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“Escolha do tema da Campanha da Fraternidade marca posição”

Para colunista, campo religioso também vive tempos de disputas políticas

No último dia seis de março, quarta-feira de cinzas, portanto, início da quaresma, a Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou a Campanha da Fraternidade de 2019. A campanha tem como objetivo promover e despertar a solidariedade na sociedade e é realizada todos os anos pela Igreja Católica e outras igrejas cristãs.

O tema deste ano é “Serás libertado pelo direito e pela Justiça”. O texto base da campanha é “Estimular a participação em políticas públicas, à luz da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja para fortalecer a cidadania e o bem comum, sinais de fraternidade”.

A escolha do tema é simbólica por dois motivos. Primeiro, porque marca posição em tempos de aplicação da PEC 55, e da reforma da previdência. Claramente, o documento reclama para a necessidade de um Estado que atue na construção da cidadania, na diminuição das desigualdades e de promoções de direitos relacionados à educação, à saúde, à segurança pública, ao saneamento básico, à ecologia e outros.

Políticas públicas que devem, segundo a campanha, ser construídas com participação popular e de forma democrática.

“A Igreja não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça. Deve inserir-se nela pela vida da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça não poderá afirmar-se nem prosperar. A sociedade justa não pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela política. Mas toca à Igreja, e profundamente, o empenhar-se pela justiça”. (Bento XVI, Deus Caritas Est, n. 28).

Além da importância do tema, outro simbolismo da Campanha da Fraternidade de 2019, está o regresso da doutrina social da igreja. Nos últimos anos, a esfera religiosa brasileira e latino-americana foi marcada por um cenário de forte disputa entre os movimentos carismáticos (igrejas pentecostais, neopentecostais, renovação carismática) em contraponto aos movimentos eclesiais de bases. Uma disputa ideológica e teológica entre Teologia da Libertação e Teologia da Prosperidade.

Ambas as teologias irão ter um caráter político em sua doutrina, no entanto, apontam caminhos diferentes para a sociedade. Enquanto a Teologia da Libertação declara opção preferencial em favor dos pobres e da solidariedade, ou seja, um caminho coletivo e de justiça social, a Teologia da Prosperidade prega que o sofrimento, o infortúnio e a pobreza são resultado da incapacidade religiosa, devido a faltas morais, espirituais ou mesmo falta de fé.

Assim como em toda a sociedade brasileira, o que estamos assistindo é uma disputa pela manutenção ou modificação do campo religioso. Conforme aponta o sociólogo francês Pierre Bourdieu, o campo religioso, assim como em outros campos da vida social, é espaço de lutas e disputas entre os diferentes agentes que ocupam as diversas posições.

Essa disputa manifesta-se por intermédio de duas estratégias: conservação e subversão.