O projeto ferroviário regional fez parte dos planos das primeiras lideranças locais capitaneadas pelo fundador Hermann Bruno Otto Blumenau. Este projeto foi responsável pela definição do sítio da sede da nova colônia fundada em 1850.

Não foi por acaso este estar localizado no último trecho navegável do rio Itajaí-Açu e com a imediata espacialização de um porto fluvial na foz do ribeirão Garcia no rio Itajaí-Açu.

Pretenderam com isto, estes pioneiros, elaborar uma rede de caminhos a partir da intermodalidade contando, é claro, com a presença da ferrovia. Esta complementaria o transporte fluvial, de cargas e de pessoas, para o interior da colônia, com perspectiva de chegar à fronteira da Argentina.

Localização do último ponto navegável. Fonte: WITMANN, 2010

O primeiro trecho da Estrada de Ferro de Santa Catarina (EFSC) foi inaugurado seis décadas após a chegada do primeiro grupo de 17 imigrantes fundadores de Blumenau.

Os primeiros elementos estruturadores, presentes no projeto ferroviário da EFSC foram desenvolvidos por uma equipe técnica alemã. Entre estes elementos ferroviários, estavam as pontes, sendo que as maiores foram construídas predominantemente de pedra e de ferro.

Logomarca da Estrada de Ferro de Santa Catarina. Estação de Warnow, Indaial.

Atualmente existem no território do município de Blumenau exemplos de pontes ferroviárias da EFSC construídas com ferro e também, com pedra, inauguradas no primeiro trecho ferroviário desta histórica ferrovia regional, no início do século XX – trajeto entre as estações de Blumenau e Warnow – localidade de Indaial.

Escolhemos contar um pouco sobre a história de uma destas pontes ferroviárias locais em nosso primeiro trabalho publicado na coluna de O Município, por entender ser esta, uma das mais interessantes pontes, sob o aspecto histórico, plástico e técnico na cidade de Blumenau, e simultaneamente a isto, a mesma se encontra “guardada no meio da mata”, desde o início da década de 1970, onde muitas pessoas, na atualidade, sequer conhecem sua existência e sua história, fato que constatamos ao longo da pesquisa ferroviária.

Conhecemos a ponte ferroviária de granito rosa de Blumenau em 1996 (com um distância temporal de 25 anos da desativação ferroviária local), durante a elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso – TCC, no curso de Arquitetura e Urbanismo da Furb, cuja monografia foi publicada na forma de um livro em 2001. 

O tema foi escolhido após uma visita a uma exposição de fotografias da ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária) sobre a EFSC, exposta no saguão da Biblioteca da Furb (1995).

Naquele momento, percebemos o quanto o tema era pouco conhecido na comunidade e cientes disso, pesquisamos sobre, para cumprir os quesitos para o término do curso, e também, para disponibilizar esta pesquisa e propostas à comunidade do Vale do Itajaí – por isso a publicamos, resultando em dois livros.

Pontes de granito e de ferro em 1996

Neste tempo, fotografamos a ponte ferroviária de granito rosa de Blumenau inteira e a ponte de ferro (construída posteriormente, para substituí-la), a qual ainda existia ao seu lado, isoladas no meio do mato, locadas sobre a foz do Ribeirão do Tigre. Na época, a nossa opinião era de que esta situação das pontes era boa.

Estavam, ao menos, “guardadas” de ações de vândalos, na ausência de planos para sua recuperação, amplamente vislumbradas no projeto de TCC, que desenvolvemos, com objetivo de resgatá-las. Nesta condição, ao menos não estariam correndo riscos.

Esta opinião mudou quando se iniciou o projeto de implantação de um dique na região das pontes de pedra e de ferro, na foz do Ribeirão do Tigre. O projeto tinha o objetivo de diminuir a cota de enchentes no Bairro Vila Nova. A ponte ferroviária de granito rosa não se encontrava mais “guardada no meio do mato” – junto à foz do Ribeirão do Tigre.

4 de fevereiro de 2018 – Canteiro de obras do Dique do Ribeirão do Tigre com vista para a Rua São Paulo.

O local se tornou em um canteiro de obras da Prefeitura Municipal de Blumenau. Foi apresentado um projeto e iniciaram a execução de um dique na foz do Ribeirão do Tigre – a obra não terminou, até o tempo presente. A foz do Ribeirão foi modificada e mata ciliar retirada parcialmente.

Ainda não compreendemos muito bem o real objetivo deste projeto e quais os cuidados que foram tomados com o meio-ambiente através de observações às leis federais, estaduais e locais, ambientais vigentes e também com o patrimônio histórico arquitetônico ferroviário, pois as pontes estavam localizadas sobre a foz do Ribeirão do Tigre. 

Houve mudanças dos elementos naturais e construídos que compõem a paisagem local, como ilustram os registros do Google Earth, em diferentes tempos históricos.

