Os primeiros sepultados e os túmulos históricos do cemitério mais antigo de Blumenau

Conheça a história do Cemitério da Igreja Luterana, que guarda as memórias mais antigas da cidade

No coração de Blumenau, um dos locais mais antigos da cidade ainda guarda marcas do passado: o Cemitério da Igreja Luterana. Erguido a partir de uma doação feita por Hermann Bruno Otto Blumenau à comunidade evangélica, o espaço abriga sepulturas que datam do século XIX e carrega a memória dos primeiros imigrantes luteranos que chegaram à região.

A história do cemitério se entrelaça com a da própria cidade, marcada pela atuação do pastor Rudolph Oswald Hesse, em 1857, logo após desembarcar na colônia.

O local ainda preserva túmulos de figuras relevantes da história de Blumenau, como prefeitos, pioneiros e personagens que marcaram a construção da cidade.

Matheus Lavall de Olivera/O Município Blumenau

Hoje, o espaço é reconhecido não apenas por seu valor religioso, mas como um importante patrimônio cultural.

Os cinco primeiros sepultamentos realizados no cemitério mais antigo de Blumenau

Uma pesquisa histórica conduzida por Wieland Lickfeld, membro do Instituto Histórico de Blumenau, identificou que os primeiros registros do cemitério da Igreja Luterana têm lacunas. Logo, não é possível dizer com certeza quem foram os cinco primeiros sepultados.

A lista considera os cinco primeiros nomes que citam diretamente o cemitério, além de outros que aparecem nos períodos com registros incompletos. Arquivos são baseados nas anotações do pastor Oswald Hesse, registradas em seu livro.

Segundo o pesquisador Wieland Lickfeld, do Instituto Histórico de Blumenau, os primeiros registros do cemitério da Igreja Luterana têm lacunas.

Segundo o levantamento, os luteranos batizavam suas crianças com cerca de dois meses de vida, diferente dos católicos, que costumavam batizar nos primeiros dias após o nascimento. Por isso, algumas crianças registradas não possuem nome.

Conforme Lickfeld, é pouco provável que ainda existam túmulos da época, devido à degradação natural e às transformações ocorridas ao longo dos anos. Hoje, são raros os túmulos do século XIX ainda preservados.

 

Matheus Lavall de Oliveira/O Município Blumenau

1 – Uma menina, com sobrenome Weise, não batizada, morreu em 1 de agosto de 1857, com 29 dias de idade, e foi sepultada no dia seguinte. Morava na região conhecida como Velha, a qual, na época, começava no Centro, próximo a Prefeitura de Blumenau. Seus pais se chamavam Ernst Weise, era lavrador, e Johanne Weise, Köhler era seu nome de solteira.

Matheus Lavall de Olivera/O Município Blumenau

2 – Johanna Louise Zwingmann, de 41 anos, é considerada a segunda a ser sepultada no cemitério. Segundo o arquivo “Blumenau em Cadernos”, ligado à administração colonial, ela morreu em 1º de agosto de 1857. Seu esposo se chamava Heinrich Zwingmann, era carpinteiro. Eles residiam na área central.

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3 – Thekla Friedenreich, de 2 anos, foi o primeiro nome que o pastor Oswald Hesse anotou em seu caderno oficial, após a realização de seu primeiro culto em Blumenau. Morreu em 15 de setembro de 1857 e foi sepultada dois dias depois. Morava na região central.

Seus pais eram Carl Wilhelm Friedenreich e e Minna Schröder. Carl era veterinário, além de ser considerado o primeiro comerciante e hoteleiro de Blumenau. Foi também o pioneiro na prestação de atendimento médico emergencial aos imigrantes.

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4 – Carl Spiess, de 36 anos, lavrador e encardenador, morreu em 6 de outubro de 1857 e foi sepultado no dia seguinte. Era casado com Caroline Lieb. Acredita-se que moravam no Centro de Blumenau, segundo o local de sepultamento.

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5 – Friedrich Bähr, de 33 anos, era pedreiro, morreu em 10 de novembro de 1857. Seus pais eram Christian Bahr e Henriette Heike.

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Estas são os cinco primeiros registros que especificam o cemitério como local do sepultamento.

Assim, com base em registros de Hesse, dois nomes aparecem como possíveis candidatos à quinta pessoa sepultada no cemitério. Os casos aconteceram entre a morte de Carl Spiess e Friedrich Bähr, porém não possuem menção do local em que foram enterradas.

