Se há uma personalidade que tem recebido reconhecimento em Blumenau e em muitos outros lugares, ela se chama Johann Friedrich Theodor Müller, mais conhecido simplesmente como Fritz Müller.
Emigrado da Alemanha com sólida formação intelectual centrada na História Natural, chegou a Santa Catarina em 1852, naturalizou-se brasileiro e aqui se tornou mundialmente conhecido pelos seus estudos sobre nossa natureza tropical e por sua fundamental contribuição à então teoria da Evolução do inglês Charles Darwin.
O apoio deste sábio naturalista aos estudos de Darwin foi tão relevante que se pode dizer que, depois de Fritz Müller a Evolução deixou de ser teoria para ser considerado um fato científico que logo foi se consolidando como está até hoje.
Se juntarmos tudo o que já foi publicado sobre Fritz Müller, certamente preencheria mais de um metro de estante com milhares de páginas, mais de meio metro já publicados em português.
Fritz Müller, abaixo representado pelas iniciais FM, pode-se dizer que é um personagem histórico carismático e atual. Somente em Blumenau, em lista certamente incompleta, temos:
- Praça FM;
- Estátua na mesma praça, por décadas a única estátua de cientista no Brasil
de corpo inteiro; - Biblioteca Pública Municipal Dr. FM;
- Museu Fritz Müller (um dos motivos do título acima);
- Túmulos históricos preservados no Cemitério Evangélico Centro;
- Primeiro túmulo desse cemitério histórico que tem a etiqueta QRCode com
mais informações sobre a pessoa que repousa ali (neste novembro de 2025); - FM Hub de conhecimento de renome nacional e internacional;
- Grupo de Danças Folclóricas FM;
- Grupo Escoteiro FM;
- Rotary Clube Blumenau FM;
- Diretório Acadêmico de Ciências Biológicas FM;
- Agência bancária FM;
- Conjunto empresarial na área da saúde FM Center
- Edifício FM (talvez mais de um);
- Colégio FM (hoje não mais existente);
- Patrono da Comenda do Mérito Fritz Müller em Blumenau;
- Mascote do Meio Ambiente de Blumenau.
Fritz Müller ainda é nome de rua nas cidades de Indaial, Florianópolis e Joinville, no estado de Santa Catarina e em São Paulo – SP, até onde temos conhecimento, por enquanto. Em Balneário Camboriú existe a Choperia FM e o Restaurante FM. A Academia de Letras de Biguaçu-SC tem na cadeira 13 o patrono FM, que também é patrono da Polícia Militar Ambiental do Estado; FM ainda é patrono da maior honraria ambiental estadual, o Troféu FM.
Recentemente, por ocasião do bicentenário de nascimento deste notável naturalista, foi denominado por lei municipal de Estuário Fritz Müller, a região da foz do riacho que drena do manguezal do Itacorubi, em Floranópolis (sic!). Ainda na capital, uma fachada lateral cega inteira de um edifício, correspondente a 10 andares, recebeu uma gigantesca pintura em homenagem a Fritz Müller.
Quando o assunto são as iniciativas do poder público, todo esse justo e merecido reconhecimento de Fritz Müller se desvanece quase que por completo. Nas últimas pouco menos que nove décadas, o Museu Fritz Müller permaneceu mais tempo fechado que aberto, desde que foi criado, em 1936. Uma matéria publicada aqui no O Município-Blumenau em 21/05/2024 lembrou que o Museu estava há 600 dias novamente fechado. Agora já são mais de três anos! Um problema de inclinação de parede e outro no telhado provocaram essa correta decisão, mas o problema não foi prontamente atacado.
Num país de gambiarras demais e restauração e preservação histórica de menos, a casa onde residiu Fritz Müller nos últimos 30 anos de sua vida, sofreu, ao longo das últimas 4 décadas, sucessivas reformas, uma mais desdenhosa com o valor histórico do prédio que outra, sempre na direção da lamentável descaracterização do estilo original. O terreno, que também deve ser considerado um sítio histórico que deve ser preservado nas características topográficas originais do tempo de Fritz Müller, foi parcialmente agredido com um início de aterro e terraplanagem que quase desfigurou suas características originais, nos anos 1980.
