Apagão de mão de obra: como Blumenau criou estratégias para superar falta de profissionais em tecnologia

Projetos idealizados na cidade já são referência em Santa Catarina, que busca espalhar ideias em todos os municípios

Apagão de mão de obra: como Blumenau criou estratégias para superar falta de profissionais em tecnologia

Projetos idealizados na cidade já são referência em Santa Catarina, que busca espalhar ideias em todos os municípios

Alice Kienen

Não é preciso ser matemático para perceber que o avanço da tecnologia acontece muito mais rápido do que a formação de novos trabalhadores para a área. Apenas em Santa Catarina, mais de 8 mil profissionais serão necessários neste ano. O levantamento da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate) comprova o que todos os especialistas alertam: é impossível suprir a demanda.

Blumenau está passando pela transformação de um polo têxtil para um polo tecnológico. Apenas no município, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Empreendedorismo calcula que a demanda anual é de 2 mil profissionais nas empresas de tecnologia, em especial desenvolvedores e programadores

Ainda segundo o levantamento da Acate, mais de 86 mil pessoas trabalham na área em Santa Catarina. No estado, mais de 24 mil empresas atuam com tecnologia. Com isso, o setor corresponde a 7% do Produto Interno Bruto (PIB) catarinense. 

Entretanto, alguns números são difíceis de mensurar. Especialmente após a pandemia de Covid-19, quando muitos desenvolvedores da região passaram a trabalhar para empresas de outros estados ou países sem sair de casa.

Mas afinal, o que mudou nos últimos anos e como as empresas estão lidando com a crescente falta de colaboradores? O Município Blumenau conversou com diversos especialistas da área para entender este cenário. 

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Um consenso entre todos os profissionais da área é que a pandemia de Covid-19 alavancou o desenvolvimento e evolução de inúmeros processos da área da tecnologia. É evidente que todas as áreas foram atingidas. Porém, para estas empresas a aceleração transformou o trabalho para sempre.

A maioria dos setores precisou recorrer a novas tecnologias para manter o funcionamento. Inclusive contratando profissionais de tecnologia para a própria equipe. Em 2021, o jornal O Município Blumenau mostrou como esta adaptação foi vital em diferentes áreas.

Para dar conta da demanda crescente, empresas de tecnologia precisaram investir em ainda mais funcionários. “A pandemia foi o estopim para o que falávamos há muitos anos, que seria este apagão de mão de obra. Esta falta de profissionais. Além disso, as universidades já vinham registrando uma queda de alunos inscritos na área”, alerta Marcio Elias Gonçalves, presidente do Seprosc, sindicato patronal da categoria.

O home office já era realidade para alguns profissionais, mas ele se tornou quase regra na área da tecnologia após a pandemia. Dessa forma, quem tinha interesse em trabalhar para empresas fora do estado ou do país percebeu que poderia fazer isso sem sair de casa.

“Se por um lado a pandemia revolucionou e atualizou as demandas das empresas, ela também possibilitou que as empresas de tecnologias focassem no home office. E com isso falta ainda mais mão de obra, já que seu endereço não determina mais para quem você trabalha”, explicou Nayara Tomio Sestrem, coordenadora do programa Entra21.

Isso ainda fez com que algo comum à categoria, como as pesquisas de salário, precisassem ser completamente transformadas. Afinal, o mundo todo se tornou uma possibilidade de emprego para um desenvolvedor de Blumenau.

“Há cinco anos já achava que não dava mais para fazer pesquisa salarial regional. Com a pandemia, essa fronteira oficialmente não existe mais. Em São Paulo, onde o custo de vida é maior, os salários dobram. E com dólar e euro não tem como competir”, explica Fabio Jascone, diretor da unidade brasileira da Mindera.

A empresa portuguesa veio para Blumenau durante a pandemia já focada no home office. Com dois funcionários presenciais, os outros 30 não saem de casa. O grande desafio da empresa europeia, entretanto, é encontrar profissionais fluentes em inglês.

Mindera iniciou operações em Blumenau já investindo no home office. | Foto: Arquivo pessoal

“Por isso estamos patrocinando programas de formação. A grande dificuldade que encontro hoje em Blumenau é o inglês. Quem mora aqui e está com um nível bom do idioma, trabalha para fora do Brasil”, comenta Fabio.

Com mais de 15 anos de história, Blumenau tem um dos programas de formação de desenvolvedores mais reconhecidos do estado: o Entra21. Iniciativa do Polo Tecnológico de Informação e Comunicação da Região de Blumenau (Blusoft) com o apoio da Prefeitura de Blumenau, neste ano ele se espalhou por Santa Catarina e deve formar 6 mil novos profissionais.

Além de aulas gratuitas, o programa conecta os estudantes com empresas para que eles ingressem no mercado de trabalho. Com um investimento estadual de R$ 2 milhões, ele é apenas uma das portas de entrada para o mercado.

