Conheça a escritora e jornalista moradora de Blumenau que encarou tempos de chumbo e o machismo da profissão

Anamaria Kovács conheceu Carlos Drummond de Andrade e vivenciou o desenvolvimento da imprensa local

Conheça a escritora e jornalista moradora de Blumenau que encarou tempos de chumbo e o machismo da profissão

Anamaria Kovács conheceu Carlos Drummond de Andrade e vivenciou o desenvolvimento da imprensa local

Redação

Texto produzido por acadêmicos na disciplina de Gêneros Jornalísticos (curso de Jornalismo da Furb) sob a orientação da professora Magali Moser 

Jornalista, poeta, escritora e professora. São diversas as formas de definir Anamaria Kovács, que reside em Blumenau desde os anos 1970, onde até hoje se inspira para novos projetos.

Carioca, formada na primeira turma de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tendo atuado como repórter durante a ditadura militar brasileira, a escritora relata detalhes de sua história neste perfil.

Do início da carreira, passando pelo encontro com Carlos Drummond de Andrade e chegando a Blumenau – onde acompanhou o desenvolvimento da imprensa local – Anamaria detalha importantes marcos da história recente do Brasil os quais vivenciou e acompanhou.

Da escrita de poesias à escolha pelo Jornalismo

No início da década de 1960, Anamaria Kovács era uma menina de 14 anos do Rio de Janeiro que sonhava, entre outras coisas, em seguir carreira como engenheira eletrônica. A então adolescente, única filha de um engenheiro têxtil e uma secretária executiva bilíngue, escrevia poesias em um caderninho, quando o hábito despertou o interesse do pai, desconfiado de sua inclinação para a área técnica.

A percepção instintiva do patriarca notou o talento da jovem para a escrita. A partir daí, ele comentou com ela sobre uma amiga da família que trabalhava como repórter, cativando o interesse da filha pela profissão. Interessada pela ideia de uma vida sem rotina e com a promessa de ser útil à sociedade e “mudar o mundo”, Anamaria decidiu: queria ser jornalista. Gostava de gente e de escrever, por isso uniu o útil ao agradável.

Em 1966, então com 18 anos e durante o regime militar brasileiro, ingressou na primeira turma do curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Num momento em que o pensamento crítico era visto como ameaça, os desafios não eram apenas de ordem política.

A ausência de uma infraestrutura adequada fazia com que a reivindicação por melhores condições de espaço físico fosse um dos motivos da mobilização de estudantes como Anamaria. Sem sala de aula, sem professores, sem biblioteca, sem laboratório ou equipamentos, as aulas do primeiro semestre aconteceram no pavilhão abandonado de uma exposição. “Nossos professores foram caçados a laço”, relembra.

Dois anos após o golpe militar de 1964, havia ainda todo o cenário de repressão, censura e ameaças à liberdade de expressão. Uma atmosfera que tornava o estudo do jornalismo ainda mais desafiador. A escolha simplesmente “não era vista com bons olhos”, conforme relata a própria jornalista.

Foi ali que começou a luta de Anamaria para ocupar espaços e o sentimento de resistência que se somou a outros tantos estudantes frente àquele contexto. A mobilização não foi em vão: No semestre seguinte, depois de muito protesto e conversas com a reitoria da universidade, conseguiram uma sala emprestada do curso de Letras para seguirem com suas aulas, num prédio no Centro do Rio de Janeiro (RJ). Uma conquista alcançada, mas outras lutas ainda estavam por vir.

Uma jornalista em tempos de chumbo

Arquivo pessoal

Frustrada com a má infraestrutura do curso na universidade, Anamaria buscou uma oportunidade de aperfeiçoamento no mercado de trabalho, disputando uma vaga como aprendiz no jornal Correio da Manhã, no Rio de Janeiro. Na verdade, o que fazia poderia ser chamado de voluntariado, já que no início ela não recebia salário algum: “Como eu não sabia nada… eu pensei, bom, eu tô aprendendo, tudo bem”, rememora. Trabalhou sem receber salário ou ajuda de custo durante seis meses, antes de solicitar alguma remuneração, quando ingressou como estagiária na reportagem.

Foi durante essa experiência que realizou uma das coberturas que marcaram sua vida.
“Naquela época, a ameaça ao jornalista não era só uma ameaça ideológica, mas uma ameaça física”, recorda. Foi no período como repórter do Correio da Manhã a cobertura mais marcante vivida por Anamaria como jornalista.

