Suicídios estão mais frequentes em Blumenau. E também mais visíveis

Número de casos aumentou 30% nos últimos cinco anos e supera de longe a média nacional

Suicídios estão mais frequentes em Blumenau. E também mais visíveis

Número de casos aumentou 30% nos últimos cinco anos e supera de longe a média nacional

Redação

Por Alice Kienen e Bianca Bertoli

Explicar o que leva uma pessoa a tirar a própria vida é difícil até para quem estuda e trabalha com o tema. Ainda mais complicado é compreender o que leva outra pessoa a fotografar a imagem do cadáver e espalhar em redes sociais.

Foi o que aconteceu em Blumenau no fim de semana passado, quando um homem matou-se com um tiro no interior do Santuário Nossa Senhora Aparecida, na Itoupava Norte. De acordo com pessoas próximas, ele sofria de depressão. Imagens do interior da igreja e até fotos de familiares da vítima circularam em grupos de WhatsApp.

A visibilidade dada ao caso reativou discussões sobre a saúde mental dos blumenauenses. Em 2018, 44 pessoas cometeram suicídio na cidade, 30% a mais do que em 2014. No mesmo período, a população de Blumenau cresceu 5%.

São 12,5 casos para cada 100 mil habitantes, bem acima da média nacional de 5,6, de acordo com o Ministério da Saúde.

O número registrado no ano passado em Blumenau é maior do que o de Florianópolis (32) e muito próximo do registrado em Joinville (46), municípios bem mais populosos.

Entre janeiro e maio deste ano, o Instituto Geral de Perícias (IGP) registrou 17 suicídios em Blumenau. O número equivale a 70% dos casos registrados em 12 cidades atendidas pelo IGP. Pomerode, que no senso comum é sempre relacionada ao tema, não teve nenhum nesse período.

Redes sociais

Para Zita Darugna, voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV) de Blumenau, é importante que se fale sobre o tema como forma de prevenção, mas não da maneira como ocorre em grupos de WhatsApp, expondo vítimas, famílias e a maneira como a morte ocorreu. Neste caso, a visibilidade pode ser nociva.

“Descrever o caso pode encorajar alguém que está passando pelo sofrimento a fazer igual”, alerta.

A psicóloga Caroline Busarello Bruning explica que muitas pessoas têm uma “curiosidade  da morbidez” e que essa atitude pode trazer sensações ruins aos familiares que acabaram de perder alguém.

“Se eu ficar sendo lembrando nas redes sociais da pessoa que eu perdi pode incitar uma série de emoções que já estão descontroladas e que podem piorar. Porque o tempo todo você estará sendo lembrado do que perdeu, do que as pessoas acham. Especialmente situações complicadas, quando as pessoas querem apontar culpados. A rede social tem esse poder de ficar te cutucando”, exemplifica.

A depressão, apesar de ser uma das principais causas de suicídio, não é a única. Em Blumenau, há também casos relacionados ao consumo de álcool, de drogas e a transtornos diagnosticados como bipolaridade.

“O suicídio é uma solução permanente para um problema temporário, mas a pessoa imagina aquilo como um botão de reset. No fundo, a pessoa só queria que existisse outra saída para evitar o processo de lidar com algumas coisas”, detalha Caroline.

Principal causa de morte violenta

Dentre as chamadas “causas externas”, o suicídio é a segunda que mais mata blumenauenses, atrás dos acidentes de trânsito. Porém, supera crimes como homicídio e latrocínio.

Enquanto em 2018 o município registrou 19 homicídios, foram 44 casos de suicídio notificados pela Diretoria de Vigilância Epidemiológica.

Para a coordenadora do Serviço de Avaliação em Saúde Mental do município, Luciana da Silva, a primeira atitude de quem percebe que não está bem deve ser pedir ajuda aos familiares. Ou buscar atendimento na rede de saúde.

No ano passado, Blumenau foi uma das primeiras cidades a lançar um protocolo de prevenção ao suicídio após o aumento nos casos na cidade. O programa visa a capacitar profissionais e oferecer um tratamento eficaz.

“Pensar em morrer é normal, pensar em como fazer isso é que é anormal”, alerta Zita, a voluntária do CVV.