Até que houve quem tentou tratar o sítio histórico Fritz Müller com a reverência merecida. Alceu Longo, presidente da então Faema, para citar algo simples, mas, significativo, determinou a retirada de um grande painel de propaganda ou “out-door” que ficava de frente para o terreno e museu, agredindo visualmente o sítio histórico, na rua Itajaí, nos anos 1990. Depois dele deixar o cargo, o inapropriado “out-door” voltou.
Uma representação da Acaprena (Associação Catarinense de Preservação da Natureza) junto ao Ministério Público, impediu a continuidade da construção de um horrendo galpão industrial colado ao terreno vizinho, distante este apenas um metro do museu, inacreditavelmente autorizado pela Prefeitura, há uns 20 anos. Há cerca de 10 anos, Alexandre Baumgratz da Costa, também presidente da Faema, numa decisão corretíssima, promoveu a desapropriação de dois terrenos contíguos ao sítio histórico onde havia se iniciado a edificação do galpão industrial.
Bem antes, do lado oposto ao aterro onde foi evitada a construção do galpão industrial, nos anos 1980, este colunista foi responsável pelo alerta e impedimento da continuidade daquele outro aterro já mencionado que iria fazer sumir uma depressão natural com minúsculo córrego e, por consequência, descaracterizar o sítio histórico de seu ilustre morador. Dentre os prefeitos, depois de Alberto Stein, que desapropriou o terreno e casa onde morou Fritz Müller e José Ferreira da Silva que apoiou intensamente o museu nos anos 1930, merece ainda menção, data vênia (não foi feita pesquisa profunda sobre este assunto), quarenta anos depois, Renato Vianna e praticamente nenhum outro mais.
Qual situação do Museu Fritz Müller hoje?
Por enquanto, para variar, ele está fechado, mas com promessa do Secretário de Meio Ambiente, de ser reaberto. O galpão vizinho não foi construído, mas o aterro feito continua lá, deixando o terreno do Museu numa depressão perigosa, aumentando a umidade e, no caso de uma enxurrada, pelo efeito de barramento deste aterro, causar danos ainda piores que os vivenciados pelo próprio naturalista, que mediu incríveis 220 milímetros de chuvas em 15 horas na segunda metade do século 19, que resultou num enorme barranco de erosão entre a casa e o rio. Mais recentemente, em 2008, aconteceu algo semelhante e um dos pilares que sustenta a construção histórica ficou quase pendurado no ar.
Esse mesmo aterro avançou para dentro dos fundos do próprio terreno histórico, permitido sabe-se lá por quem na prefeitura de Blumenau. Tudo isso deve ser dali removido, retornando à topografia original. No entanto, passados mais de 10 anos, nenhum quilo de terra foi retirado de lá ainda.
No outro lado da rua, aguarda-se a desapropriação da encosta de morro para a recuperação de todo o lote colonial de Fritz Müller, hoje novamente recoberto de floresta nativa. Esta floresta poderia ser enriquecida com dezenas de espécies estudadas por Fritz Müller, principalmente orquídeas, bromélias e demais plantas epífitas ou de solo. Tal desapropriação, de custos relativamente pequenos para o erário público, sequer foi aventada até o momento.
Enquanto em Floranópolis (sic!) a memória de Fritz Müller foi condignamente comemorada por ocasião dos seus 200 anos em 2022 com uma série intensa de atividades e eventos, em Blumenau, tudo não passou de uma cerimônia numa tenda ao lado do Museu, alguma deposição de coroa de flores na estátua e/ou cemitério e praticamente só. Ironicamente, mal o grande naturalista completou 200 anos, por medida de segurança, o museu foi fechado, permanecendo assim até hoje.
