Como a indústria blumenauense dribla falta de mão de obra investindo na tecnologia

Indústria é um dos setores que mais sofre com a falta de profissionais qualificados no mercado

Como a indústria blumenauense dribla falta de mão de obra investindo na tecnologia

Indústria é um dos setores que mais sofre com a falta de profissionais qualificados no mercado

Jotaan Silva

Enquanto o desemprego atinge mais de 10,6 milhões de brasileiros em 2022, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE), Santa Catarina enfrenta um problema quase inverso: o alto índice da falta de mão de obra qualificada. Devido a isto, é bastante comum perceber a migração de trabalhadores de outros estados para conseguir empregos no Sul do país.

Mesmo com esse forte movimento migratório, a conta segue sem fechar e muitas empresas sofrem com a falta de colaboradores. Um dos setores mais atingidos por este vácuo profissional é a indústria.

Indústria é uma das principais atividades econômicas de Santa Catarina | Foto: Jotaan Silva/O Município Blumenau

Segundo dados do Mapa do Trabalho Industrial 2022-2025, Santa Catarina terá que qualificar 802,9 mil pessoas em ocupações industriais até 2025. Deste número, 152,9 mil precisarão ser novos profissionais, enquanto outros 649,9 mil já estão na indústria e terão que se aperfeiçoar.

Os dados obtidos pelo estudo realizado pelo Observatório Nacional da Indústria e divulgado pela Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc) só corroboram o que as grandes indústrias em SC enfrentam todos os dias. É difícil procurar alguma empresa e não encontrar vagas em aberto.

 

O “apagão” de mão de obra na indústria tem diversos motivos. Desde o desinteresse nas funções mais braçais, até a desqualificação dos profissionais recém-formados, e passando também, principalmente, pela crise sanitária sem precedentes enfrentada em todo mundo na pandemia de Covid-19.

“Cinco em cada 10 indústrias brasileiras enfrentam carência de trabalhadores qualificados. Uma pesquisa da CNI mostrou que a má qualidade da educação básica é o principal obstáculo enfrentado pelas empresas que investem em ações de formação da mão-de-obra. O Brasil paga caro por ter focado em um ensino médio generalista voltado para o ingresso nos cursos superiores”, aponta Silvia de Pieri, gerente do Senai Blumenau.

Indústria catarinense sofre com a falta de mão de obra qualificada | Foto: Jotaan Silva/O Município Blumenau

A pesquisa da CNI, citada por Silvia, aponta que a cada 10 estudantes que concluem o ensino médio no Brasil, cerca de dois alcançam a educação superior. O restante, incluindo também os que abandonaram a escola, entram no mercado de trabalho despreparados e sem uma profissionalização.

Num olhar virado para a indústria, a situação parece ainda mais caótica se comparada a outros países industriais. No Brasil, apenas 9,7% das matrículas em ensino médio são em cursos de educação profissional. Na Alemanha, França, Dinamarca e Portugal, essa porcentagem alcança 40%. Na Áustria e Finlândia, números ainda maiores, chegando a 70%.

“Por isso a gente encontra a indústria do jeito que está. A pesquisa da CNI aponta que 96% das empresas relatam ter dificuldade em encontrar trabalhadores qualificados. Dessas, 90% comentam a dificuldade em encontrar em nível técnico e 97% avaliam que a falta desse trabalhador qualificado prejudica a empresa, na produtividade e qualidade dos produtos”, explica Silvia.

Os setores com maiores dificuldades são: biocombustíveis (70%), móveis (64%), vestuário (62%), produtos de borracha (62%), têxteis (60%) e máquinas e equipamentos (60%). As funções onde há maior falta de mão de obra qualificada são: operadores, técnicos de nível médio, vendas/marketing, administrativa, engenharia, gerência e pesquisa/desenvolvimento.

