É difícil fazer parte da cena do karatê em Blumenau sem conhecer Vanderlei Machado de Oliveira. Professor e técnico do esporte, o gaúcho chegou na cidade aos 10 anos e, sem planejar, ajudou a transformar a modalidade na região.

Hoje, aos 49 anos, o faixa preta é professor de karatê, técnico da Seleção Catarinense, coordenador técnico da Seleção Brasileira e, para completar, um dos poucos credenciados pela World Karate Federation no país.

Vanderlei com o troféu do Pan-Americano de 2018, no Rio de Janeiro. Foto: Arquivo pessoal

Porém, o currículo extenso nunca foi um plano. Pelo menos não no esporte. O karatê entrou na vida de Vanderlei relativamente tarde, aos 21 anos. Na época, ele sugeriu ao pai que levasse o irmão de 10 anos às aulas, para que ele treinasse defesa.

A recomendação do pai foi de que ele começasse também. Na época, o jovem estudava Administração na Furb e trabalhava no Banco Real. No intervalo do almoço, ele comprou o kimono e se inscreveu para a primeira aula, que realizou no mesmo dia.

“Sempre fui muito determinado, mas meu intuito era apenas aprender auto defesa. Nem sabia que existiam competições. Depois de dois anos comecei a ver o pessoal participando, mas nem tinha vontade”, conta.

Convidado pelo professor, o faixa verde ingressou no mundo das competições. Em pouco tempo, já era titular da equipe e foi vice campeão. Ainda atleta, Vanderlei começou a dar aulas em 1998.

Inicialmente, ele atuava na Associação de Moradores de São Bernardo, na Itoupava Noite. Na mesma época, começou a dar aulas na escola Francisco Lanser. Dois anos depois, começou a atuar no Clube Ipiranga, onde está ate hoje.

Com o início da carreira como professor, Vanderlei passou a atuar com a iniciação esportiva da prefeitura. Na época, ele dava aulas no antigo Ginásio Linguição, espaço atualmente ocupado pela Fundação Pró-Família, aos fundos do Galegão.

Foi neste espaço que duas jovens irmãs chegaram para participar das aulas de capoeira. Porém, elas erraram a sala e acabaram indo parar no karatê. Hoje, uma delas é esposa de Vanderlei. “E elas gostaram. Destino é uma coisa que não podemos explicar”.

O casal acabou se aproximando por conta do esporte. Maike também é uma atleta renomada. Além de campeã brasileira, dá aulas no Clube Ipiranga e nas escolas Sagrada Família e Princesa Isabel.

Vanderlei e a esposa Maike com o filho Lucas, três apaixonados pela arte marcial. Foto: Arquivo pessoal

Da união nasceu o filho, Eduardo, hoje com 12 anos. Como é de se imaginar, também campeão brasileiro. O pequeno também se dedica ao futebol, a segunda paixão dele.

“Sempre tomamos muito cuidado para não exagerarmos nas sessões de treino. Buscamos o equilíbrio, para que ele não precise respirar karatê 24h dentro de casa. Mas ele gosta muito”, conta o pai orgulhoso.

Apesar de ter saído do banco e passado a dar aulas ainda jovem, Vanderlei demorou para enxergar a habilidade como técnico. Diferente de dar aulas, ele precisaria preparar os jovens para competições e acompanhá-los nos eventos.

Renato Aoki/Arquivo pessoal

A decisão surgiu após ele colocar a carreira como atleta na balança. Por conta da idade, ele teria apenas mais três anos como esportista. Foi quando decidiu seguir o caminho mais natural e assumiu o posto de técnico da equipe feminina de Blumenau.

Foi em 2008 que ele começou a ingressar como técnico da Seleção Brasileira. Em 2015, ele integrou a comissão técnica, com 15 profissionais. Com a reestruturação, apenas quatro coordenadores permaneceram.

“Eu sou um deles. Hoje respondo pela categoria Feminina de Base até 18 anos e pelo Kata Geral [modalidade do karatê]. Nessa brincadeira são mais de 24 países viajados e uma experiência bem bacana”, relata.

Mirando os campeonatos mundiais, ele conquistou o credenciamento da World Karate Federation. Segundo ele, o Brasil possui cerca de dez técnicos credenciados. O título também garantiu ao blumenauense uma participação no Globo Esporte.

Vanderlei foi técnico de Diego San durante série gravada para Globo Esporte. Foto: Arquivo pessoal

“O Diego San entrou pra Seleção Brasileira e fui técnico para ele em alguns eventos. Teve até um episódio em que fui bem honesto e falei que ele precisava se preparar mais. Mas nas lutas seguintes ele ganhou de um campeão mundial francês e melhorou muito”, lembra.

Em poucos anos, Vanderlei passou de um estudante de Administração e funcionário de banco que jogava futebol com os amigos para um carateca campeão. “Foi tudo natural, o diferencial foi eu ter me apaixonado pela arte e junto a isso ser determinado. Não queria perder nas competições, treinava demais”.

Em sua carreira como atleta, Vanderlei foi o primeiro blumenauense a ser tetracampeão dos Jogos Abertos. Também foi o primeiro adulto da cidade a ser vice campeão brasileiro. Mas para ele, nada se compara ao espaço que o karatê alcançou.

“Ver tantos alunos se formando, estudando, com boa conduta. Se tornando professores capacitados e de boa índole. Hoje somos uma modalidade muito forte. Apenas no ano passado tivemos alunos na Croácia e no México, além das várias viagens que fiz pela Seleção”, conta.

Arquivo pessoal

Apenas em Blumenau, são mais de mil alunos, divididos entre seis professores. O karatê está presente em mais de 20 bairros da cidade. “Claro que nunca dá para comprar com o futebol, mas estamos forte e temos tudo que precisamos”, brinca Vanderlei.

Apesar de inúmeras conquistas mundiais, em Pan-Americanos e Sul-Americano, Vanderlei não esconde: “os Jogos Abertos têm um apelo sentimental diferente. Tivemos conquistas maravilhosas”.

Hoje, Vanderlei olha para sua trajetória no esporte com carinho. Algo que começou como um conselho para o irmão, moldou toda a vida dele e de sua família. E a de centenas de blumenauenses que passaram pelos seus treinos.

“Eu não posso dizer que sempre sonhei nisso. Nem pensava nisso. Eu nem me considerava uma pessoa com boa comunicação ou boa com crianças antes de começar a dar aula. Mas você vai gostando e se encaixando. Eu me encontrei”, comemora.

Arquivo pessoal

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