“Faço a mala depressa, uma promessa não vou quebrar / sigo pela avenida, aeroporto, vou viajar / Atravessando os Andes de mil detalhes, me sinto bem / vou para Machu Pichu ouvir as flautas de muito além”.
“Uma desilusão no meu coração se fez de repente / no meio da montanha, um hotel enorme, cheio de gente / Fotos, chicletes, coca, uma massaroca pra lá e pra cá / nem um deus (nem) uma prece, era o progresso chegando lá”.
Esse sucesso de Hermes de Aquino me tocou profundamente no já distante ano de 1976 e minha mente evoca essa letra sempre que espero conhecer algo bonito, significativo e histórico, mas, cuja realidade às vezes me agride como um tapa na cara.
Guardadas as devidas proporções com Machu Pichu, foi com “uma desilusão que no meu coração se fez de repente” que conheci o Parque Natural Municipal das Pedreiras, em Navegantes, no último dia 22 de setembro deste ano de 2025. A primeira impressão até que foi positiva, apesar de, logo na frente, haver uma certa mistura de Parque Natural com recanto religioso, a gruta N. S. de Guadalupe.
Na entrada do Parque Natural propriamente dito, ainda novíssimo, inaugurado em 20/12/2024, painéis bem elaborados mostram um importante aspecto histórico daquela área. Foi dali que saíram os blocos de rochas para construção da primeira fase dos molhes da barra do rio Itajaí nos idos de 1912, transportados até a aquele local sobre os trilhos de uma mini estrada de ferro de poucos quilômetros de extensão que poucos sabem que existiu e que foi construída para esse fim.
Na trilha do Parque, de enorme potencial paisagístico e de imersão naquela fantástica Mata Atlântica no pleno vigor de sua recuperação, apesar de íngreme, o visitante depara-se, infelizmente, com muitos sinais de descaso e depredação: troncos de árvores estão riscados a faca ou canivete; vazios e restos de raízes em troncos e galhos e placas sem a planta identificada denunciam que ali havia orquídeas, bromélias e outras plantas nativas ornamentais que simplesmente foram roubadas.
Parece até que os fito-larápios deram preferência justamente às que estavam identificadas por placas. Algumas placas de identificação da flora e fauna estavam trocadas ou erradas. A inovação do visitante poder acessar o canto das aves por QRCode captado no seu celular, mereceria um capricho extra, pois, há vocalizações (cantos) que não correspondem à espécie ali apresentada. Um xaxim de uma espécie está identificado como sendo de outra espécie. Alguém teria trocado as placas? São exemplos de que há necessidade de uma boa revisão de tudo o que lá está identificado.
Já as placas com as espécies de aves que ocorrem naquele magnífico fragmento de Mata Atlântica, que é bem maior que os 14,7 hectares do Parque Natural, foram concebidas de forma bem criativa, em placas metálicas fortes e rígidas que não enferrujam, muitas com a silhueta da espécie identificada recortadas no próprio metal, como se a ave estivesse pousada sobre a placa. Ocorre que os execráveis vândalos já conseguiram, forçando o metal em movimentos de vai e vem, quebrar os “pés” das aves e roubaram algumas de suas belas silhuetas. Naquele dia, umas três ou quatro dessas placas já estavam assim depredadas.
A felicidade de ver quase nenhum lixo atirado ao longo das trilhas, contrasta com a total mistura de lixo reciclado com o não reciclado nos recipientes de coleta existentes na entrada/saída do parque, problema comum em quase todo o Brasil. Quanto às trilhas, constatamos trilhas paralelas, anastomosadas, em alguns trechos, mais um sinal de que, assim como a ação dos depredadores, parece que os visitantes ficam livres e “soltos” dentro da Unidade de Conservação, sem a devida orientação de responsáveis ou de professores, no caso de grupos de estudantes. Os sinais de pisoteio encontrado sugere isso.
Já no mirante, belíssimo por um lado, compensando todo o esforço de subir da cota aproximada de 15 metros até 156 metros, dispondo até de luneta para observação da paisagem magnífica que se descortina lá de cima, por outro lado, revelou certa falta de bom planejamento, por parte da municipalidade, de como aplicar os recursos, como os da compensação ambiental oriundos da ampliação do Porto de Navegantes e destinados a esse Parque Natural.