Para enfrentar o problema que ainda depende de mudanças, principalmente no setor educacional, a tecnologia tem sido a principal alternativa das indústrias. É cada dia mais comum encontrar máquinas inovadoras nos locais popularmente conhecidos como chão de fábrica.

A Electro Aço Altona, uma das maiores indústrias de aço de Santa Catarina e Brasil é um exemplo claro dessa mudança. Com dados alarmantes em relação à falta de profissionais, a empresa vem procurando cada dia mais investir em tecnologia para suprir as demandas.

“Nosso turn-over (rotatividade de profissionais) atingiu uma marca de 80% no ano passado. Ou seja, a cada 100 profissionais que contratamos, 80 foram embora. E isso é um número constante, porque são, em maioria, trabalhadores que vem já pensando em guardar um dinheiro e ir embora”, explica o diretor industrial da Altona, Danilo Antônio Corrêa.

Empresas investem em robôs para substituir a falta de mão de obra | Foto: Divulgação/Altona

Como alternativa para cobrir o rombo de funcionários, a empresa investiu cerca de R$ 10 milhões nos últimos anos na compra de robôs, impressoras 3D, inteligência artificial, entre outras inovações, e na estruturação dessas novas tecnologias.

As operações que antes eram feitas por vários funcionários em diversos turnos, agora foram substituídas por robôs, que são controlados por estes mesmos profissionais. Mais agilidade, perfeição e garantia da produção contratada pelos clientes.

“Antes a gente tinha sempre dezenas de vagas abertas, que nunca eram supridas. Agora esse número vem diminuindo. Não posso dizer que estamos sem vagas, mas a falta de mão de obra já diminuiu”, explica Corrêa.

Robô para rebarbação foi comprado para suprir dificuldades em encontrar profissionais para o setor |  Foto: Divulgação/Altona

“É importante e legal ressaltar que, mesmo com essa troca de manual por tecnologia, não demitimos ninguém. Quem estava lá no braçal, foi pra uma sala com ar condicionado, onde controla o robô. É menos insalubre, menos barulho… aliás, essas vagas são as mais desejadas por nossos funcionários”, complementa.

Essa mesma preocupação também existe na Blumenau Iluminação, indústria blumenauense de luminárias, que atua no mercado nacional e internacional. No local, antes algumas peças tinham os cortes e as finalizações feitas manualmente.

Entretanto, a insalubridade e a falta de mão de obra qualificada eram entraves para avanços maiores. Com isso, a empresa resolveu investir em máquinas de corte a laser, que, além de realizarem os serviços com perfeição, também trazem mais segurança ao local de trabalho.

Impressora 3D é utilizada para criar moldes utilizados na fábrica | Vídeo: Jotaan Silva/O Município Blumenau

Aliás, por falar em perfeição, as impressoras 3D foram outros investimentos que a empresa fez para aperfeiçoar os produtos. Com a utilização do equipamento, novos modelos puderam ser criados, destacando o mote que a Blumenau defende, de design e inovação.

“É a marca que nós estamos colocando para o mercado, inovação e design. É o que estamos fazendo há alguns anos e continuamos investindo”, destaca Jailson César Stahelin, gerente de operações da empresa.

Além da inserção de máquinas que realizam os serviços antes feitos por operários, as empresas também encontraram em outras inovações uma forma de reduzir os danos por falta de mão de obra e agilizar o tempo de trabalho.

Na Blumenau Iluminação, computadores foram programados para, sozinhos, realizarem diversos serviços administrativos. O objetivo, além de realocar os funcionários para funções mais criativas e menos repetitivas, foi aumentar a quantidade de serviço, já que os programas funcionam 24 horas por dia.

“A gente ganha nos dois lados. A execução que antes dependia de várias pessoas e poderia demorar dias, é feita mais rapidamente, e essas mesmas pessoas puderam ir para funções que a gente quer estimular, que é pensar fora da caixa, inovar”, relata Stahelin.

