A Limnologia é a Ciência que estuda as águas continentais como os rios, lagos, áreas úmidas (pântanos e brejos), lençóis freáticos e demais águas subterrâneas.

Tive a sorte de ter três grandes mestres de Limnologia de renome internacional: na pós-graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o americano Dr. Hermann Kleerekooper (? – ?) e o argentino Dr Argentino Bonetto (1920-1998) e no mestrado no INPA/Universidade Federal do Amazonas, ninguém menos que o respeitadíssimo Dr. Harald Sioli (1910-2004), alemão que se tornou referência quando se trata de águas e rios da Amazônia.

Os lagos formam sistemas chamados de lênticos, sem maiores movimentações aparentes das águas. Já os rios são sistemas predominantemente lóticos, devido à evidente movimentação das águas. Mesmo assim, um rio pode ter trechos mais lóticos (corredeiras) e trechos mais lênticos, onde a correnteza é pouco aparente.

O nome do bairro de Rio Morto, em Indaial, por exemplo, denuncia um trecho lêntico do rio Itajaí Açu naquele município, seguido por um trecho lótico, com as corredeiras que se estendem, alternadas com pequenos trechos lênticos, até o bairro da Itoupava Norte em Blumenau. Itoupava é outra denominação popular de origem tupi-guarani que denuncia corredeira. Do Centro de Blumenau até sua foz, em Itajaí, por 70 quilômetros, o rio se torna lêntico.

A cada aspecto físico de um rio corresponde uma biota (flora, fauna e funga) típicos de cada lugar. Há espécies que ocorrem somente em trechos lóticos e outras em trechos lênticos, o que não significa que algumas espécies não possam ocorrer em ambos os trechos. O quimismo das águas de um rio igualmente influencia a vida nela existente. Por sua vez, esse quimismo depende da geologia, do clima, dos solos e da própria fauna, flora e funga da respectiva bacia hidrográfica, tudo interligado com tudo. Os dois gigantes que formam o famoso encontro das águas em Manaus-AM, rios Solimões e Negro, tem aspectos físicos e químicos bem diversos que podem ser entendidos em função das respectivas bacias de onde se originam.

A geologia também é muito determinante na dinâmica dos rios e ambos interagem ao longo dos séculos, milênios e milhões de anos. Trechos lóticos implicam, quase sempre, leitos rochosos, o que já não acontece muito em trechos lênticos. Estes, geralmente existem em planícies aluvionais, onde os rios formam inúmeros meandros que vão mudando com o tempo. Existe um equilíbrio dinâmico milenar entre o rio e a paisagem circundante, um moldando ou influenciando o outro.

Assim como as florestas, os campos, as pradarias e tantos outros ecossistemas terrestres, os rios, igualmente, constituem ecossistemas aquáticos que podem ser tão ricos e complexos quanto os demais. Também aqui nesses ecossistemas lóticos (com segmentos mais lênticos, lembrando lagos) a diversidade de ambientes ajuda a explicar a diversidade de vida aquática, tal qual nos ecossistemas terrestres (e marinhos). Há peixes que preferem corredeiras e peixes que preferem águas mais lênticas. O mesmo acontece com invertebrados e plantas aquáticas.

Nas diversas curvas, sejam elas determinadas pela geologia local, sejam determinadas pela própria dinâmica dos rios, via de regra, no lado externo a profundidade é maior e no lado interno, menor, podendo formar espraiados arenosos (praias fluviais), de cascalho ou seixos ou mesmo lodosos, cada ambiente propiciando diversidade de vida adaptada aos mesmos. Margens argilosas são excelentes locais para cascudos se refugiarem em tocas, mas estes também podem habitar vãos entre as rochas submersas, que, fora da água, abrigam lontras, mamíferos predadores de peixes. Praias de seixos podem ser locais essenciais para a desova de algumas espécies.

A diversidade de plantas aquáticas ou semi-aquáticas, envolvendo espécies submersas, parcialmente submersas ou apenas com as raízes nas águas ou terras úmidas ajudam na diversidade de outras espécies, animais, vegetais ou fungos que vivem ali associadas. A trama de raízes das florestas marginais forma outro importante ambiente que serve de refúgio e abrigo contra predadores e mesmo alevinos em crescimento. Tartarugas se aquecem sobre blocos de rochas ou troncos de árvores caídos nas águas expostos ao sol.
Inúmeros invertebrados, crescem, cada espécie, no seu ambiente de preferência e servem de base para a cadeia alimentar de outras espécies, não apenas os peixes.

Na dinâmica milenar dos rios existem, também, muitos ambientes úmidos contíguos às suas margens, formando brejos e baixadas alagáveis que fazem a festa dos anfíbios e explodem em outras formas de vida e servem de berçário ou maternidade de múltiplas espécies que completam seu ciclo de vida ali mesmo ou voltam a povoar o rio contíguo, mantendo-o, se não poluído pelo ser humano, pleno de vida e biodiversidade aquática. Se o rio estiver poluído, esses ambientes brejosos de baixadas podem ajudar a purificar suas águas.

Garças, socós, martins-pescadores, guaxinins, cobras d’água, são apenas alguns outros exemplos de espécies maiores e mais visíveis que compõem a fantástica teia da vida fluvial ou associada ao fluvial como essas baixadas brejosas e de águas paradas, porém plenas de vida, onde larvas de mosquito são eficientemente predadas por peixes barrigudinhos, anfíbios e vários invertebrados, como larvas de libélulas.

Os ecossistemas fluviais são tão importantes quanto qualquer outro ecossistema. Mais que isso, um interage e depende do outro, no espetacular caudal de vida que move a Biosfera ou Ecosfera planetária. Cuidar da saúde dos sistemas limnológicos é tão importante quanto cuidar de nossas florestas. A Ciência sabe disso. As pessoas minimamente informadas sabem disso.

Num primitivismo ambiental de fazer chorar, sem que se veja reação sequer por parte dos órgãos ambientais governamentais, numa visão extremamente reducionista e meramente paliativa de como atacar um problema que afeta a tantos em nossas sociedades, como já tratamos nesta coluna diversas vezes, nossos governantes insistem em resolver problemas de enchentes e enxurradas apenas na base do grotesco “tratoraço fluvial” que ignora toda uma dinâmica ecossistêmica, pior, ignora até a própria dinâmica das cheias e vai na contramão de tudo isso, detonando com nossos ecossistemas fluviais e transformando-os em nada mais que meros canais de escoamento de águas.

O incrível é que existem formas de dragar com minimização de impactos ambientais, como a Acaprena já sugeriu, há um ano, à Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Blumenau. O licenciamento desse tipo de obra não pode ser tão simples e sumário como tem sido, onde, parece, a única questão analisada é o da maior vazão das águas, mesmo que seu preço seja a destruição quase completa de um ecossistema, às custas de uma solução paliativa de curto prazo (até as próximas eleições?) e agravamento do problema das enchentes e enxurradas a longo prazo, como comprovam centenas de exemplos pelo país e mundo afora.