Napoleão Bernardes: “Dos que seriam fato novo na eleição, o que teve coragem fui eu”

Prestes a renunciar ao cargo, prefeito de Blumenau fala sobre desejo de disputar o Senado e analisa cenário catarinense

Napoleão Bernardes: “Dos que seriam fato novo na eleição, o que teve coragem fui eu”

Prestes a renunciar ao cargo, prefeito de Blumenau fala sobre desejo de disputar o Senado e analisa cenário catarinense

Evandro de Assis

Napoleão Bernardes (PSDB) não quer ser chamado de ex-prefeito. Nem agora, a uma semana de renunciar ao cargo, nem enquanto Mário Hildebrandt (PSB) ocupar a cadeira – o mandato da dupla vai até 31 de dezembro de 2020.

Hildebrandt na prefeitura representaria a garantia de que o plano de governo será cumprido, enquanto Napoleão desempenharia o papel de um “prefeito de entre aspas”, nas palavras do próprio. Independentemente do cargo que venha a disputar e do eventual mandato a cumprir nos próximos anos, o tucano diz que pretende buscar fora de Blumenau condições para realizar o governo planejado “a quatro mãos”.

Napoleão recebeu O Município Blumenau no gabinete nesta quarta-feira, 28, um dia depois de anunciar a renúncia durante sessão da Câmara de Vereadores. O prefeito contou que o discurso do dia anterior fora feito de última hora.

Ele levou à tribuna apenas anotações em duas folhas de papel, que depois foram dadas de presente ao assessor Alexandre Pereira, como registro histórico. Dia 5 de abril, no Teatro Carlos Gomes, ele fará novo discurso, o último como prefeito.

Prefeito fez discurso baseado em anotações. Foto: Sávio James Pereira

Durante a entrevista, Napoleão valorizou o que chamou de coragem: deixar a prefeitura sem garantias de que conseguirá espaço numa chapa majoritária nas eleições de outubro. E comparou-se a outras novidades da eleição que ficaram pelo caminho. Confira:

O Município Blumenau – O anúncio de terça-feira foi planejado?

Napoleão Bernardes – Não foi planejado. Claro, eu estava na expectativa. Na verdade, a última peça era eu, pois o Luciano Hang (empresário, dono da Havan) havia declinado, o Udo (Döhler, prefeito de Joinville) declinou… Isso é uma analise interessante que ninguém fez. Dos que poderiam ser fatos novos, um a um foram desistindo, pelas suas razões e tal: o Udo, o Glauco Côrte (presidente da Fiesc), o Luciano, e sobrei eu. O que teve, de algum modo, coragem, ousadia, fui eu, desses nomes que se apresentaram como relativa novidade para o cenário estadual. Então, para o dia 5 estava OK, mas aí surgiu uma dúvida: como é que a gente faz pra colocar pra fora que a decisão está tomada? Aí me veio a luz (de anunciar a renúncia na Câmara).

O senhor ficará mais livre pra conversar sobre política a partir de agora…

Claro, isso nos dá mais liberdade. A minha transição e do Mário, nem precisaria haver uma transição formal, porque a gente elaborou o plano de governo juntos. O governo segue até o dia 31 de dezembro de 2020. Os compromisso aos quais eu me propus continuam, o programa de governo continua. Nós vamos ter um prefeito preparado, competente, capaz, absolutamente afinado com a cidade, com a administração pública, que é o vice-prefeito Mario. E um segundo prefeito, onde quer que esteja, lutando quer seja pelo estado, quer seja pelo Brasil, a depender da posição que me caiba. As realizações desse segundo governo estão plantadas, agora é seguir o cronograma e apresentar as entregas.

O senhor assume risco ao renunciar sem a garantia de que terá uma candidatura. Por que essa decisão?

Sonhei ser prefeito, desejei ser, lutei pra ser e o sonho foi sendo compartilhado. De coração aberto, eu não tenho ego, e nem vaidade. Pra mim, ser prefeito reeleito de Blumenau é super-honroso. Sou pai recente, é um negócio apaixonante, é maravilhoso. O coração aperta quando a gente fica muito tempo fora de casa. Então, na zona de conforto, o raciocínio racional era ficar. Os estímulos vieram de onde menos se imaginava. Aquele personagem que eu citei ontem (na terça-feira, Napoleão falou em um líder empresarial que o incentivou a concorrer) era o Hans Prayon. Ele me colocou muito às claras, e chamou a essa realidade: a chance histórica de isso acontecer de novo é no mínimo daqui a oito anos. Porque tem que ter um prefeito reeleito em condições de projeção e tem que ter um vice que também tenha condição de assumir. Então, de verdade, tem havido muito apelo. Tem o tal do G6, né? A reunião das entidades empresariais da cidade, que faz reuniões relativamente periódicas. Teve uma reunião até relativamente recente, e não partiu de mim, partiu deles: ‘Napoleão, estamos aqui pra dizer que é importante que sigas, por Blumenau, pelo Vale’. Eu teria que achar muita justificativa pra ficar.

Se antes o sonho era ser prefeito, qual o sonho agora?

Se dependesse de mim, claro que vencer a eleição é outra história, o desejo seria o Senado. Penso que posso contribuir bastante, pela visão municipalista, pela visão jurídica, pela formação que tenho. A idade constitucional mínima para alguém ser senador é 35 anos, que coincide com a minha idade. Ou seja, Santa Catarina, no desejo de renovação que o Brasil quer e almeja, teria uma possibilidade contundente de uma renovação integral e literal.

Por que o Senado?

São oito anos de mandato, o que nos dá tempo de fazer um planejamento estratégico. Eu conseguiria ter também, aos poucos, passo a passo, com humildade, participação nos temas nacionais. Acho que a gente conseguiria transcender visibilidade, protagonismo político de Blumenau, além fronteiras. A gente conseguiria em um curto prazo, trazer aquilo que se espera, que é recurso, emenda, abertura de portas no governo federal.

