O transporte público de Blumenau termina o ano de 2021 sendo contestado em diferentes instâncias. Alvo de uma CPI e de uma investigação do Ministério Público, o contrato da Blumob com a prefeitura também é debatido pela população.

Seja por aqueles que pagam R$ 4,50 a cada viagem e reclamam da qualidade do serviço, seja por aqueles que não concordam com os aportes públicos para o serviço. Mas o que aconteceu com o serviço que, no seu auge, em 2001, chegou a transportar 41,14 milhões de usuários por ano, cerca de 113 mil passageiros por dia?

Como chegamos até aqui? Leia, nesta segunda parte do especial “Transporte Público Collab”, o que aconteceu com o Consórcio Siga e as escolhas feitas pela cidade desde então.

Reportagem: Giulia Godri Machado e Pedro Machado

De referência a modelo em xeque: as idas e vindas do transporte de Blumenau
No início da década de 2000, a prefeitura de Blumenau chegou a apresentar em uma conferência sobre mobilidade urbana, na Espanha, o modelo do transporte coletivo implementado na cidade.

O estudo de caso levado a um evento internacional era uma chancela a um sistema integrado, bem avaliado pelos usuários e que chamava a atenção até mesmo de outros países – comitivas da Colômbia e do México chegaram a vir conhecer de perto detalhes da operação e da gestão do transporte público de Blumenau.

Duas décadas se passaram e os ônibus foram relegados a segundo plano pelo blumenauense. Em 2001, o então Serviço Autônomo Municipal de Trânsito e Transportes (Seterb), autarquia que mais tarde foi transformada em secretaria, registrava recorde de usuários no transporte coletivo: 41,14 milhões em um ano, uma média de 112,7 mil por dia. Atualmente, ainda em meio à pandemia de Covid-19, esse volume chega próximo à metade disso (61 mil usuários por dia), mesmo com um crescimento populacional de 37% nesse período.

O modelo que hoje está em xeque foi se desgastando ao longo do tempo. Anos de estímulo – e crédito farto – à compra de automóveis e motocicletas tornaram o veículo próprio mais acessível e os coletivos menos atrativos. Em 2001, existiam 99 mil veículos na cidade, enquanto em 2021 já são mais de 272 mil. Em 20 anos, a proporção passou de um carro para cada 2,7 habitantes para 1,3 a cada morador.

Mais recentemente, a invasão de aplicativos de transporte individual deu novo golpe no transporte coletivo. Restrições impostas pela crise sanitária e a profusão do home office, que dispensou muitos trabalhadores de andar de ônibus, acabaram agravando uma realidade que já estava dada.

“O que percebemos em todo o mundo é que há uma redução de pessoas que usam o transporte coletivo. E isso acontece por várias razões: ou as pessoas trabalham mais perto, ou estão em home office, ou usam os aplicativos de transporte”, avalia Heinrich Pasold, diretor-geral da Agência Intermunicipal de Regulação do Médio Vale do Itajaí (Agir), órgão que atua na fiscalização do atual contrato de concessão.

Uma análise dos últimos dois editais lançados em Blumenau para contratar o responsável pelo serviço revela um encolhimento do sistema. Na concessão de 2007, vencida pelo Consórcio Siga – formado pelas empresas Nossa Senhora da Glória, Rodovel e Verde Vale, que já atuavam na cidade, mas de forma autônoma -, a licitação exigia uma frota de 258 carros para operação de 93 linhas. Esses números caíram para 246 veículos e 89 linhas no processo licitatório que foi ao mercado em 2016.

A disputa daquele ano acabou com vitória da Viação Piracicabana, já conhecida dos blumenauenses por cumprir um contrato emergencial após a era Siga. A empresa, a única a apresentar proposta na concorrência, criou uma sociedade de propósito específico (SPE) para tocar o negócio. Deu a ela o nome de Blumob.