Ela relembra que, acompanhada de uma jornalista mais experiente, deixou a redação para cobrir uma manifestação de estudantes contra o regime militar e a favor da democracia. Durante a apuração dos fatos no local, ambas tiveram de correr da polícia: subiram ao segundo andar de um prédio para testemunhar o levante e as agressões dos policiais com cassetetes contra estudantes.

Ao mesmo tempo, o fotógrafo que fazia parte da equipe estava em meio aos estudantes e à polícia, fotografando os acontecimentos. A partir da visão mais alta, conseguiram fazer um relato aproximado do que estava acontecendo.

“Eu insisti com o chefe de reportagem para ir, porque eu queria aprender a fazer as coisas, eu não estava com medo, a gente não pode ter medo, nem das ameaças físicas, nem das ideológicas”, afirma, com uma forte convicção na voz.

Como os jornalistas, os estudantes também questionavam a ditadura militar. Junto com intelectuais, eram vistos como críticos, então significavam uma ameaça num momento em que o pensamento crítico sofria tentativas de silenciamento.

“Pessoas pensantes são sempre uma ameaça, não importa qual o regime!”, pondera.
Durante a ditadura, o Correio da Manhã foi fechado por ameaças e violências por parte do governo, que teria negado a importação de papel à época, segundo Anamaria. Como o papel era importado, o jornal não teve condições de continuar.

No dia da formatura, a primeira turma de jornalismo da UFRJ, da qual Anamaria fazia parte, foi obrigada a nomear um militar desconhecido como patrono. Ela havia sido eleita oradora da turma, mas com o discurso já previamente censurado, como protesto, subiu ao púlpito e disse que não faria discurso algum, já que seria ilógico um jornalista ser censurado daquela forma. “Eu seria uma oradora muda”, resume.

Não houve festa de formatura. Aquela turma era uma ameaça ao regime ditatorial, ao citar o conhecido caso do jornalista Vladimir Herzog, assassinado na prisão pelo regime militar.

Outro acontecimento marcante em sua trajetória, agora não como jornalista, mas como professora na Universidade Federal Fluminense (UFF), foi o fato de que suas aulas eram acompanhadas por um espião do governo, que registrava tudo o que se passava.

Enquanto Anamaria ministrava suas aulas da frente da sala, ele ficava ao fundo, fazendo relatórios sobre os conteúdos e tudo que acontecia na instituição, tudo sem nunca trocar uma palavra com ninguém.

Além desse fato, a professora Anamaria também precisou dar um depoimento no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), pois não tinha conseguido um atestado ideológico para continuar com suas atividades docentes. Ela teve que fazer uma declaração por escrito de suas atividades profissionais, da qual exigiu uma cópia.

“A minha mãe disse: ‘Eu vou junto com você, porque se você desaparecer eu já sei de onde você desapareceu’. Porque era assim. Nós fomos lá, e o policial que nos recebeu fez questão de me dar a mão, e ele mesmo me explicou depois que me deu a mão para ver se eu estava suada ou com a mão fria. Eu não estava, e isso já demonstrava que eu estava calma, tranquila, e que eu não tinha nada a recear ou a esconder”, descreve ela com leveza e convicção.

Durante o interrogatório, a professora foi “acusada” de ter trabalhado no Correio da Manhã, um jornal considerado “de esquerda”, e de ter feito um estágio em um jornal de Zuenir Ventura e Reinaldo Jardim, chamado O Sol, de forma a entender que através das experiências profissionais dela, tenha feito algo muito errado, comenta Anamaria, com um humor ácido. Após ter de escrever um depoimento de próprio punho de todas as suas atividades, acabou sendo liberada pela “confissão”, e voltou a desempenhar suas funções como professora universitária.

“Durante essa entrevista que tive com o policial, não sei se era uma gravação ou se era real, mas na sala ao lado se ouviam gritos terríveis de alguém, de um homem. Então não sei se fizeram isso de propósito, com alguma gravação, ou se era realmente alguém sendo torturado. Em seguida eu fui liberada”, conta.

O clima de perseguição e tortura da época faz com que Anamaria afirme que os jovens de hoje não consigam imaginar o que foi viver o período. “Essa era a mentalidade da época. A de espionar, torturar, arrancar confissões das pessoas, mesmo que elas não tivessem nada a dizer. Ser jornalista naquela época era um ato de coragem. E ser professor também”, destaca.

