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EXCLUSIVO: Empresa Botmoney, de Blumenau, vira alvo da Justiça Federal após denúncias de golpe financeiro

Investigações paralelas estão sendo feitas em diferentes esferas

A Botmoney, empresa de tecnologia focada em investimentos, está sendo alvo de uma investigação por parte da Justiça Federal após dezenas de clientes denunciarem que não conseguem recuperar o dinheiro investido.

Fundada em Blumenau em 2018, desde novembro de 2021 a empresa não devolve o dinheiro que clientes investiram em bitcoin, segundo denúncias.

Para os denunciantes, o esquema seguiria o padrão de uma pirâmide financeira, já que os investidores eram sempre responsáveis por trazer novos clientes. A partir daí, eles se tornavam responsáveis por eles e passavam a ser considerados “gestores”.

O investimento em moedas digitais era feito no Forex, o maior mercado financeiro do mundo. O serviço de “trade automático” não conta com ação humana. Porém, apesar de o software da Botmoney se apresentar dessa forma para os clientes, não é o relato dado por funcionários de alto escalão da empresa.

“Eu confiei no cenário que o Uiliam [fundador] construiu. Eu lidei diretamente com bancos europeus, então eu sei que o sistema existia. Ele remetia o capital dos clientes para o exterior e colocava em um provedor de liquidez. Mas ele não passava o lucro completo, porque criptomoedas podem até dobrar em um dia. Ele determinava uma porcentagem que o robô distribuía entre os clientes. Porém, isso é comum em empresas do ramo”, explica.

Reprodução

Esse funcionário, que saiu da empresa também no prejuízo e preferiu não se identificar por questões de segurança, já havia sido convidado a trabalhar na Multiplus e na Select anteriormente. As empresas blumenauenses, que também são investigadas por supostos golpes milionários, são citadas por muitas vítimas que comparam os casos.

Uilian criou também uma holding de nome Atom para cuidar de seus negócios.

Investigações da Botmoney

Além da Justiça Federal, que recebeu material da Polícia Civil de Blumenau, o caso também foi levado para a esfera cível por alguns clientes. Somando os julgamentos já em andamento no Tribunal de Justiça, o valor ultrapassa R$ 750 mil. Outra ação, essa coletiva entre oito pessoas, busca recuperar os cerca de R$ 503 mil investidos. Entre eles está o empresário Thiago.

Em 2021, por indicação de um sobrinho, ele depositou R$ 55 mil na Botmoney e recuperou apenas R$ 5,5 mil. “Quando fui tentar sacar de novo, ninguém mais conseguia. Foi muito puxado perder esse dinheiro”, relata.

Em setembro de 2022, a 4ª Vara Cível da Comarca de Blumenau alegou não encontrar provas suficientes para uma tutela provisória de urgência cautelar – que consiste em reter bens do sócio da empresa antes da sentença propriamente dita.

A ação foi então levada ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina em novembro de 2022, mas ainda não recebeu uma decisão. A preocupação dos clientes é que, neste período de espera, as provas ou os envolvidos desapareçam.

“Um ano é um tempo irrelevante em termos de judiciário para um processo desses. Duram pelo menos quatro anos, às vezes até uma década. Mas não tenho dúvidas de que será possível provar a culpa da Botmoney”, opina o advogado Artêmio Picanço, especializado em combate a golpes financeiros, que atua no caso há um ano.

“Eu penso na minha família”

O publicitário Guilherme foi um dos que conseguiu recuperar todo o dinheiro investido. Após depositar R$ 15 mil, ele esperou o valor dobrar para sacar o montante e deixar o restante render. Esse lucro, porém, nunca foi recuperado.

“Alguns amigos próximos e familiares perceberam que funcionava e se inspiraram. Porém, nem todo mundo foi tão consciente quanto eu. Me sinto culpado por terem confiado em mim, mas eu conheci as pessoas envolvidas e construí uma confiança de anos”, conta.

