Napoleão Bernardes “Aquilo que estava compromissado com Blumenau foi entregue”

Em entrevista, ex-prefeito analisa derrota eleitoral e o próprio futuro político

Napoleão Bernardes “Aquilo que estava compromissado com Blumenau foi entregue”

Em entrevista, ex-prefeito analisa derrota eleitoral e o próprio futuro político

Evandro de Assis

A derrota inesperada na disputa pelo governo do estado, em que formou chapa com Mauro Mariani (MDB), devolveu Napoleão Bernardes (PSDB) à carreira de professor universitário. Nesta semana, o ex-prefeito de Blumenau reapresentou-se à Furb, onde é servidor concursado, e voltou a lecionar no curso de Direito.

Também nesta semana ele encerrou um período de silêncio. Nas últimas três semanas \ preferiu não se manifestar. Segundo Napoleão, em respeito ao processo eleitoral em andamento e aos demais candidatos.

Na entrevista a seguir, ele analisa os resultados da eleição, diz não se arrepender da decisão de renunciar à prefeitura e traça planos para o futuro.

O Município Blumenau – Como você reagiu ao resultado da eleição?

Napoleão Bernardes – A expressão é: surpreendente (risos). Não tem como não dizer que havia uma expectativa altíssima de estar no segundo turno. Uma grande coligação, foram apresentadas propostas importantes. Eu tive uma participação muito expressiva na campanha de rua. Fui a dezenas e dezenas de municípios catarinense. Tenho gratidão porque tive muita oportunidade. Estive na linha de frente em muitos momentos. Uma receptividade fantástica de público nas ruas. Foram momentos incrivelmente felizes, alegres, altamente receptivos comigo. Foi algo sempre muito contagiante, uma vibração. Então, óbvio, com o feedback que eu tinha da rua, a expectativa era muito, muito, muito positiva. Foi, de fato, surpreendente.

Como você se sentiu?

Sou sempre otimista por natureza. Por outro lado, sou pé no chão. Já perdi eleições. Antes de ser eleito vereador com uma belíssima votação, eu já havia batido na trave duas vezes. Antes de ser prefeito, tinha batido na trave para deputado federal. A vida eleitoral é cíclica, tem grandes derrotas e vitórias. Sou muito pé no chão mesmo, trato as coisas com muita humildade e serenidade. É da minha personalidade. Conformação. Óbvio, ninguém recebe com felicidade e nem alegria, mas o que está posto, está posto.

O senhor se arrependeu de ter renunciado ao cargo de prefeito?

Não. Foi uma decisão muito refletida, inclusive com muitas lideranças da cidade, pessoas representativas até fora do meio político. Qual foi o raciocínio ali atrás? Tínhamos um vice-prefeito capacitado, tanto é que o prefeito Mário Hildebrandt está fazendo um excelente trabalho. Ou seja, a cidade não estaria desguarnecida. Por outro lado, aquilo que era macroestratégico foi entregue, estava encaminhado, como as grandes obras e o transporte coletivo. Tínhamos a questão da transparência, da inovação na gestão, que nos trouxeram muitos prêmios. Na administração local havia já grandes conquistas, muitas marcas, com muitas a acontecer, mas já totalmente encaminhadas. O desafio de Blumenau era para além de 2020, ter recursos para novas ações. A minha luta, qual seria? A busca por um espaço majoritário. O que foi compromissado foi entregue: nós conquistamos espaço numa composição majoritária. E numa aliança muito competitiva. Aquilo que estava compromissado com a cidade foi devidamente entregue. Não me arrependo porque o traçado foi planejado. Claro, no caminho se idealizou a posição do Senado. Muita gente até hoje diz que talvez pudesse ter acontecido, pudesse ter sido uma disputa competitiva. Mas o “E se…” não conta nessa história, o que vale é o jogo jogado. O que quero dizer nesse raciocínio é que, infelizmente a conjuntura partidária não permitiu que isso acontecesse. Mas se conquistou aquilo que se planejou originalmente em abril.

Como fica Blumenau após o resultado das urnas, sem cadeiras na Câmara ou no Senado?