Ela não esconde a preocupação com posturas autoritárias atuais, ao rememorar aquela época, fazendo um paralelo entre passado e presente.

A experiência de trabalhar num dos maiores jornais do Brasil

Foto: Angel Medeiros Goulart/Especial

Após formada, foi trabalhar em um dos maiores jornais do país à época, o Jornal do Brasil (JB), quando a sede da instituição ainda era num prédio antigo da Avenida Rio Branco, no Centro do Rio de Janeiro. Depois disso, foi construída uma nova sede, moderna, na Avenida Brasil, na entrada da metrópole, numa área próxima à Ponte Rio-Niterói.

Considerado um dos marcos do jornalismo no Brasil, o JB acenava para a interpretação e contextualização como prioridades, com a criação, nos anos 1960, do Departamento de Pesquisa e Documentação, o primeiro entre jornais brasileiros, seguindo modelo adotado no The New York Times e implementado pelo jornalista Alberto Dines, então editor-chefe do periódico. Mas mesmo lá, o diploma e a sindicalização também não foram garantia de salário, no início.

Ela ingressou no JB como jornalista atrelada à “categoria E”, classificação que fazia referência à faixa salarial de cada profissional. Na redação do jornal, foi promovida até chegar à categoria B, refletindo um considerável crescimento profissional também na remuneração. Quando foi demitida, três anos depois, sonhava em pular da categoria B para a A, a mais cobiçada entre repórteres.

Segundo a jornalista, a dinâmica era a seguinte: quando o jornalista crescia e ameaçava tirar o lugar de quem estava ligado à categoria A, representada pela “elite” do jornal, costumava ser demitido. Então a redação, estrategicamente e com finalidades específicas, era renovada.

Entravam novos estagiários, com piso salarial baixo, e assim seguia o ciclo. “Era assim que funcionava, mas, mesmo assim, eu gostei muito de trabalhar ali, ele concorria com O Globo. Foi muito bom, tanto como jornalista, como em termos de experiência humana”, comenta Anamaria.

Alguns dos colegas de trabalho de Anamaria daquele tempo alcançaram projeção nacional no cenário cultural brasileiro, a exemplo da escritora Marina Colasanti, que trabalhava à época no Caderno B, voltado para a opinião, enquanto Anamaria atuava no Caderno A, mais ligado ao noticiário.

Machismo na profissão

O machismo não demorou muito a se fazer presente na vida da jornalista Anamaria Kovács. À época em que atuou na redação do Jornal do Brasil (JB), ela lembra que o chefe de reportagem era abertamente contra mulheres trabalharem naquele ambiente. Ele proferia sem inibição a frase: “lugar de mulher é atrás do fogão”. Ao que ela pensava: “tá bom… eu sei cozinhar, mas eu também sei outras coisas”.

Apesar das dificuldades que se apresentavam, Anamaria não se deixava abalar. Na sua memória, há recordações de um tempo cheio de aprendizados. Para driblar o chefe machista, ela pediu para trocar de editoria.

A Anamaria que gostava de gente, passou a trabalhar em uma sessão chamada “Coluna Gente”. Nela, sua função era entrevistar e fotografar, mesmo sem habilidade com a câmera fotográfica. O perfil das pessoas entrevistadas era muito variado, de modo que ela entrou em contato com realidades muito distintas. Em uma manhã, era encarregada de entrevistar um embaixador, no período da tarde, um varredor de rua. Para ela, que gostava descobrir pessoas, não havia função melhor.

“Foi uma experiência maravilhosa porque eu pude conhecer inúmeras pessoas, conversar com elas e encontrar a personalidades delas. Porque esse era o objetivo dessa coluna”, comemora.

Mas, como a mudança se faz necessária, depois de um tempo ela se cansou da atividade e pediu para mudar para a editoria Cidade, onde se viu livre do antigo chefe preconceituoso e sentiu na pele a pressão do jornalismo contra o relógio.

Na nova sessão, tinha de cumprir de três a cinco pautas diárias no expediente das 14h às 19h, algo nem sempre possível no período de trabalho, o que exigia muitas vezes a necessidade de horas-extras, comum frente às demandas.

