No Centro de Educação Infantil Irmã Maria Christa Prullage a natureza que envolve o espaço escolar não é apenas um local de passeio, mas também uma sala de aula para as crianças. Faça chuva ou faça sol, os 25 mil metros quadrados de área de preservação permanente são visitados diariamente.

Localizado no topo de um morro verde na Itoupavazinha, em Blumenau, o CEI percebeu que podia incorporar o meio ambiente no processo educativo em 2012. Antes disso, ele era utilizado esporadicamente por conta da chuva e dos receios das professoras, mas isso ficou para trás após muita pesquisa e estudo.

Foi com a chegada da coordenadora pedagógica Maria Luísa Schneider que o projetou começou a tomar forma. “As salas não são muito grandes e trancar as crianças lá dentro incomodava a gente”, explica.

Maria Luísa e a diretora, Simone de Sousa Santos, passaram a visitar outros CEIs e conhecer projetos do mundo inteiro. Elas chegaram a visitar uma escola em São Paulo que trabalha integralmente no espaço externo e voltaram para Blumenau inspiradas a transformar a escola.

Crianças também plantam e cuidam de hortas no espaço. Foto: CEI Irmã Maria Christa Prullage

No uniforme escolar, capa de chuva e galocha são obrigatórias. Binóculo e lupa estão inclusos na lista de materiais. Com uma prancheta, as crianças visitam o bosque para observar, tomar nota do que percebem e analisar a natureza. Brinquedos não entram lá, pois as crianças usam a criatividade na hora de brincar.

No início, eles deixaram as crianças livres para ver como eles reagiam. Foi um processo de conscientização dos pequenos e também das professoras, que achavam que eles poderiam se machucar. Agora, sempre que eles vão para o bosque determinam junto da professora quais são as regras da saída.

“Em um dia de muito calor, a professora determinou que ninguém poderia entrar na nascente que temos no bosque. Ela, que estava de chinelos, foi se refrescar na água. Logo um aluno colocou a mão no ombro dela e explicou que ela não podia ir na água. Colocou ela sentada em uma pedra para pensar e não saiu de perto dela até achar que ela havia ficado tempo suficiente para aprender a lição”, conta a coordenadora entre risos.

Pequenos são apresentados à natureza antes de visitá-la. Foto: CEI Irmã Maria Christa Prullage

E não são apenas as crianças maiores que visitam a natureza. Os bebês que passam o dia no CEI também entram em contato com o meio ambiente. No início, as professores levam parte do bosque até eles, para que possam se familiarizar. Quando sentem mais segurança, eles passam a conhecer o espaço.

“Às vezes quando passo na frente da porta, alguns apontam pro bosque pedindo para ir para lá. Quando eles ficam no pátio, vão atrás, cheiram as ervas e mexem no jardim”, comenta a coordenadora.

Trilha que educa e diverte

Além do bosque, o CEI também possui uma trilha. Usada para passeios desde 2012, foi em 2016 que ela se tornou um espaço de contemplação. No local, já foram vistos saguis, bugios, aranhas, esquilos, cutias, calangos e algumas espécies de serpentes.

A turma do pré 2, entre 4 e 5 anos, foi responsável por mapear o espaço. Além de desenhar a trilha, eles nomearam alguns pontos que chamavam a atenção deles. “Tem a toca do tatu, a pedra do gigante, a árvore do índio, a árvore que chora”, exemplifica Simone.

Pedra do Gigante e Árvore que Chora estão no mapa desenvolvido pelas crianças. Foto: Alice Kienen

Quando os visitantes chegam à escola, os alunos utilizam o mapa para preparar para o passeio e avisam sobre os cuidados necessários antes de irem até o espaço. “Podemos ir lá todo dia, mas sempre vai ter algo novo. Eles percebem qualquer galho caído”, conta a diretora.

Desenvolvimento do aprendizado

A diretora Simone conta que antes dessa transformação, as professoras apareciam na sala dela ao menos duas vezes por semana para reclamar de alguma criança. Até mesmo os pais reclamavam por as crianças serem muito agitadas.

“Hoje elas vão mais tranquilas pra casa. Não melhorou apenas o psicológico deles, mas também a saúde e o intelectual. É uma forma diferente de trabalhar medos e conhecimentos de uma forma muito real”, defende.

As crianças são independentes, especialmente na hora de guardar os materiais. Foto: Alice Kienen

Os três valores que permeiam o projeto, que já se tornou referência nacional, são a empatia, o respeito e a autonomia. Tudo por meio de um trabalho lúdico, distante da ideia de que o professor fala e o aluno escuta. As crianças maiores participam do planejamento e auxiliam no cuidado com os pequenos.

“Somos um grupo de ensinantes e aprendentes. E às vezes aprendemos mais do que eles”, comenta a coordenadora.

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