Mapas modificados a partir do mapa do Google Eath – quatro anos distintos

Em 2013, no início da administração do prefeito Napoleão Bernardes, tivemos a iniciativa de marcar uma audiência com o mesmo e apresentar um pouco sobre o Patrimônio Histórico Ferroviário da cidade – parte de nossa pesquisa, com intuito de sensibilizar e munir a administração pública de Blumenau de informações e fomentar a alguma iniciativa positiva, dentro de um projeto, no mandato que se iniciava. Lembramos que havíamos mostrado aos prefeitos anteriores. 

O prefeito ficou surpreso com a existência da ponte de pedra ferroviária de granito rosa, tão próxima à sede da administração pública de Blumenau.

A ideia de resgatar revitalizar e preservar, inserindo patrimônio ferroviário em um projeto urbanístico para a cidade, viabilizando a nossa proposta de TCC desenvolvido na Furb, no final da década de 1990 com este objetivo, a partir de um parque linear junto ao rio Itajaí Açu e com a criação de um museu ferroviário, no qual, também a Macuca faria parte, rodando em um pequeno trecho ferroviário retornou com possibilidades para ser implementado. 

Foto do Painel de TCC com a localização das duas pontes ferroviárias dentro da proposta

Sem perder o foco – a ponte ferroviária de granito rosa de Blumenau da foz do Ribeirão do Tigre – marcamos uma reunião com o Secretário de Planejamento Urbano de Blumenau Alexandre Gevaerd, em 9  de abril de  2013.

Para este encontro, convidamos técnicos da ABPF, voluntários ferroviários, reitor da Furb, historiadores e arquitetos da Prefeitura Municipal de Blumenau para explanar sobre a ponte e outros elementos do patrimônio ferroviário local afim de sensibilizar o grupo e representantes da administração pública.

Nada aconteceu. Atualmente, a ponte supostamente está parcialmente avariada. Tentamos efetuar registros, sem êxito, pois o acesso está muito difícil e, em função das obras do dique, o local conta com a presença de um pequeno lago no entorno da ponte de pedra, que está quase totalmente tomada pelo mato. Mesmo assim registramos sua presença.

4 de fevereiro 2018 – Ponte ferroviária de granito rosa parcialmente descoberta.

Recebemos a informação, de parte da equipe técnica da Prefeitura de Blumenau, de que há o desenvolvimento de um projeto de revitalização urbano para o bairro de Itoupava Seca e para a região da ponte ferroviária de granito rosa, que contempla a sua presença.

Um pouco de história – Ponte ferroviária EFSC

Ponte ferroviária de granito rosa nova – Projeto de Albert Weitnauer. Fonte: Arquivo Histórico José Ferreira da Silva.

A ponte de pedra, ou, a ponte ferroviária de granito rosa de Blumenau foi construída estruturada com a presença de três arcos romanos, respeitando uma simetria, característica das obras romanas e seus arcos plenos.

Foi construída com o mesmo granito usado na construção da Catedral São Paulo Apóstolo, de Blumenau, projetada pelo arquiteto alemão Dominikus Böhm e por seu filho, também arquiteto, Gottfried Böhm.

O granito é oriundo da localidade de Subida – localidade que fica às margens do antigo leito ferroviário da EFSC. A ponte de granito rosa de Blumenau foi construída no início do século XX e inaugurada em 3 de maio de 1909, junto com a inauguração do primeiro trecho ferroviário dessa linha ferroviária.

Ponte ferroviária de granito rosa nova em construção, contando com a presença do estaleiro, necessário de precisar ser recuperada mediante uma possível avaria. Fonte: Arquivo histórico José Ferreira da Silva.

Seu projeto foi assinado pelo engenheiro arquiteto Albert  Weitnauer, genro do primeiro Cônsul Honorário do Império Austro-Húngaro na Colônia Blumenau, comerciante que, na época, residia em Warnow – Leopold Franz Hoeschl – o qual também prestou relevantes serviços para a equipe que construía a EFSC.

O engenheiro Arquiteto Albert Weitnauer, entre alguns responsáveis pela construção da EFSC, inclusive o Cônsul Honorário do Império Austro-Húngaro- que sedia seu estabelecimento comercial, em Warnow, para escritório da EFSC e tornou-se sogro do engenheiro. Fonte: GERLACH, 2019.

A ponte ferroviária de granito rosa recebeu a companhia da ponte de ferro que começou a ser utilizada, substituindo-a, ficando esta sem uso. Em 1971, com a desativação da ferrovia,  a ponte ferroviária de granito rosa, já sem uso, estava em pleno processo de ser encoberta, tragada pela vegetação, como ilustra a fotografia.

As duas pontes, de ferro e granito, logo após a desativação da ferrovia – 1971. Desde então, permaneceram no local, isoladas. Fonte: HENKELS, 2009.

Como está a ponte ferroviária de granito rosa atualmente?

Em 4 de fevereiro de 2018, fomos buscar a resposta para este questionamento no local onde foi construída e para conseguir encontrá-la, seguimos a orientação de nosso croqui feito no TCC, em 1996 e publicada em nosso primeiro livro.