No ingresso na profissão, ainda como aprendiz do Correio da Manhã, vivenciou uma situação delicada: “Um colega de trabalho bem mais velho do que eu – que podia ser meu pai ou talvez até meu avô – me chamou no setor de Pesquisa num horário de almoço quando havia poucas pessoas na redação. Quando eu cheguei lá dentro, num setor mais afastado da redação, ele tentou me agarrar. Eu disse que ia gritar se ele não me soltasse e ele largou”, conta, ao repensar sobre o episódio envolvendo assédio mais violento que sofreu. Mas ela também coleciona situações memoráveis.

Encontro inesquecível

Em mais um dia de trabalho comum no Jornal do Brasil (JB), Anamaria pegava o elevador como sempre fazia, exceto que nesse dia houve uma diferença: a emoção de dividir o espaço com Carlos Drummond de Andrade, um dos mais renomados poetas do Brasil, que assinava uma coluna do jornal. Ele era tímido, entrou no elevador com sua pastinha debaixo do braço e não falou uma palavra. As pessoas presentes também não falaram, só admiraram-no.

“Eu e as outras pessoas que estavam no elevador ficamos assim, estatelados! Sem uma palavra. Ele entrou, baixou a cabeça, ficou ali quietinho, com sua pastinha. Ele fazia questão de trazer a sua coluna redigida de casa, não sei por que exatamente ele fazia isso. Coisa de sua cabeça”, detalha.

Enquanto trabalhava no Jornal do Brasil, também lecionava na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói. O convite partiu de um professor quando ela se formou e a decisão de aceitar foi motivada pelo complemento à renda mensal. Mesmo não tenho dado uma única aula antes na vida, Anamaria encarou a possibilidade.

Dava aulas de técnicas de reportagem e técnicas de redação, e teve que aprender na prática a lecionar. Sua primeira aula durou 20 minutos! “Eu não sabia desenvolver o assunto. O primeiro semestre foi um sofrimento! Mas eu consegui, fui aprendendo com os meus alunos e descobri a paixão de dar aulas também. Então foram duas carreiras paralelas”, resume. Ela tinha o conhecimento, mas não sabia como trabalhar os assuntos de forma didática com os estudantes. Eles foram compreensivos e ela aprendeu ao longo da jornada.

Quem a teve como professora não a esqueceu. É o caso do documentarista Andreas Peter, graduado em Publicidade e Propaganda na Furb nos anos 1990.

“Foi muito bacana, pois além do conhecimento que ela dividia conosco, também fez parte das experiências pessoais que o mundo acadêmico proporciona aos jovens estudantes, de transformação e amadurecimento. Uma pessoa e professora que ficará para sempre na gaveta das boas lembranças”, registra Peter.

Atuação como pesquisadora

Anamaria ainda acumula na bagagem a experiência como pesquisadora. Ela fez mestrado em Comunicação sob a orientação de Liba Beider. Como não havia doutorado em Comunicação àquele momento no Rio de Janeiro, somente em São Paulo, ela cursou o doutorado em Letras, na área de Linguística, tendo como orientadora Mônica Rector, que esteve na Furb em 1979 para uma palestra, a convite de Anamaria.

Ela escolheu como tema a coluna social de jornais do Rio de Janeiro, sob diferentes ângulos. A dissertação de mestrado intitulada Coluna Social: Linguagem e Montagem foi apresentada na escola de Comunicação Social da UFRJ, em 1975 e a tese de doutorado, na pós-graduação em Letras da UFRJ, em 1978, sob o título: A função e o significado da coluna social.

“Naquela época, como não havia influenciadores digitais como hoje, as colunas sociais cumpriam em parte essa função. Os leitores se inteiravam do que acontecia com os personagens da coluna, se identificavam com eles porque gostariam de ser notícia. E procuravam, além disso, imitá-los no que fosse possível. Elas cumpriam um anseio psicológico dos leitores, enquanto também os informavam dos acontecimentos, que não eram restritos aos membros da classe A. Mas também abrangiam política, economia, os sucessos e fracassos da classe artística e serviços da classe A, como cabeleireiros, cozinheiros, artistas, arquitetos…”, explica.

Os leitores entrevistados pela escritora Anamaria para a pesquisa consideraram de modo geral a coluna social como má fonte de informação mas que preenchia duas necessidades psicológicas deles: a de estar informado e atualizado e a necessidade de distração, de evasão do cotidiano.