Guilherme já chegou a realizar serviços para a Botmoney como publicitário e via o gestor lucrar com os investimentos. Conheceu funcionários e Uiliam, dono da empresa, antes de ter coragem de investir. “Nunca tinha dado problema, não tinha porque duvidar”, argumenta.

“O grande erro das pessoas foi aproveitar o crédito fácil que a região oferece para investir em criptomoedas. Soube de gente hipotecando a casa da mãe. Até meados de 2021 as pessoas recebiam lucro, mas criptomoeda não é fácil de rastrear. Ninguém suspeitava, será que ele era tão persuasivo que enganou todo mundo”, reflete o ex-funcionário da Botmoney, que também se culpa pelo valor perdido por familiares e amigos.

Contraponto

A reportagem conversou com Uilian Pereira Soares da Silva, fundador da Botmoney. Natural de Goiás, ele afirma ter conhecido Blumenau na internet e se mudou para cá em 2018. Como já tinha operações em trade como fonte de renda, logo amigos e conhecidos começaram a aproveitar a experiência de Uiliam para construir um modelo de negócio.

“A Botmoney é uma empresa que nasceu sem planejamento e formalidade. Aproveitei o CNPJ de uma imobiliária que tinha e sigo com o mesmo até hoje. Cresceu tanto que escapou pelos meus dedos e agora estou com a responsabilidade de resolver esse problema”, relata.

O dinheiro era depositado no CNPJ da Botmoney e investido por Uiliam. Ao perceber o crescimento da empresa, ele decidiu investir em um novo sistema. Porém, relata ter sido ludibriado pelos programadores, o que fez com que as contas ficassem inacessíveis por meio ano.

“Ficamos sem tecnologia e decidi trazer todos os CNPJs para São Paulo, para reestruturar a Botmoney. Nesse tempo os ativos ficaram sem liquidez, mas com a reestruturação os investimentos voltaram para a carteira dos clientes. Quem tem noção de criptomoedas, conseguiu liquidar. Hoje temos um novo site com cerca de 1,5 mil clientes”, afirma Uiliam.

Processos judiciais

Porém, segundo as vítimas, após esse período eles foram instruídos a mudar de moeda diversas vezes e as transações nunca geraram liquidez – ou seja, nunca tiveram lucro. Para eles, se tratou de uma medida para “despistar os rastros”.

Já Uiliam acha que ter menos de 20 processos com o número de clientes atendidos é pouco e acredita que eles estão certos de buscar a justiça se não estão satisfeitos com a explicação dada por ele. “Alguns eu mesmo instruí a entrar na Justiça”, afirma.

“Eu não incentivei ninguém a colocar dinheiro que não podia perder em um negócio que não conhecia. Se essa decisão acarretou em algum problema, eu tenho minha responsabilidade como diretor de dialogar e ele de lidar com as consequências da decisão. Se alguém fez vítimas não fui eu, foi alguém vendendo uma proposta diferente do que é a Botmoney”, argumenta.

Segundo ele, um dos maiores problemas foi de clientes repassando valores diretamente para gestores da empresa investirem ao invés de para o CNPJ. Com isso, não conheciam a tecnologia e não sabiam no que estavam investindo o dinheiro. 

“A Botmoney nunca foi pensada como uma empresa de investimento, e sim como uma startup de tecnologia que vende soluções para cada um operar seus ativos. Não temos responsabilidade pelas operações do clientes que geram prejuízo. Mas esse público não tinha conhecimento do mercado financeiro e virou um telefone sem fio”, argumenta.

Histórico

Em um processo tramitando em segredo no Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, Uiliam teve um mandado de prisão expedido em Goiânia, onde residia. Ao se mudar para Santa Catarina, ele acabou sendo preso em Itajaí. Entretanto, ele foi liberado em abril de 2021.

  •  O nome completo das vítimas não foi divulgado para proteger a identidade deles.

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