Acontece que na frente do mirante havia árvores nativas da floresta atlântica e então, centenas delas foram cortadas para permitir a visão da paisagem, algo absurdo e incompatível com um Parque que se pretende ser natural. De quebra, espécies vegetais exóticas, algumas com potencial de serem invasoras, foram plantadas como ornamento, numa confusão do que é um parque natural, cujos objetivos são mostrar a natureza como ela é e não como queremos que seja. Confundiu-se preservação com paisagismo.
Na saída, já quase escurecendo, ficaram esclarecidas algumas das razões para a ocorrência de tantos sinais de depredação e vandalismo. Entramos e saímos sem encontrar nenhuma viva alma de funcionário responsável para receber e orientar o visitante, nenhum guarda-parque, nem mesmo sequer existe um portão que feche a entrada de acesso nos horários de não funcionamento dessa potencialmente bela e atrativa Unidade de Conservação da Natureza.
Apesar de tudo, o Parque Natural Municipal das Pedreiras de Navegantes ainda tem grande potencial de ser uma bela atração regional, paralelamente à sua importantíssima função de proteger uma nascente, a paisagem e a biodiversidade. Para isso é necessário que disponha de equipe pequena, porém, eficaz, que conserve e zele pelo bom uso por parte dos visitantes.
Vários degraus feitos de placas de rocha granítica nos trechos mais íngremes da trilha estão soltos e inclinados, podendo provocar acidentes. Por isso, é importante que sejam melhor e mais firmemente assentados, garantindo conforto e segurança aos que se aventuram numa subida equivalente à altura de um prédio de 50 andares, porém, evidentemente, muito prazerosa e gratificante.
Um novo mirante pode ser feito, erguido bem acima das copas das árvores e, por que não, novamente com patrocínio ou mais recursos de compensação ambiental, permitindo que elas possam crescer livremente sem nunca obstruir a maravilhosa e ampla paisagem que pode ser observada lá de cima.
Plantas exóticas devem ser retiradas, deixando à própria natureza a escolha de quem vai ou não ali nascer e crescer, afinal, é para isso que existem os parques naturais. Nas normas do parque falta incluir o aviso de não riscar nem causar qualquer dano à vegetação, mas, como todas as normas, há que se ter mecanismos que garantam seu cumprimento.
Onde existem desvios de trilhas, deve-se selecionar a rota adequada e impedir as passagens por rotas inadequadas, levando-se em conta a configuração da trilha em constante subida, sem descidas desnecessárias, aliviando com isso o já bom esforço do visitante para chegar ao topo do mirante.
Na torneira, lá em cima, não pode faltar água, como constatamos e as mangueiras de água devem estar ocultas, levemente enterradas, para que não se ostente desnecessariamente um corpo estranho ao ambiente natural.
Essas e muitas outras sugestões, uma vez aplicadas, tenderão a valorizar cada vez mais aquele belíssimo local, que, repetimos, não pode ficar ao deus-dará, no abandono que o encontramos no dia de nossa visita e com sinais de que esse abandono não foi só naquele dia, sugere ser regra geral. A Educação Ambiental, a orientação a cada um dos visitantes e a vigilância não podem ser relaxadas em momento algum, pois, infelizmente, sempre haverá os mal-intencionados que se comprazem em prejudicar o que é de todos. O recente episódio de roubo no Louvre, o museu mais famoso do mundo, que o diga.
Navegantes merece esse parque bem cuidado e de excelente localização do ponto de vista turístico, os munícipes e visitantes o merecem, a região merece, a mata atlântica e a biodiversidade merecem.
Em tempo – 1: seguindo uma triste “tradição” de ode ao ego em nosso país, as costumeiras placas de inauguração, com a pavônica lista de todas as autoridades da hora, essas estavam lá, impecáveis, denunciando quem inaugurou e logo deu as costas à obra inaugurada, depois de incríveis três milhões de reais gastos na implementação do Parque Natural Municipal das Pedreiras, de Navegantes.
Em tempo – 2: este colunista, há poucos dias, recebeu a notícia de que também o maravilhoso Parque Natural Municipal Freymund Germer, no Morro Azul de Timbó, está entregue ao completo abandono, já apresentando sinais de graves depredações, depois de ter funcionado exemplarmente bem durante décadas. Pretendemos voltar a esse tipo de assunto em mais oportunidades.
Veja agora mesmo!
Família da Vila Itoupava prepara o tradicional marreco recheado há 35 anos, em Blumenau:





