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“O eleitor resolveu fazer a sua própria reforma política”

Colunista analisa o comportamento do eleitor no primeiro turno

O recado das urnas

Já houve quem sustentasse que a voz do povo é a voz de Deus. A crítica que se faz a esse provérbio é a de que o efeito manada nem sempre pode ser considerado racional. Seja como for, o resultado de mais de 100 milhões de votos válidos não é desprezível e traduz, sim, o pensamento dos brasileiros sobre a política.

Uma primeira constatação que se pode fazer, e diferente do que se acreditava, é a de que o eleitor não se absteve. A quantidade de votos desperdiçados, vale dizer, de abstenções e de votos brancos e nulos, não explodiu. Pelo contrário, comparando-se o primeiro turno das eleições de 2014 (30%) e o primeiro turno destas eleições 2018 (29%) para presidente da República, houve até uma leve redução.

A pergunta que fica é: aonde foi parar toda aquela indignação dos brasileiros externada nas manifestações de junho de 2013, nas vaias à classe política na Copa da Fifa (2014) e nas Olimpíadas do Rio de Janeiro (2016), nos movimentos pelo impeachment em 2015 e nos panelaços que impedem todo e qualquer pronunciamento presidencial em rádio e televisão nesse país?

A resposta é: na rejeição a determinados partidos e a boa parte das candidaturas tradicionais. O altíssimo índice de renovação no Senado Federal, em que, de cada quatro senadores que tentaram a reeleição em 2018, três não conseguiram, assim o comprova.

O eleitor resolveu fazer a sua própria reforma (na) política. Se os partidos não conseguem fazer mea culpa, nem se autodepurar, esqueçam-se os partidos. O eleitor identificou pessoas e narrativas condizentes com suas angústias e anseios, e se livrou da velhas estruturas partidárias.

Pertencer ao MDB, PSDB ou PT já não é mais garantia de sucesso eleitoral. Por outro lado, alinhar-se ao discurso da antipolítica, ainda que pela via de um partido nanico, desconhecido e até então inexpressivo, revelou-se muito mais providencial e vitorioso.

Muitos do que agora deixam os seus mandatos tiveram a oportunidade de ouvir a voz das ruas e promover as reformas reclamadas, mas a cegueira, a prepotência, a desfaçatez e, em alguns casos, até mesmo a corrupção, lhes impediu.

Resta torcer para que o eleitor tenha acertado em suas escolhas, mesmo cientes de que o processo de depuração ainda consumirá algum tempo.

César Wolff escreve sempre às quintas-feiras.

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