Ela entrevistou ainda para a pesquisa os colunistas Ibrahim Sued, do jornal O Globo, Zózimo Barroso do Amaral, do Jornal do Brasil e Jacinto de Thormes, do Última Hora, todos do Rio de Janeiro. Foram analisados os recursos linguísticos usados pelos profissionais para atrair e manter o interesse dos leitores: neologismos, nonsense, gíria e estilo próprio.

“Foi no mestrado que eu realmente aprendi alguma coisa. Fiz disciplinas que me forneceram a base teórica que não tive na graduação”, observa.

As duas pesquisas estão disponíveis na Biblioteca da Furb. A autora tentou publicá-las como livro pela editora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mas, como o trabalho se referia apenas a jornais cariocas, não foi possível. Anamaria lembra que em Blumenau, no Jornal de Santa Catarina nos anos 1970, Carlos Müller procurava copiar o estilo de Sued, na coluna social que assinava.

A vida em Blumenau desde 1977

Anamaria Kovács chegou em Blumenau em 1977, acompanhando a decisão dos pais, que deixaram o Rio de Janeiro por entenderem que a cidade estava se tornando perigosa. Depois de um ano de reflexões, escolheram o Vale do Itajaí porque havia muitos familiares maternos no município.

Em Blumenau, continuou com a docência e a redação, paralelamente. Conquistou a função de editora no Jornal de Santa Catarina, onde iniciou como responsável por cinco páginas (Internacional, Nacional, Economia, Política e outra que não lembra) e escreveu muitos editoriais quando o editor-chefe era Braz dos Santos. A chegada em Blumenau também foi marcada pelo ingresso como professora de francês na Universidade Regional de Blumenau (Furb), onde iniciou por intermédio do professor Olivo Pedron, então diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

No Santa, foi uma experiência nova, por ser um jornal regional, bem diferente da estrutura do Jornal do Brasil, que, nas suas palavras, era mais “burocrática”. No jornal com sede em Blumenau também começou a carreira literária. “Quando eu não tinha muito o que fazer, comecei a passar pela máquina alguns de meus poemas”.

O editor Jose Roberto Rodrigues também era poeta e se impressionou com a qualidade dos textos. Naquela época, o jornal tinha uma página de literatura, que foi a sua porta de entrada para a área. Ela começou com ficção científica e poesia, e depois passou a publicar literatura infantil.

Também atuou como contadora de histórias infantis. Hoje, são 13 livros publicados voltados ao público infanto-juvenil, incluindo temas diversos como timidez, perdas, drogas e ciúmes com a chegada de um(a) irmã(o). Ela diz ter levado muito do jornalismo para a literatura, desde a linguagem até as referências à realidade. O amor pelas crianças é identificado por ela como uma característica que perpassa toda a sua obra, cujos livros estão esgotados.

Para Anamaria, não importa se é um poema, uma crônica ou uma reportagem, o que importa é o texto ser inteligível e estabelecer uma conexão com o leitor. Ele pode não concordar, mas deve entender o que está sendo dito.

Ela atuou também como jornalista responsável pela Revista de Divulgação Cultural (RDC) da Furb. Também já coordenou e assinou o jornal da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil chamado “O Caminho”, cuja circulação chegou a 40 mil exemplares.

A dificuldade foi ensinar os pastores a escrever jornalisticamente. “No começo foi um pouco difícil porque a linguagem jornalística é diferente da linguagem usada pelos religiosos em suas homilias. Então, eles tiveram primeiro que entender o que era importante para um leitor de jornal, diferente daquilo que é importante para quem está ouvindo o discurso deles na igreja.

Eu tive que explicar para eles as perguntinhas fundamentais que a gente faz, em que ordem isso deve aparecer, do mais importante para o menos importante. Por isso foi um pouco complicado para entenderem, mas depois ficaram mais confiantes e deu tudo certo. O atual diretor do jornal é teólogo e ex-jornalista, por exemplo.”

Em 1990, após receber uma proposta de trabalho na editora Nova Safra, ela se mudou para Belo Horizonte (MG), onde ficou por um ano antes de voltar a Blumenau. Em BH, lecionou no Instituto Izabela Hendrix, no curso de Letras. Devido à crise financeira da época e a um convite que recebeu da profa. Yolanda Soares Tridapalli, diretora do Centro de Comunicação, para começar o curso de Publicidade e Propaganda na Furb como primeira coordenadora, ela voltou a Blumenau, onde vive até hoje.