Focado em moradores da cidade, o +Devs2Blu (Mais Desenvolvedores para Blumenau) foi lançado no ano passado. Também em uma parceria entre Blusoft e a prefeitura. Com uma turma inicial de 25 alunos, a proposta é seguir o caminho de expansão do Entra21.

A nível estadual, o Sindicato das Empresas de Informática, Processamentos de Dados e Tecnologia da Informação do Estado de Santa Catarina (Seprosc) oferece o Jovem Programador em parceria com o Senac.

Entretanto, mesmo com tantos programas públicos atuando em Blumenau e região, ainda segue impossível suprir a demanda das empresas de tecnologia. É por isso que muitas delas criaram treinamentos internos, que contam com remuneração e contratação ao fim do curso. 

A atitude foi reforçada durante a pandemia, quando as empresas se depararam com um aumento de demanda enquanto muitos funcionários migravam para empresas fora do Brasil.

Ainda assim, o movimento nunca dá conta das demandas, especialmente porque forma mão de obra de base. “Nós formamos muitos desenvolvedores que dependem de empresas locais para se desenvolver. Porém, quando se tornam plenos e têm outro idioma fluente, eles podem trabalhar para todo o mundo”, explica Ivo Dickmann Junior, executivo da Blusoft.

Uma questão apontada pelos especialistas são as particularidades da área da tecnologia. Especialmente entre profissionais que já estão consolidados na área. Apesar de que muitos entram na carreira pensando no salário, outros pontos influenciam decisões com o passar do tempo e o desenvolvimento profissional.

“Um desenvolvedor júnior estará focado em melhorar a qualidade de vida dele e da família. Mas, após conquistar isso, a preocupação passa a ser com o ecossistema todo. Você vê profissionais saindo de grandes empresas para buscar startups que ainda estão crescendo pois sabem que lá não serão mais um. Podem ser as pessoas que farão a diferença”, explica Ivo.

O executivo ressalta o quão comum é encontrar diretores de empresas de tecnologia se reunindo no Centro de Inovação Blumenau (CIB) para trocar experiências e buscar soluções para problemas que estão enfrentando. “Acho fantástico essa sinergia do setor”, complementa. 

A Coordenadora do Entra21, Nayara Tomio Sestrem, enfatiza que essa mentalidade vinda dos desenvolvedores é o que muitas vezes leva profissionais mais experientes a buscarem empregos fora do Brasil. Ou, até mesmo, abrirem a própria empresa.

“Muitas pessoas estão há anos no mesmo lugar e abrem mão do salário e do conforto para montar uma startup, simplesmente porque querem o desafio. O profissional quer olhar para algo e poder sentir que foi ele quem fez aquilo. Muitas empresas não propiciam isso. Faltam programas para desafiar os funcionários com projetos de desenvolvimento pessoal”, opina.

Maiquel De Luca Rochi, gerente de desenvolvimento na Senior Sistemas, reverbera a importância do desafio. “O líder precisa estar muito próximo das pessoas para entender as necessidades delas. Garantindo que elas continuem tendo esse reconhecimento e norteando a carreira delas. Oportunizar que essas pessoas sejam direcionadas para os desejos que elas têm”, complementa.

Diogo Floriano, de 28 anos, ressalta que não é raro para um desenvolvedor da região receber propostas de empresas de fora do estado ou até do Brasil. Entretanto, após ter passado por três grandes empresas de Blumenau, ele segue tomando a decisão de permanecer na cidade.

“Já tive muitas oportunidades mesmo estando no Brasil. Inclusive de big techs como Amazon e Google. Como tenho meu currículo sempre atualizado no LinkedIn e a área é muito aquecida, nunca precisei ir atrás de vagas”, comenta.

Diogo palestrando durante The Developers Conference, maior evento de desenvolvedores da América Latina | Foto: Arquivo pessoal

Atualmente Tech Lead de Inovação na Ambev Tech, o morador de Blumenau valoriza o contato próximo com os colegas. Mesmo trabalhando de casa durante a maior parte do tempo, poder estar presente na empresa é um ponto importante para ele.

“Para mim isso estreita os laços com o time. Gosto dessa sensação de pertencimento maior. Consigo performar melhor com esse sentimento mais aflorado. Me sinto melhor assim do que totalmente distante das pessoas remotamente”, ressalta.

Outras questões valorizadas para o desenvolvedor são a proximidade com a família, o contato direto com a cultura com a qual cresceu e a sensação de segurança da região. Entretanto, ele acredita que pessoas menos apegadas a esses pontos podem encontrar melhores oportunidades “lá fora”.