Uma verdadeira revolução museológica de qualidade que torne aquele museu digno da grandeza de quem ali morou, de execução não necessariamente muito dispendiosa e um verdadeiro restauro, retornando a casa e o jardim o mais fielmente possível ao que teria sido no tempo de Fritz Müller que é bom, nada ainda. A sensação é de descaso total.
No outro lado da cidade, junto à estátua de Fritz Müller, na praça de mesmo nome, a “sensibilidade” do paço municipal achou por bem que o melhor local para colocação de dois contêineres de coleta de lixo fosse ali, a apenas 4 ou 5 metros do monumento. Recentemente, o material acumulado se espalhou pelo chão, até encostar no pedestal da estátua, que ficou chamuscado pelo fogo ateado por alguém naquele lixo.
Enquanto no município se tomam atitudes severas contra colocação de propagandas em postes, a própria municipalidade não se importou de causar poluição visual no pedestal da estátua histórica, afixando ali diversas placas de pífias inaugurações, como a de uma pequena revitalização da praça que leva o nome do nosso cientista maior. Placas que ostentam o nome de todos os detentores de cargo da hora, muitos ali mencionados de forma absolutamente desnecessária e até desmerecida.
A cereja do nefasto bolo de descaso para com a memória da vida e obra de Fritz Müller foi uma notícia que saiu há poucos dias neste novembro de 2025. Com verba do governo federal, tudo decidido, aparentemente, na surdina, pois, por exemplo, ninguém do Instituto Histórico de Blumenau sabia, decidiu-se ceder aqueles dois terrenos, que foram desapropriados justamente para evitar uso prejudicial ao museu, para a construção de um espaço cultural com auditório, espaço para teatro, artes plásticas e música. A intenção, até que, em princípio, boa, foi a de dar mais vida àquele local.
Não é preciso, porém, inventar nada. Gastar preciosos recursos para uma obra que não tenha relação direta com Fritz Müller simplesmente vai desperdiçar o potencial histórico-cultural daquele espaço e pode revelar desconhecimento ou desprezo sobre a monumentalidade de sua vida e obra.
Se alguém ainda tem alguma dúvida sobre o significativo vulto que foi a figura deste naturalista, esta coluna recomenda a leitura do apaixonante “Fritz Müller, o gênio desconhecido que pôs o Brasil no centro da revolução científica de Charles Darwin”, de Evandro de Assis, recém-saído do forno, neste novembro de 2025. Ou “Darwin’s man in Brasil – the evolving Science of Fritz Müller” (O homem de Darwin no Brasil – a Ciência evolutiva de Fritz Müller), do norte-americano David West, de 2016.
O que aquele espaço do museu e seu entorno precisa é de um projeto bem-feito e bem embasado em técnicas museológicas de memória histórica e de restauro adequadas que torne aquele ambiente atrativo, didático e pedagógico para os habitantes locais e regionais e para os turistas nacionais e do mundo inteiro que poderiam vir conhecer e apreciar o gigantismo da obra do maior naturalista brasileiro de todos os tempos que ali viveu e um dos mais importantes colaboradores e defensores da teoria da Evolução, reconhecidamente respeitado e admirado pelo próprio Charles Darwin. Isso só Santa Catarina e Blumenau tem, além de Floranópolis (sic!), ninguém mais!
Blumenau, como epicentro da história fascinante de um personagem singular e grandioso, já demonstrou ao longo de sua história de tudo o que é capaz. Blumenau não pode permitir a continuidade desse atual estado de coisas. Basta de gambiarras e descasos! Blumenau não pode ser responsável pelo hediondo crime de Fritzcídio!
Despedida
Com este centésimo décimo segundo artigo aqui n’O Município-Blumenau, tendo chegado a um pico de mais de 130 mil visualizações, dentre um total de mais de 600 artigos publicados em outros espaços, despeço-me profundamente honrado e agradecido pela oportunidade. Continuo, no entanto, como sempre, atuando nas trincheiras da defesa ambiental e histórico-cultural, talvez reunindo os principais artigos em um ou mais livros. Muito obrigado, meus sempre claros e preclaros leitores e leitoras!