A seguir, estão apresentados, em ordem de registro, aqueles que podem ocupar essa posição na história do cemitério da Igreja Luterana de Blumenau:

Anna Maria Rechemberg, possuía em torno de 3 anos e meio de vida. Foi sepultada 11 de outubro de 1857. Não aparece o local em que morava, mas, conforme os dados, era moradora de Blumenau. Seus pais eram August Ferdinand Rechemberg, carpinteiro, e Marie Brinkmann.

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Anna Amalie Elisabeth Schmitt, de 64 anos, morreu em 3 de novembro de 1857 e foi sepultada no dia seguinte. Seu sobrenome de nascimento é Westphal. Morava na colônia, mas não se sabe em que local de Blumenau. Seu marido era Friedrich Schmitt. Seus pais eram Hans Joachim Westphal e Christiane Dorothea Frohen.

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Alguns dos túmulos mais antigos de Blumenau

No cemitério, é possível encontrar incontáveis túmulos — alguns mais antigos, outros mais novos. Conforme informações no local, os mais antigos estão localizados na parte da frente, com alguns destaques na área mais alta do cemitério. Veja abaixo alguns deles:

1 – Rudolf Oswald Hesse (1820–1879): o primeiro pastor protestante de Blumenau, Rudolf foi ordenado vigário da Comunidade de Wreschen, em 1850, e, em outubro de 1856, assinou o contrato para exercer a atividade de pastor na Colônia Blumenau.

Matheus Lavall de Olivera/O Município Blumenau

Ele embarcou em Hamburgo, no navio Karoline, em 23 de julho de 1857, e chegou a Blumenau com a esposa Wanda Hesse (1830–1905), de sobrenome de solteira Pupke, além de seus dois filhos. Assumiu seu cargo em 1º de agosto de 1857.

O pastor realizou seu primeiro culto no barracão dos imigrantes, e sua atuação foi primordial nos primeiros anos da colônia. A Igreja do Espírito Santo foi edificada e inaugurada durante sua permanência em Blumenau. O pastor também foi um dos fundadores do Clube de Caça e Tiro, hoje denominado Tabajara.

2 – Ida Rischbieter (1841–1882): considerada a primeira esposa de Wilhelm Rischbieter (1836–1905), encontra-se no mesmo túmulo do marido. Seu sobrenome de solteira era Zesch.

Wilhelm foi responsável pela instalação de uma venda e de uma fábrica de vinagre em uma pequena casa de madeira alugada. A casa era um antigo ponto de encontro dos colonos, conhecido como Waldschnepfe (Codorna do Mato).

3 – Heinrich Bichels (1812–1884): Heinrich era filho de Deterich Heinrich Bichels e Elshe Margaretha Starcke, nascido em Hamburgo, na Alemanha. Ele divide o túmulo com Johanna Rebeca Bichels (1817–1909), de sobrenome de solteira Marx, filha de Hermann Ernst Marx e de Margaretha Catharina Vortmann.

O casal emigrou junto com os filhos no navio Franklin e chegou a Itajaí em 1857. Sua filha Thereza casou-se com Otto Stutzer, e ambos estão sepultados na unidade nº 50. São também pais de Bertha, casada com o patriarca da família Odebrecht, Emil, sepultados na unidade nº 45.

4 – Gertrud Altenburg (1848–1886): Gertrud Altenburg, de sobrenome de solteira Wagner, era filha de Peter Wagner e casada com Luis Altenburg. Juntos, tiveram um engenho de farinha, açúcar e alambique, e, em Gaspar, abriram uma olaria.

Dentre os 11 filhos do casal, está Luis Altenburg Júnior, esposo de Joanna Altenburg, fundadora da empresa Altenburg.

A história de Gertrud está relacionada com a unidade nº 19, quadra A. Esta localização contém os túmulos de seu filho, nora e netos. Na unidade nº 27, encontra-se o túmulo de seu pai, Peter Wagner.

5 – Andreas Imthurn (1842–1887) e o casal pioneiro Heinrich (1810–1887) e Charlotte Rischbieter (1815–1914): estes são os dois últimos túmulos mais antigos presentes no cemitério luterano em Blumenau. Não se sabe a data exata do sepultamento do casal, apenas o ano. Diante dos dados, os dois foram considerados nesta classificação.

Andreas Imthurn (1842–1887) viveu em Gaspar, onde foi alfaiate. Casado com Aurinha, de sobrenome de solteira Mueller, Andreas era filho de Ulrich Imthurn e de Anna Maria. Ele morreu em 2 de maio de 1887, em Gaspar, com 43 anos de idade.

O casal pioneiro Heinrich (1810–1887) e Charlotte Rischbieter (1815–1914), de sobrenome de solteira Alms, são pais de Wilhelm Rischbieter, proprietário de uma fábrica de vinagre (1914), sepultado na unidade nº 43, e de Carlos Rischbieter, proprietário da cervejaria Rischbieter Brauerei de Blumenau (1924).