Diogo também reverbera o levantado por outros líderes: a demanda por mão de obra sênior na região é gritante. Para ele, as empresas da região ainda estão lutando para aceitar a realidade pós-pandemia. Por isso, podem perder mão de obra qualificada por falta de valorização dos profissionais.

Thiago Negri, 32, iniciou na programação ainda na infância. Filho de programador, ele esteve inserido no meio desde pequeno. Logo no início da graduação participou de um treinamento interno em Blumenau. No fim, foi contratado pela T-Systems.

O fato de a multinacional não ter sede em Blumenau foi um dos motivos que o levou a buscar outras oportunidades. “Fiquei quase três anos trabalhando lá, mas via que meu crescimento era limitado porque vinham poucos projetos para cá”, explica.

Em seguida passou sete anos na Senior, onde considera que teve um crescimento profissional gigante. Thiago começou como desenvolvedor e progrediu até se tornar arquiteto de software. Porém, cansado do deslocamento diário até a empresa, abriu mão do emprego.

“Minha companheira tinha acabado de engravidar. Eu queria ficar em casa para acompanhar a gestação e a criação das minhas filhas. De início fiquei preocupado com a falta de interação social. Trabalhando remoto é difícil criar laços, mas o resto compensa. Com menos interrupções você também foca mais no trabalho”, pondera.

Thiago escolheu morar em Indaial para ficar próximo da família. Por ser uma cidade menor e sem oportunidades de carreira, o home office se tornou a melhor opção. De início as oportunidades dependiam de viagens para outros países, mas em meados de 2016 ele passou a trabalhar para uma empresa estadunidense, a Spins.

Após dois anos, uma mudança na direção o levou a buscar outras opções e ele acabou focando na Toptal, empresa que conecta desenvolvedores freelancers a empresas. Desde então, há quatro anos, Thiago trabalha para a estadunidense BabyCenter sem precisar sair de casa.

Atualmente Thiago até consideraria trabalhar de forma híbrida, precisando ir até a empresa apenas alguns poucos dias na semana. Entretanto, acredita ser impossível encontrar o mesmo salário e benefícios que recebe atualmente trabalhando na região.

Para Ivo Dickmann Junior, o ponto de virada no estado foi o investimento em centros de inovação. Santa Catarina inaugurou o primeiro em 2016, em Lages. Já o Centro de Inovação Blumenau foi entregue à comunidade em dezembro de 2020.

“Quando trabalhava na Secretaria da Fazenda fiz vários cálculos que mostravam que cada real que a prefeitura investe em um programa educacional, retorna R$ 9 em cinco anos com ISS [Imposto Sobre Serviços], que representa apenas 2% da arrecadação da empresa. Isso sem falar no ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] que virá do gasto do salário destes funcionários”, aponta o diretor da Blusoft. 

Alice Kienen/O Município Blumenau

Com o sucesso do CIB – acompanhado de uma longa fila de espera de novas empresas – o plano é construir um novo centro de inovação na cidade em breve. Desta vez, com investimento da iniciativa privada. Um espaço na rua Itajaí já está fazendo parte de um esboço de projeto. Entretanto, a ideia ainda está em fases iniciais.

“O que faria uma big tech construir um prédio na nossa região seriam impostos reduzidos, poder construir onde quiser e mão de obra. Um exemplo é a Serasa Experian, que atualmente é um dos maiores arrecadadores de ISS do município e veio para cá por causa do Entra21”, defende Dickmann Junior.

Charles Schwanke, diretor de Desenvolvimento Econômico e Inovação e secretário interino da pasta ressalta os investimentos do município no empreendedorismo, turismo e formação, que incentivam o desenvolvimento tecnológico e a qualidade de vida na região.

Entretanto, para Dickmann, o grande plano é espalhar as iniciativas pela região. Afinal, não basta investir apenas em Blumenau. O polo tecnológico deve ocupar o Vale Europeu inteiro. “Temos um DNA de um povo trabalhador, criativo, que cumpre prazos. A partir do momento em que os prefeitos investirem em educação tecnológica, mais empresas virão para cá”, calcula.

O diretor Fabio Jascone comenta que faltam eventos e iniciativas que fomentem o ecossistema tecnológico na cidade, como existem em grandes capitais. “Falta incentivo para os profissionais perceberem que precisam sair da mesa deles e adquirir novos conhecimentos”, defende.

Udo Schroeder, presidente do CIB, ressalta ainda a importância em investir na educação fundamental. Para ele, as noções tecnológicas devem ser implantadas cedo para que os jovens consigam se desenvolver na carreira.

“Como a escola tradicional não consegue formar, as empresas têm que correr atrás. Assumem papéis que não deveriam ser deles, mas do estado. Este custo volta para o empresário, mas felizmente estão conseguindo fazer isso bem. Talvez não no ritmo que gostaríamos. Mas agora o governo estadual e municipal está começando a acordar para isso”, enfatiza.


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