Na Altona foi colocado em prática a utilização de um programa de virtualização e simulação digital. Nele, os gerentes conseguem decifrar quais as melhores sequências e formas de trabalho que darão mais agilidade e perfeição na produção da matéria prima.

Programa de virtualização e simulação digital da Altona. Foto: Altona/Divulgação

Ou seja, conseguem programar algumas sequências de trabalho, sem precisar testar efetivamente, e então descobrir qual será a mais vantajosa para cada serviço.

“Ganhamos muito tempo e já excluímos vários problemas que teríamos, se optássemos por uma ou outra sequência de trabalho, que não a melhor. É uma forma da gente conseguir ver tudo funcionando, antes mesmo de acontecer, e ao mesmo tempo, evita que o funcionário precise de re-trabalho, ou perca tempo em ações desnecessárias”, explica

Além de conseguir suprir a demanda dos clientes, a empresa conseguiu avançar na qualidade das matérias primas produzidas, permanecendo como uma das principais indústrias do ramo no mundo. Atualmente, a Altona atua com mais de 50% da sua produção para exportação, que vai para todos os cantos do mundo.

“A gente precisa sempre estar se atualizando, porque um cliente pede uma peça com características diferentes do outro, são milhares de diferenças de cada peça para outra, não é aquela repetição comum em fábricas. Nós fazemos sob encomenda, por isso, nossos robôs, nossos equipamentos, precisam de tecnologia avançada, de programação individual. É preciso sempre estar atento às inovações”, destaca Corrêa, diretor industrial da Altona.

Compreendendo esta mudança no cenário da indústria, universidades e outros setores do saber – como centros de inovação e escolas técnicas – buscam se adaptar. A intenção é não apenas formar as pessoas que irão utilizar as ferramentas tecnológicas, mas também criar e elaborar quais ferramentas serão estas.

Ainda em 2021, por exemplo, ecossistema de inovação de Blumenau e região passou a contar com um Laboratório de Fabricação Digital (LFD). O espaço é localizado no campus 2 da Universidade Regional de Blumenau (Furb).

O LFD é o primeiro laboratório no Distrito de Inovação de Blumenau que segue o conceito FabLab e procura estimular a criatividade, a solução de problemas e a criação de novos produtos.

No laboratório é possível construir protótipos de produtos e projetos inovadores, pois ele é equipado com um conjunto de ferramentas de prototipagem rápida, como fresadoras, máquinas de corte e laser, impressoras 3D, além das ferramentas de programação específicas e de automação.

Segundo o diretor do Centro de Ciências Tecnológicas (CCT) da FURB, Fábio Luis Perez, o LFD/FabLab tem como principal finalidade a promoção da invenção, inovação, educação e o empreendedorismo.

“Será um ambiente compartilhado não só para os alunos de graduação e pós-graduação da Universidade, mas também de profissionais, estudantes do ensino fundamental e médio do município de Blumenau e região, bem como para empresas do Centro de Inovação Blumenau”.

Além disso, pela alma industrial existente na região, a cidade vem buscando a preparação de novos profissionais para o setor. O programa Jovem Aprendiz é outro exemplo positivo nesse fortalecimento da inovação do segmento.

Atualmente, o Senai possui 2,2 mil jovens já inseridos no mercado de trabalho nas indústrias da região do Vale do Itajaí, sendo que 1,7 mil apenas em Blumenau. Estes aprendizes, além de terem a primeira oportunidade empregatícia, adquirem experiência e a oportunidade de crescer dentro das grandes indústrias, que são um dos carros chefes da economia catarinense.

“Não tem espaço para todos os jovens em escritórios. Isso é preciso entender. E a indústria vem evoluindo muito, como já apontamos, na tecnologia, na metodologia. Então, com a formação ideal, com a aprendizagem correta, esses jovens que agora estão tendo o programa como porta de entrada pro mercado de trabalho, se tornarão o futuro da nossa indústria”, conclui Silvia.

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