Graduado no curso de Publicidade e Propaganda da Furb em 1997, Rubens Cláudio Belli conheceu Anamaria na universidade e coleciona boas lembranças e vivências com ela. Tornou-se proprietário da Belli Studio, uma produtora de ilustração e desenho animado, onde pôde estabelecer novas aproximações e parcerias com a professora.

“Tive a alegria de contribuir com as ilustrações de uma revista em quadrinhos escrita por ela sobre a história de Blumenau nos anos 2000. Além de uma profissional do mais alto gabarito, sempre demonstrou uma postura amigável e positiva, qualidade essencial na arte de inspirar pessoas e no despertar da criatividade. Certamente fez muita diferença na vida de muitas pessoas em todos esses anos”, considera.

A também professora Suzana Sedrez foi colega de trabalho de Anamaria na Furb. Ela lembra que certa vez Anamaria referiu-se às saias esvoaçantes pelos corredores da Furb, num artigo de jornal, e, um amigo em comum apostou que ela estaria se referindo a Suzana, fazendo alusão às novidades daquele contexto furbiano.

“e eram…a ponto de me surpreender com sua presença, de coordenadora de curso, na minha aula de Sociologia para uma turma de Comunicação Social, pelos idos de 1990. Discreta e silenciosa observava uma professora em ação com o quadro negro cheio de pensamentos críticos sobre a realidade social, como é o objeto da sociologia. O que a motivou estar ali? Podemos imaginar o impacto de tais ideias no coração da germanidade blumenauense…”, ressalta Suzana.

E continua. “Nunca me disse, mas dá para depreender que fora, além de observadora, cautelosa. Talvez essas palavras possam definir parte do caráter de Anamaria que também interagia com sua comunidade. Perceptível quando a convidei para apresentar seu lindo livro infantil, recém lançado, para os alunos de 1ª a 4ª séries no Teatro do Colégio Pedro II. Um evento cheio de graça que nos proporcionou muitos momentos de delicadeza num contexto de afetos bastante difíceis que vivíamos na escola por ocasião de trocas de direção. Observadora, cautelosa e solidária poderiam definir minhas lembranças sobre Anamaria Kovács”, enfatiza.

Entre encontros e coincidências, os caminhos de Anamaria se cruzaram com os da professora e jornalista Roseméri Laurindo, que também reúne memórias com a escritora:

“Era começo dos anos 80. Como menina-repórter que eu era (do Santa e da assessoria de imprensa da Furb), logo me encantei com o esmero de Ana pelas palavras. Ela editava a revista de Divulgação Cultural, uma publicação, na época, para quem tratava a língua com muito esmero. Como professora de Letras, Ana exalava amor pela escrita. Um dos presentes mais marcantes que já ganhei veio das mãos dela: “Capitães de Areia”, de Jorge Amado. Foi um passaporte ao reino da Literatura que até então não tinha recebido e um prenúncio para minha vida mais tarde em Salvador”, conta.

Roseméri retornou a Blumenau em 2002 para concurso à vaga deixada na aposentadoria de Ana na disciplina de Teorias da Comunicação. Ela foi coordenadora fundadora do curso de Publicidade e Propaganda da Furb(1991) e Roseméri do curso de Jornalismo (2014).

“Jornalista-professora-escritora-poeta, Ana Kovács trouxe a Blumenau um jeito especial de compartilhar saberes. Aprendi muito ao testemunhar o amor-amizade dela com sua mãe Eliza. Cariocas de olhos azuis, elas adotaram Blumenau para (re)encontros que Ana sintetiza em produções literárias. Estou aguardando seu próximo livro!”, comenta Roseméri.

Além da universidade, Ana, como é chamada entre amigos, deixou também uma passagem marcante nas páginas da imprensa regional. O jornalista e ex- editor-chefe do Jornal de Santa Catarina, Edgar Gonçalves, teve um papel central na promoção de Anamaria como cronista da publicação. Em setembro de 2004 foi implementada a mudança do formato do jornal de standard para tabloide e, com ela, a criação de um espaço na penúltima página para o que se chamava de “colunistas rotativos”. A cada edição, um colunista, com diferente perfil e visão de mundo, assinava no espaço, com a pretensão de promover um fórum de ideias o mais plural possível. Àquele momento, um aspecto incomodava Gonçalves:

“Eu sempre achei o conteúdo do jornal um tanto duro, excessivamente fincado na realidade. Era como se não abarcasse a riqueza da vida em todas as suas nuances. Talvez fosse uma carência só sentida pelo editor-chefe, já que desde a adolescência sou apaixonado por poesia. Mas o fato é que fui atrás de um colunista rotativo que trouxesse esse quê de inspiração e sensibilidade que, dentro da minha receita de um bom jornal, eu achava indispensável”, comenta.