O senador Dalírio (Beber), é preciso reconhecer, fez um trabalho muito importante na busca de recursos para a cidade, abriu portas em Brasília. Tivemos uma boa representação dos nossos deputados quando tiveram as suas oportunidades. Em muitos momentos do governo do presidente Lula, da Dilma, o Décio (Lima) teve uma participação importante nessa representação, o próprio João Paulo sempre lutou por recursos para Blumenau. As cadeiras são sempre importantes Obviamente, o prefeito Mário tem pontes. Eu próprio, através da coligação em que participei, estreitei laços e posso contribuir de algum modo nessa interface. Com o senador Jorginho Melo (PR), que acabou sendo eleito pela nossa coligação, com o senador Dário Berger (MDB), um apoiador da nossa coligação. O próprio prefeito Mário tem muita desenvoltura em Brasília e muitas relações de afinidade, com o próprio senador Esperidião (Amin). E deputados federais da mesma forma, Blumenau é uma grande cidade e todos os deputados vão ter o desejo genuíno de ajudar. Mesmo de fora, vou ser sempre um agente a contribuir.

Ao que você pretende se dedicar nos próximos anos?

Estar em família é sempre bom. Ao lado da Manu, que completa um ano sábado. Isso faz muito bem. A vida pública impõe uma série de renúncias, né? Não se é tão presente em família em virtude dos compromissos, que são muitos em muitos lugares. Ter essa oportunidade de uma convivência melhor em família, nessa idade, com a Manu tão pequena, de fato faz um bem danado. Por outro lado, tenho uma vida acadêmica, que é uma atividade profissional. Tenho orgulho de ser um professor universitário, na área do Direito. Voltei às aulas. Sou muito realizado, muito feliz, muito honrado. Lá atrás em 2012, quando disputei a eleição para prefeito, a tendência era não vencer (risos). E eu já tinha o projeto do doutorado engatilhado lá atrás. Quem sabe essa é a oportunidade de retomar logo em frente o doutorado, que ficou suspenso em 2012

Cogitas assumir algum cargo?

Não parei para avaliar essa hipótese, até porque essas hipóteses devem ser espontâneas. Nem sei se estaria dentro meu escopo de projeto para os próximos quatro anos, mas obviamente que é uma questão a se analisar eventualmente surgindo algum convite.

Como fica o quadro para 2020, quando o senhor não poderá disputar?

Tenho a minha filiação partidária, minha relação com a vida da cidade. Vou me envolver no momento adequado, de maneira intensa e conveniente. Mas vou ser um apoiador (risos).

Como fica o PSDB após essa eleição?

O PSDB, como algumas outras legendas mais tradicionais, pagaram o preço da sua tradição no momento em que se clamava por mudança, ruptura. O PSDB acabou não sendo identificado com essa mudança, essa alternância. O PSDB foi perdendo a capacidade de marcar terreno, marcar posição como fez no passado. De ser o partido que inspirava esperança nas pessoas. A gente perdeu esse encantamento em relação a segmentos importantes da sociedade. É a oportunidade que o PSDB tem de se reinventar e reconstruir a sua história marcando posição como um partido relevante, de proposição de alternância verdadeira.

Há uma divisão entre tucanos mais antigos, como FHC e Alckmin, e o governador eleito de São Paulo, João Dória. Com qual desses grupos você mais se identifica?

Cada qual tem méritos e virtudes, nós temos que buscar o melhor de cada um. Não há dúvida de que o governador Dória, o governador Eduardo Leite (eleito no RS), são lideranças que devem a partir de agora nortear o caminho. É o momento de aos poucos passar o bastão.

Como analisa a vitória de Jair Bolsonaro?

Foi uma expressão clara da ruptura que as pessoas desejavam. Foram anos intensos de muitas notícias a respeito de desmandos, desvios, desordem. O presidente Bolsonaro representou e concatenou esse sentimento de ojeriza e marcou uma posição de ruptura. Houve uma nacionalização da eleição e os efeitos redundaram nas eleições dos estados.

Como um homem de fé e otimista, desejo o melhor em relação ao Brasil e ao governo. O presidente vai ter a missão de unir o Brasil. Tenho convicção de que o presidente Bolsonaro sabe a oportunidade histórica que ele tem nas mãos.

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