A cervejaria, estabelecida próxima ao Morro da Bela Vista por volta de 1875, ficou conhecida pela fabricação das marcas: Bavária, Favorita e Schwartzbier.

Cemitério Luterano preserva memória dos primeiros imigrantes de Blumenau

O Cemitério Luterano de Blumenau guarda parte significativa da história da cidade, marcada pela chegada dos primeiros imigrantes luteranos no século XIX.

A comunidade, considerada a mais antiga da região, realizava seus cultos religiosos no Barracão do Imigrante logo após se estabelecer no território catarinense.

Matheus Lavall de Olivera/O Município Blumenau

Em 29 de julho de 1857, o pastor Rudolph Oswald Hesse chegou a Blumenau vindo de Wreschen, na Europa, contratado pelo governo imperial brasileiro.

Após sua chegada, o Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau doou à comunidade evangélica um terreno para a construção de uma casa pastoral, um templo provisório de madeira e também uma área destinada ao cemitério. O primeiro culto foi celebrado em 1857 por Hesse.

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História da criação do monumento do imigrante

A praça em frente à Igreja Luterana foi construída em homenagem à chegada dos primeiros imigrantes e marca o local do antigo porto que funcionava na região. A posição da igreja voltada para o bairro Garcia reforça essa conexão histórica com o porto fluvial.

Pulsar Imagens/Divulgação

O monumento do imigrante foi construído em 1900, na praça Hercílio Luz, em comemoração aos 50 anos da chegada dos primeiros 17 imigrantes alemães e fundadores da Colônia Blumenau.

Túmulos que guardam memórias

O cemitério abriga túmulos de figuras relevantes da cidade, como prefeitos e personalidades conhecidas. Entre elas existe a mulher que ficou conhecida como “a senhora do cemitério dos gatos”, a atriz Edith Gaertner.

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Fritz Müller também está presente na história do cemitério. Ele foi naturalista, botânico e professor teuto-brasileiro, destaque da ciência ao se tornar um dos primeiros defensores da teoria da evolução de Charles Darwin.

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Bruno Hering, um dos fundadores da marca Hering ao lado do irmão Hermann, está sepultado no Cemitério da Igreja Luterana de Blumenau. A empresa, criada em 1880, começou como uma pequena tecelagem e se tornou uma das maiores malharias do Brasil.

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Infraestrutura e segurança do cemitério

Ao longo dos anos, o espaço foi sendo ampliado para os fundos. Baseado na afirmação do pastor Milton Jandrey, o cemitério possui em torno de 2.740 túmulos, que varia com o tempo. As sepulturas mais antigas ficam próximas à entrada, enquanto as mais recentes ocupam áreas posteriores.

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O espaço segue sob responsabilidade da comunidade luterana. Embora seja público, é administrado de forma particular, e atualmente conta com Valdecir Ulmann, zelador-chefe do local.

O local é monitorado por câmeras de segurança para prevenir atos de vandalismo e garantir a segurança dos visitantes.

Guia de visitação ao cemitério luterano de Blumenau

Em 2025, a Igreja Luterana possui um guia turístico de visitação histórica ao cemitério luterano. O cemitério é aberto à visitação ao público. O planejamento é dividido em cinco partes:

  • Por elas: formado por empresárias, escritoras, professoras e artistas, o roteiro apresenta suas trajetórias, além da participação e contribuições em diferentes setores da sociedade;
  • De arquitetura e história: reúne unidades que se destacam por seus elementos materiais e imateriais;
  • De arte e literatura: formado por homens e mulheres e suas contribuições para o cenário catarinene;
  • Um dia na colônia Blumenau: sobre imigrantes e os primeiros anos da colônia Blumenau contados por meio de homens e mulheres e suas histórias de vida;
  • Trabalhos e ofícios: composto por alfaiates, mecânicos, industriais e marmoristas que revelam parte das memórias sobre o trabalho em Blumenau.
Matheus Lavall de Oliveira/O Município Blumenau

Os percursos apresentam uma amostra do conjunto e algumas das histórias que podem ser encontradas no local. A composição do material foi feita a partir de pesquisas em jornais, bibliografias, livros e documentos históricos.

O roteiro destaca os sepultados e evidencia os elementos materiais e imateriais presentes em seus túmulos. Apesar da ação do tempo e de alterações estruturais, muitos desses elementos ainda preservam valor cultural.

Matheus Lavall de Olivera/O Município Blumenau

Atualmente, está em fase de planejamento uma sessão guiada com data marcada, que apresentará essas histórias ao público. O passeio reforça a importância histórica do cemitério e promove a valorização da memória local.

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