Ele conhecia alguns textos de Anamaria Kovács e tinha gostado muito. Quem primeiro lhe falou dela foi Clóvis Reis, do Departamento de Comunicação da Furb, pois ambos eram professores na universidade:

“Ela curte Cecília Meireles, disse-me o Clóvis, o que pra mim é um selo de qualidade e amor pela simplicidade do texto e da vida. Foi então que convidei a Anamaria. Lembro do nosso primeiro papo na redação, ela na agradável companhia da mãe. E a Ana topou o desafio de trazer para o jornal o olhar refinado da escritora”, rememora.

Gonçalves lembra que foram muitos anos como titular do espaço e o resultado não poderia ser melhor. Ao contrário do que se temia, com a tabloidização e as inovações editoriais o jornal não perdeu leitores e lançou as bases para o seu melhor momento editorial e de vendas, superando os 20 mil exemplares de circulação, um patamar considerável para um jornal regional.

“Nas avaliações do Conselho do Leitor e nas pesquisas que fazíamos periodicamente, a Ana sempre se destacou. O melhor crivo para avaliar um veículo é sempre o do leitor – e no coração do leitor o poeta sempre tem lugar, até quando faz poesia a partir da notícia”, avalia.

Embora afastada do jornal desde 2010, ela segue escrevendo. Na casa onde mora, no Bairro do Salto, entre a Itoupava Seca e a Escola Agrícola, os livros são sua principal companhia.

Rumo ao futuro

Quando questionada sobre sua autoimagem, Anamaria responde simplesmente que é alguém em evolução constante.

“Eu continuo tendo sonhos, porque muitas pessoas pensam ‘bom, ela já tem mais de 70 anos…’, mas eu não me considero, ainda, realizada, eu posso deixar de atuar, deixar de fazer alguma coisa. Não, pelo contrário, eu estou me reinventando”, adianta.

Prova dessa reinvenção são os novos projetos em que está se aventurando nos últimos tempos. Entre eles, a participação na publicação de uma antologia com poemas sobre o Brasil: “As Belezas de Santa Cruz”, tendo o lançamento em e-book e livro físico em parceria com poetas de vários estados do Brasil, e um conto de Natal.

Além disso, também está começando a escrever um romance com as memórias da família. Seu pai era húngaro e judeu, e veio com a família para o Rio de Janeiro para fugir do nazismo. Já sua mãe era descendente de imigrantes alemães. A história completa será contada por Anamaria em uma biografia romanceada da família.

Projetos não faltam. Em evolução constante e cheia de sonhos, a jornalista ainda tem muitos planos pela frente. Após a perda da mãe para o mal de Azheimer, em março deste ano, está se reinventando e ainda tem muito a realizar.

No momento, conta histórias para crianças no Youtube, plataforma de vídeos da Google (Memórias dos Contadores de Histórias de Blumenau 1997/1007, criada pela professora Tânia Maria da Silva, em 14/09/2020)). Também o projeto da musicalização de seus poemas está em andamento.

Conversando com a Anamaria, hoje com 72 anos, pode-se perceber duas coisas: ela ainda gosta de gente, e, além disso, o cabelo é branco, mas a alma ainda é de menina.
“O que eu sou hoje é resultado de um passado, mas eu tenho muita coisa pela frente ainda…” finaliza.

Ninguém duvida.

O perfil acima é uma construção coletiva de Giulia Godri Machado, Isabella Cremer, Julia Bernardes Laurindo, Maria Luiza de Almeida Kuster, Natiele de Oliveira Vanderlinde e Thiago Cisilo Gomes, estudantes do 4º semestre do curso de Jornalismo da Universidade Regional de Blumenau (Furb), na disciplina de Gêneros Jornalísticos (2020.2), sob a coordenação da professora Magali Moser.

A entrevista com Anamaria Kovács ocorreu de modo virtual dia 7 de novembro de 2020, quando ela gentilmente falou com a turma de sua casa em Blumenau, não escondendo a satisfação de voltar à sala de aula, ainda que pela internet.

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