara de Vereadores por ser mulher. Segundo ela, muitas críticas vinham por ela ser ligada às causas sociais. “Pode ser até que eles tiveram certos momentos de querer baixar o nível em discussões por eu ser mulher, mas eles sempre recebiam bem minhas respostas”.

Infelizmente, Polaca nunca realizou o sonho de ver uma mulher chefiar o executivo da cidade. A própria acabou desistindo da segunda reeleição após a morte do filho. “Não tive mais ânimo e parei de ir às reuniões. Se não, com certeza teria me reelegido para uma terceira candidatura”, defendeu.

Maria do Carmo Carl tentou voltar à Câmara de Vereadores nas eleições que vieram depois. Em 1992 e 1996 concorreu, ainda pelo (naquele momento) PMDB. Porém, não retornou à cadeira.

Panfletos de 1992 e 1996, respectivamente, que fazem parte do Acervo Histórico de Blumenau. Foto: Alice Kienen

Maria do Carmo foi um nome pouco conhecido, pois todos a chamavam de Polaca. Porém, a blumenauense não tinha nada de polonesa. Quem deu o apelido foi a madrinha, que ao ver a pequena ao lado dos nove irmãos falou para a mãe: “essa pequena parece aquela polaquinha de Witmarsum”.

“Quando era menor sempre usava vestidos brancos e compridos”, explicou a ex-vereadora, “e ali meus irmãos começaram a me chamar de polaquinha. Quando cresci só tirei o ‘inha’ fora. Até o padre João Bachmann me chama de Polaca. Poucos conhecem a Maria do Carmo”.

O trabalho religioso, inclusive, sempre foi muito importante para Polaca. O voluntariado se estendeu às pastorais. Segundo ela, essa conexão com a espiritualidade foi muito importante para enfrentar as perdas no final da vida.

“A caminhada não é fácil. Perdi um filho, meu marido e oito irmãos”, disse ela em 2008. Entretanto, Polaca viria a perder o segundo filho antes de falecer. “Sem a força do espírito santo, você cai às vezes. Mas se você tem Deus dentro de você, seu problema é amenizado a cada instante”, defendeu.

Maria do Carmo nasceu na Toca da Onça, localidade no bairro Nova Esperança. A escola Luiz Delfino foi onde ela se formou. O sobrenome de infância dela, Muller, deu lugar ao Carl quando ela se casou, aos 19 anos.Em março de 2010, Polaca recebeu a Comenda Municipal do Mérito Anita Garibaldi. A homenagem da Câmara de Vereadores de Blumenau é voltada a mulheres que são vistas como exemplo de coragem. A condecoração abrange blumenauenses das áreas de assistência social, segurança pública, política, empreendimento empresarial e justiça.

Fotos: Câmara de Vereadores de Blumenau

A morte da Maria do Carmo veio de forma completamente inesperada. Após ter perdido os dois filhos e o marido, a idosa foi atropelada por um ônibus. Aos 91 anos, ela atravessava uma faixa de pedestres em frente ao terminal Fonte quando foi atingida.

Ela passou cerca de um mês na UTI do Hospital Santa Isabel, porém não resistiu aos ferimentos. Após sua morte, a Prefeitura de Blumenau declarou luto oficial de três dias. A bandeira passou todo o fim de semana a meio mastro, em homenagem à blumenauense.

Ela foi lembrada pelo executivo como uma importante liderança comunitária, especialmente no bairro Fortaleza. Polaca deixou dois netos e o legado de dedicação ao voluntariado e aos clubes de mães de Blumenau.