Homens são maioria

Dos 185 moradores de Blumenau que cometeram suicídio entre 2014 e 2018, segundo dados da Vigilância Epidemiológica, 136 (o equivalente a 73%) eram homens. De acordo com a psicóloga Caroline Busarello Bruning, este é um fenômeno mundial.

“É uma questão cultural. De forma geral, os homens procuram menos serviços de saúde. Eles resistem a mostrar vulnerabilidade, pois são educados desde pequenos a não chorar e serem rochas diante das coisas. Se não em casa, os amigos causam essa pressão de que eles não pode ser fracos, sensíveis. Então o homem geralmente não fala”, exemplifica.

Segundo a especialista, os homens também tendem a ser mais impulsivos. Eles também costumam optar por métodos mais violentos quando decidem tirar a própria vida. Enquanto isso, as mulheres possuem um número maior de diagnósticos de depressão e cometem mais tentativas de suicídio do que eles.

“Mas é importante lembrar que o suicídio tem causas multifatoriais, muito complexas, delicadas e específicas. Não dá pra dizer que uma coisa leva a pessoa a fazer isso”, destaca a psicóloga.

Observe os sinais

Segundo especialistas, pessoas que estão sofrendo transmitem sinais antes de uma atitude extrema. Confira:

– Há uma mudança brusca de comportamento, a pessoa se isola e deixa de interagir com familiares, amigos e colegas de trabalho.

– Elas começam a pesquisar formas de suicídio.

– Abandonam atividades de lazer sem substituí-las por outras.

– Falam que cometerão suicídio claramente ou dão a entender, com frases como “eu sou um incômodo para os outros”, “as pessoas ficariam melhor sem mim”, etc.

– No caso de crianças, perdem rendimento escolar.

Onde pedir ajuda

Serviços de saúde do município, como o Centro de Atenção Psicossocial (Caps), oferecem atendimento gratuito à população com base nas recomendações da Câmara Técnica de Prevenção ao Suicídio. Crianças e adolescentes devem buscar o CAPSi e pessoas com dependência de álcool ou outras drogas podem procurar o CapsAD.

CAPSi
Rua Alfredo Gunther, 73 – Vila Nova
89012-560 Blumenau – SC
e-mail: capi@blumenau.scgov.br
Tel.: (47) 3381.7393

CAPS II
Rua Jean R. Bonnemasou, 720 – Jardim Blumenau
89010-370 Blumenau – SC
e-mail: caps@blumenau.sc.gov.br
Tel.: (47) 3381.6906

CAPS AD
Rua Hermann Hering, 766 – Bom Retiro
89010-600 Blumenau – SC
capsad@blumenau.sc.gov.br
Tel.: (47) 3381.6888

Postos de saúde e Furb

Na dúvida, busque informação nos postos de saúde sobre a alternativa mais próxima da sua casa. Eles podem encaminhá-lo a um serviço prestado pelo município ou ao atendimento fornecido na Policlínica Universitária da Furb, na Fortaleza Alta. Porém, os casos encaminhados aos universitários não envolvem suicídio.

Estudantes da Furb interessados no atendimento, que é feito por acadêmicos do curso de Psicologia, supervisionados por profissionais da área, devem ir até a Coordenadoria de Assuntos Estudantis.

Contato
Campus 1 – Sala A-101
47 3321-0309

CVV

Outra alternativa é o Centro de Valorização da Vida (CVV). Pelo telefone 188, voluntários auxiliam quem precisa de apoio emocional e trabalham ativamente na prevenção do suicídio.

O atendimento é 24 horas por meio de chat, Skype ou e-mail. No site do CVV você encontra todas as opções gratuitas de contato.

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“Desrespeito e crueldade via WhatsApp anulam critérios jornalísticos em caso de suicídio”

Correção

Até às 10h15 desta quinta-feira, 27, a reportagem afirmava que a Secretaria de Defesa do Cidadão possuía grupos de apoio para prevenção ao suicídio. Entretanto, a secretaria apenas é responsável pela Câmara Técnica de Prevenção. A informação equivocada havia sido repassada pela coordenadoria do Serviço de Avaliação em Saúde Mental.

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