Percebemos que a obra do dique do Ribeirão do Tigre estava com aspecto de abandono e é utilizado como algum tipo de depósito. Verificamos que a ponte ferroviária de granito rosa de Blumenau continuava no local, no meio do mato e da água.

Se não fosse a informação que parte de um de seus arcos está ruindo – a constatação é de que a ponte continua isolada visualmente, ou seja, guardada de ações de vândalos o que é positivo dentro de todo o contexto, ciente de que alguém possa colocá-la novamente na paisagem de Blumenau como um monumento histórico importante e uma infraestrutura que ainda pode ser usada, como é comum nas paisagens das cidades europeias, bem como a acessibilidade à linda paisagem do rio Itajaí Açu, tão nobre, útil e admirada em outros tempos.

Confira em vídeo a frustrada tentativa de se chegar ao local da ponte de granito rosa.

As imagens comunicam

Documento encontrado sobre o dique, aparentando uma possível inauguração.

A ponte ferroviária de granito rosa de Blumenau está localizada no meio urbano de Blumenau – inaugurada em 1909 no primeiro trecho ferroviário da EFSC, continua “guardada” no meio do mato.

Enquanto estiver assim, está tudo bem, pois o material não é perecível. Mas, seria prudente ver seu estado de conservação estrutural atual, depois de tantas movimentações e obras no seu entorno imediato, inclusive com a mudança da foz do Ribeirão do Tigre. Esperamos que todo este processo alheio à história e à paisagem natural, tenha acontecido, respeitando as diretrizes das legislações ambientais, em todas as esferas.

Em um momento futuro ou presente, a ponte ferroviária de granito rosa de Blumenau poderá ser resgatada e reacondicionada no espaço e na paisagem da cidade, onde sempre deveria ter estado e usada ininterruptamente, sem hifens, pois o granito rosa é atemporal e eterno mediante às intempéries – ao contrário da pequena máquina Macuca.

Vamos manter as esperanças, de que nosso projeto de academia enfim seja observado e contemplado, nem que somente de maneira parcial, destacando a belíssima ponte ferroviária de granito rosa de Blumenau para todos que passam nas proximidades da foz do Ribeirão do Tigre, a conheçam.

A quem interessar, nosso livro: “A Ferrovia no Vale do Itajaí – Estrada de ferro Santa Catarina”, está disponível no formato on-line, para a pesquisa. 

Acessar o link:  A Ferrovia no Vale do itajaí – Estrada de Ferro Santa Catarina

Em 14 de Março de 2019. Fotografia: Roberto Wittmann

Referências

  • GERLACH, Gilberto Schmidt,  Colônia Blumenau no Sul do Brasil / Gilberto Schmidt-Gerlach, Bruno Kilian Kadletz, Marcondes Marchetti, pesquisa; Gilberto Schmidt-Gerlach, organização; tradução Pedro Jungmann. – São José : Clube de Cinema Nossa Senhora do Desterro, 2019. 2 t. (400 p.) : il., retrs.
  • HENKELS, Luiz Carlos; HABITZREUTER, Rubens Roberto. Estrada de Ferro Santa Catarina – EFSC – 1909-2009. Publicação do consórcio Empresarial Salto Pilão – CESAP – que retrata em fotografias fragmentos da história da ex-EFSC. Santa Catarina, 2009. 192p.:il.;23x31cm.
  • HUMPL, Max. Crônica do vilarejo de Itoupava Seca: Altona: desde a origem até a incorporação à área urbana de Blumenau; Méri Frotscher Kramer e Johannes Kramer (orgs.). – 1.ed. – Blumenau (SC) : Edifurb, 2015. – 226 p. : il.
  • SILVA, José Ferreira. Cervejarias de Blumenau. Revista Blumenau em Cadernos. Tomo III, Setembro de 1960. N°9. Paginas: 161 – 170.
  • SILVA, José Ferreira. História de Blumenau. -2.ed. – Blumenau: Fundação “Casa Dr. Blumenau”, 1988. – 299 p.
  • WITTMANN, Angelina C. R. A ferrovia no Vale do Itajaí: Estrada de Ferro Santa Catarina: Edifurb, 2010. – 304 p. :il.
  • WITTMANN, Angelina. Ponte Ferroviária de Granito – EFSC – início do Século XX – Blumenau – Inaugurada junto com o 1° Trecho Ferroviário da EFSC. Blog Angelina Wittmann – Arte – Cultural – História – antropologia. Postagem de 2 de fevereiro de 2018. Disponível em: https://angelinawittmann.blogspot.com/2018/02/ponte-ferroviaria-de-granito-efsc.html. Acesso em: 25 de outubro de 2021.

Sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
@angewittmann (Instagram)
@AngelWittmann (Twiter)

 

 

 

 

 


Receba notícias direto no celular entrando nos grupos de O Município Blumenau. Clique na opção preferida:

WhatsApp | Telegram


• Aproveite e inscreva-se no canal do YouTube