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Confira a crítica de ‘O Poço’, novo filme da Netflix que aborda prisão utópica e desigualdade

Colunista acredita que narrativa poderia ser mais aprofundada

O diretor espanhol Galder Gaztelu-Urrutia fez de “O Poço” (El Hoyo, 2019) seu primeiro longa-metragem. A narrativa nos apresenta um mundo distópico, com foco em uma prisão que tem o mesmo nome que fornece título à obra. Esta prisão é verticalizada e dividida em níveis, sendo que duas pessoas dividem cada um deles.

Todos os dias, há uma mesa com um banquete que desce cada etapa. Quanto mais acima você está, melhor poderá comer, quanto mais abaixo, receberá os restos dos outros, ou mesmo nada. Certamente, trata-se de uma história pouco usual.

Tão confusos quanto o protagonista Goreng (Iván Massagué), que acorda no nível 48 junto ao colega de cela chamado Trimagasi (Zorion Eguileor), nós, espectadores, passamos certo tempo tentando entender sobre o funcionamento dessa prisão, suas regras e condições. Nas palavras do próprio Trimagasi, no poço “existem três tipos de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem”.

Goreng e Trimagasi simbolizam uma relação conflitante. De um lado, Goreng, idealista tal qual o protagonista do livro que trouxe para dentro do poço, Dom Quixote, o cavaleiro das causas perdidas, questiona as regras do lugar e tenta mudá-las. Trigamasi, bastante realista, seria o Sancho Pança. Ao pronunciar a palavra “óbvio” com tanta segurança, demostra que, dentro de um sistema cruel, é preciso se adaptar para sobreviver.

A velocidade com que as ações ocorrem na narrativa demonstra um filme que não se demora em explicar seus signos. Rapidamente, compreendemos as razões pelas quais a comida não chega ao último nível, os significados das cores vermelha e verde da lâmpada, o que se passa ao segurar comida para além dos minutos reservados, o desespero humano ao se deparar com um nível muito abaixo, e a satisfação e complexo de superioridade daqueles que estão nos primeiros níveis. É notória a agilidade dos personagens em pensar e resolver situações com praticidade.

Pelo mesmo motivo, o filme perde a chance de se aprofundar nos personagens/situações às quais somos apresentados: a mulher em busca da filha e a ex-funcionária da prisão, que agora é moradora do poço, por exemplo, não chegam a ter uma real função narrativa.
Metaforicamente, há uma mensagem, até bastante clara, de representar, em termos audiovisuais, uma estrutura socioeconômica em forma de pirâmide que se assemelha ao que vivemos hoje no capitalismo.

Netflix/Divulgação

Dentro deste sistema, percebemos as crueldades dos indivíduos que, por estarem em condições melhores, tornam-se cegos à fome, miséria e sofrimento dos demais: pessoas que, em situações extremadas, se comem vivas. A função simbólica de ‘O Poço’, contudo, é simplista.

Quando evidencia no protagonista a figura de um salvador, o filme empenha-se no exercício moral do coletivo frente ao individualismo, mas o faz de maneira superficial.

O extremo condicional dos personagens tenta perturbar a audiência, com ápice em circunstâncias de descontrole, mutilações, e canibalismo, elementos dos filmes de Gore, um subgênero do cinema de horror.

Algumas proposições de terror e suspense geram, entretanto, uma série de situações previsíveis e cenas de violência gratuita que são totalmente desnecessárias, a exemplo do momento em que, descendo pelos níveis, o protagonista bate com barra de ferro na cabeça dos outros moradores, aqueles que, em princípio, intentou ajudar.

Sobre o final, muitos disseram que não entenderam. Há, na audiência, uma busca de sentido que compense o esforço de Goreng, a figura do salvador. Os finais de filmes não necessariamente precisam ser fechados, explicados. Filmes com finais abertos indicam propositalmente um leque para interpretação. A ideia de espectador emancipado, explorada na coluna da semana passada, colabora aqui bastante.

O problema de “O Poço” não está no final aberto, mas em como este não sustenta a própria narrativa criada, sinalizando pouca coisa ou coisa nenhuma à ideia de chegada ao fundo do poço, para além do final simbólico moralista da menina sendo a mensagem.

O filme, de todo modo, vale ser assistido pela experiência proporcionada. Ele possibilita outras interpretações, de viés psicológico, teológico etc. Nos faz valer, inclusive, do momento atual para refletir sobre os limites da solidariedade.