Sávio James Pereira

Como você se define no espectro político?

Acho que alguns dogmas têm que ficar de lado. Se prender a dogmas entre esquerda e direta, isso ou aquilo… A gente tem que ter uma visão muito mais pragmática e muito mais imediata, e buscar extrair o melhor de cada essência, de cada corrente de pensamento. Em todos os partidos, espectros ideológicos, tem ações, tem conceitos que são positivos e outros que precisam ser aprimorados.

Então você é um homem de centro?

Um homem pragmático. No bom sentido da palavra, e não no sentido pejorativo.

Em alguns temas, numa eleição para o Senado, o senhor teria que se posicionar. Por exemplo, na segurança pública, precisaria discutir questões como armamento, política de drogas, entre outros. Como se posicionaria?

Sim, a gente está em um processo de amadurecimento de qual será o caminho e, claro, com esse amadurecimento vem também a tratativa com a própria sociedade. Agora, o Brasil está muito nessas dualidades, ou seja, se o cara é a favor disso, ele é a favor daquilo e vice-versa. Essas dualidades, na verdade, não constróem. Um debate legislativo tem que ser muito mais aprofundado. Não é achismo, é ciência, é busca efetiva de indicadores, de estatísticas, os modelos do mundo. No fundo, no fundo, hoje todo mundo discute superficialmente tudo, o que só contribui pra apequenar o debate político. Não dá pra só jogar para a plateia.

O tema corrupção também suscita esse tipo de polarização, e é um outro tema que você certamente vai ter que se posicionar. Sobre a prisão após a condenação em segunda instância, como o senhor se posiciona?

A Constituição é clara. Presunção de inocência vai até o trânsito em julgado, então não é nem uma posição de entendimento, é uma posição de clareza constitucional. O que, juridicamente, é o trânsito em julgado? É de fato, não caber mais recursos. Isso não é uma análise casuísta. Hoje se fulanizou essa discussão para um caso específico. Um tema desse tem que ser tratado de modo que valha pra todos, independente da posição que cada um ocupe. Mas falo como professor de Direito: pela clareza da Constituição, a presunção de inocência vai até o trânsito em julgado. É um instituto jurídico que aprende no segundo semestre da faculdade, a depende do currículo, no primeiro. Agora, se nós como sociedade entendermos como o contrário disso, é preciso alterar a Constituição.

O ex-prefeito João Paulo Kleinubing (PSD) já se colocou como pré-candidato. O ex-prefeito Décio Lima (PT) também. Daqui a pouco você será ex-prefeito também. Então, são três representantes de Blumenau buscando espaço em chapas majoritárias. Tem espaço pra tanto blumenauense nessa eleição?

Bom, em primeiro lugar, não deixarei de ser prefeito até dezembro de 2020. O Mário vai tocando a prefeitura, mas dentro daquilo que se propôs em termo de visão de governo, planejamento. Onde quer que eu esteja, estarei como prefeito entre aspas, no sentido de embaixador das causas da cidade. Então, não se deixa nada, pelo contrário, se vai além para buscar mais em favor de Blumenau. Quanto às pré-candidaturas do prefeito Décio, do prefeito João Paulo, cada vez que eu leio isso fico feliz da vida, isso é um baita sinal! Se os três puderem ter candidaturas emplacadas, melhor ainda. Eu não tô aqui pra dividir nada em relação a ninguém, tô aqui no sentido de somar, em favor de Blumenau. Essa questão da geopolítica, da geografia regional, é muito levada em conta nas formações de chapa. Até por lógica eleitoral, com certeza não vai haver muitos cenários colidentes. Creio que, ao final disso tudo, teremos representação na majoritária para Blumenau, e isso por si só é bom. Não necessariamente precisa ser eu, agora, eu não poderia me furtar, pela projeção que acabei construindo até aqui, de poder ser uma peça a contribuir

Antes mesmo de pensar nos demais partidos, o senhor tem um desafio que é convencer o seu próprio partido.

Bom, hoje o PSDB já tem dois senadores, o senador Paulo Bauer e senador Dalírio (Beber). A princípio, nenhum dos dois vai à reeleição. Tenho um raciocínio muito lógico junto ao PSDB. Todo partido deseja, no mínimo, manter a sua representatividade. O PSDB cresceu muito da última eleição pra cá, então é absolutamente natural que o partido, que hoje tem dois senadores, dos três possíveis, apresente, no mínimo, uma candidatura ao Senado da República. O senador Paulo Bauer, sendo candidato ao governo, não irá à reeleição. Ou seja, de dois senadores do PSDB catarinense, eu levo a oportunidade para que o PSDB apresenta a alternativa de, pelo menos, uma candidatura ao Senado.

Agora, com dois tucanos na chapa, a formação de alianças ficaria mais difícil, porque o PSDB teria menos espaços a compartilhar, não?

São quatro vagas majoritárias: governador, vice, e duas vagas ao Senado. O PSDB também tem um projeto nacional, liderado pelo governador (de São Paulo) Geraldo Alckmin. Governador quatro vezes, duas vezes eleito em primeiro turno. Ou seja, testado aprovado e reconhecido nas urnas pelo trabalho de gestão que faz. Então, ter pelo menos uma das vagas ao Senado, na candidatura do PSDB, também é uma responsabilidade nacional e nos deixa abertos para a composição de uma vaga de vice, de governador, de senador, se for o caso assim, de fazer uma composição.

Colabore com o município
Envie sua sugestão de pauta, informação ou denúncia para Redação colabore-municipio
Artigo anterior
Próximo artigo