Trabalhadores do futebol: longe do glamour, profissionais falam sobre os desafios para trabalhar com o que amam em Blumenau

Estudos apontam que mais da metade dos atletas no Brasil recebe até um salário mínimo

Trabalhadores do futebol: longe do glamour, profissionais falam sobre os desafios para trabalhar com o que amam em Blumenau

Estudos apontam que mais da metade dos atletas no Brasil recebe até um salário mínimo

Jotaan Silva

Ser jogador de futebol já foi o sonho de muita gente quando criança. Muito pelo que se via pela televisão – atualmente também pela internet – e pelos ídolos que alcançam sucesso e riqueza com a profissão. Até por conta disso, existe a ilusão de que o glamour dos atletas de grandes clubes é o que resume o trabalhador do futebol.

Porém, pesquisas mostram totalmente o contrário. O futebol é, no Brasil, um emprego desigual e de muitas dificuldades. Um estudo encomendado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e realizado pela Ernst & Young em 2019, apontou que 55% dos atletas registrados no país naquele ano recebiam até R$ 1 mil – salário mínimo na época era de R$ 998.

O estudo levantou que o país possuía mais de 88 mil atletas profissionais, mas que apenas 11,6 mil possuíam contratos ativos, ou seja, estavam trabalhando. Os demais estavam sem clubes, à procura de oportunidades.

Faixa salarial dos jogadores de futebol no Brasil em 2019:

55% – Até R$ 1 mil

33% – De R$ 1.001 a R$ 5.000

5% – De R$ 5.001 a R$ 10.000

4% – De R$ 10.001 e R$ 50.000

1% – De R$ 50.001 a R$ 100.000

1% – De R$ 100.001 a R$ 200.000

1% – De R$ 200.001 a R$ 500.000

0,1% – Acima de R$ 500 mil

Além de nem sempre conquistarem uma garantia financeira enquanto atletas, a carreira do jogador de futebol também é curta. Em sua maioria, os atletas iniciam por volta dos 20 anos e encerram entre os 35 e 40 anos, tendo que a partir dali iniciar uma nova carreira profissional, seja dentro, ou fora do esporte.

Amor pela profissão

É nessa realidade do futebol que a grande maioria dos atletas vive e resiste. O motivo é, para maioria, o amor pela profissão. Abner Lincohn Araújo da Silva é um exemplo desses trabalhadores da bola.

Com 26 anos, ele chegou em 2022 ao Metropolitano, de Blumenau, o 16º clube na carreira. Natural de Santa Catarina, ele já atuou por diversas equipes catarinenses, além de times de outros seis estados diferentes (MT, MG, RN, MS, AM, BA). 

“A gente sabe qual é o dia a dia do futebol. A realidade é totalmente oposta do que o pessoal desenha. Muita gente acha que é o que aparece na televisão e muitas vezes não é. Muitas vezes temos que passar por várias dificuldades, estar três meses aqui, três meses em outro lugar, sempre distante da família, dos amigos, e sem nenhuma garantia, mas sempre buscando chegar no sucesso”, relatou o atleta.

Abner é um dos jogadores nômades, que vivem viajando o Brasil abraçando oportunidades. Foto: Arquivo Pessoal

Mas a vida “nômade”, circulando por clubes considerados pequenos a nível nacional não fizeram Abner desistir. O jogador relata que mesmo diante de todas as dificuldades que já passou como profissional do futebol, ele se orgulha de ser um dos poucos sonhadores que conseguem viver daquilo que amam.

“Sou muito feliz fazendo o que eu gosto, que é jogar futebol. Isso é o que me deixa feliz, isso que me dá prazer. Até aqui me sinto vitorioso por ter insistido, e por conquistar minhas oportunidades”, conclui o atacante.  

Companheiro de Abner há uma semana, outro atleta do Metropolitano nesta temporada é Ronieri da Silva Pinto, o Ronny, de 30 anos. O jogador também já passou por diversos clubes pelo mundo – são 17 no total, sendo 16 no Brasil e um na Holanda.

Ronny já atuou por 17 clubes na carreira. Foto: Arquivo pessoal

Diferente do colega de clube, Ronny já viveu os dois lados do futebol: os dos times grandes e dos pequenos. No início da carreira atuou na primeira e segunda divisão do futebol nacional, sendo destaques de clubes como Criciúma e Figueirense, além de vestir as camisas de Botafogo e Palmeiras – dois dos maiores clubes do país.

Por outro lado, também já vestiu a camisa de diversos times pequenos. Em 2020, o atacante jogou a terceira divisão do Campeonato Catarinense, sendo campeão da competição pelo Atlético Catarinense.

“Não é fácil. Às vezes o cara está lá em cima, tem uma vida diferente, vê as coisas com outros olhos. Mas depois acaba regredindo na vida profissional e vê que as coisas não são tão fáceis pra quem vive o futebol da realidade, que não é o daqueles 2% que se garantem pro restante da vida, por exemplo”, relata o jogador.

Ronny se destacou pelo Figueirense, antes de ser contratado pelo Palmeiras. Foto: Petra Mafalda /Agência Estado

Mas as dificuldades dos profissionais do futebol não existem apenas nos clubes pequenos. Mesmo aqueles que alcançam o auge e chegam em times de maior expressão, os desafios são muitos, sejam eles financeiros, de pressão ou familiares.

“Tu chega em clubes considerados grandes do Brasil e fica sem receber seis, sete meses, e isso desanima. Fica longe dos amigos, da família, dos filhos. E ao mesmo tempo tem os torcedores dizendo que você só tem que receber quando o time ganhar, falando isso e aquilo, é uma vida bastante dificil”.

Mas assim como Abner, Ronny também é persistente. Para ele, as dificuldades o fizeram crescer e o levaram a lugares que ele não chegaria. Tudo, devido ao amor pela profissão que possui.

“É mais do que meu trabalho, é o que amo fazer. Não consigo me imaginar vivendo de outra coisa. Quando me aposentar, provavelmente vou buscar algo dentro do futebol, porque é o que sei fazer”, conclui.


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