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Mulher que morou em Blumenau passa mais de 50 dias com Covid-19, na Itália

Janete mora na Europa há 20 anos e acabou sendo isolada em instituição após transmitir o vírus para a família

Em dezembro do ano passado, a catarinense Janete Dimas Fernandes, de 51 anos, voltou à terra natal para passar o fim de ano com a mãe. Natural de Dona Emma, ela morou em Blumenau por uma década. Mas, há 20 anos, vive na Itália com o marido e o filho.

Com planos de ficar no Alto Vale do Itajaí até março, ela logo foi surpreendida pela pandemia do novo coronavírus. Após ter a passagem de volta cancelada, ela só conseguiu retornar para casa no dia 13 de abril.

A saída do Brasil teve todos os cuidados possíveis. Ela separou cinco máscaras para o trajeto, usou luvas descartáveis e levou um litro de álcool gel consigo. O voo, que saiu de Curitiba, passou por São Paulo e Frankfurt, na Alemanha, antes de pousar em Milão. Em nenhuma das viagens havia alguém sentado ao lado dela.

A região de Milão foi uma das mais afetadas pela Covid-19 na Itália. Porém, Janete mora numa região mais afastada, a mais de 200 quilômetros de distância. Para chegar à comuna de Reggio Emilia, ela alugou um carro com motorista. Na noite do dia 14, ela estava em casa.

Primeiros sintomas

Menos de 24 horas depois, Janete começou a tossir. Uma tosse seca. Já na manhã seguinte ela ligou para o médico da família, que ficou preocupado. No mesmo dia, ela fez um teste para Covid-19 e passou por consulta.

Apesar de os pulmões e a respiração estarem bem e a tosse ter passado, em poucos dias chegou o resultado. Janete havia contraído o coronavírus. Ela acredita que tenha pegado a doença em algum aeroporto do Brasil, já que em Dona Emma se manteve em isolamento com a mãe.

“Ela tem todas as doenças do coração possíveis. Se ela tivesse pegado, não sobreviveria. Minha mãe é minha maior preocupação agora, com os casos no Brasil aumentando e o inverno chegando”, desabafa.

O resultado chegou numa sexta-feira. Já na segunda-feira seguinte, o marido de Janete, de 56 anos, e o filho, de 16, foram realizar o exame. Ela se isolou num quarto. Ambos já haviam contraído o vírus.

“Sempre mantive distância da minha família. Não abracei nem meu filho. O mais próximo que estivemos foi comendo na mesma mesa. Talvez tocamos os mesmos objetos. Mas fui eu quem passei pra eles, porque eles estavam em isolamento antes de eu chegar”, conta Janete.

Toda a família foi vítima da doença

Após a tosse, o único sintoma que Janete desenvolveu foi a perda de paladar e olfato. Segundo ela, por uma semana tudo tinha gosto de plástico. Porém, a doença atingiu o restante da família mais fortemente.

“Meu marido teve dez dias de febre altíssima, sempre à beira dos 40ºC. Foi internado, mas não precisou de respirador. Já meu filho, que tem muitas alergias, teve um choque anafilático. Ficou cheio de bolas no corpo e a garganta fechou. Mas ele tomou cortisona por seis dias e passou”, relata.

Marido de Janete foi o mais afetado pela doença. Foto: Arquivo pessoal

Após 21 dias, os dois refizeram o teste e o resultado foi negativo. Eles haviam se recuperado do vírus. Já Janete, recebeu um novo positivo. Ela continuou trancada no quarto por mais 15 dias. Uma semana depois, um novo exame. Positivo.

“Fisicamente eu não tinha nada, mas psicologicamente aquilo era destrutivo. Cada teste positivo me desesperava. Eu tinha medo de desenvolver uma pneumonia. Ou infectar alguém e ser acusada de homicídio. Não tocava em nada. Meu médico tentava me acalmar, mas a pressão me deixava muito mal”, descreve Janete.

Isolamento total

Em 26 de maio, um mês após o primeiro resultado positivo, ela foi internada. Janete passou a ser acompanhada diariamente por médicos, enfermeiras e especialistas. Porém, o principal objetivo, era impedir que ela contaminasse outras pessoas.

“Eu não tinha como abrir a porta, somente a janela. O médico vinha de manhã e à tarde. Sempre com o traje completo, tomando todas as precauções do mundo. A comida era deixada na porta e eu buscava depois. Sempre mantendo distância de quem entrava”, menciona.

Janete ficou internada no terceiro quarto, da direita para a esquerda, na janela em que a persiana está levantada. Foto: Arquivo pessoal

Após dois resultados negativos em datas diferentes, ela foi liberada para voltar para casa. Foi apenas no dia 4 de junho que ela recebeu alta. Ainda assim, este não é o caso mais longo que ela conhece.

“Fiquei sabendo de uma senhora internada na mesma estrutura que eu que já estava positiva há 90 dias. Mas mesmo tendo 83 anos ela estava bem de saúde”, diz.

Após mais de 50 dias infectada pelo novo coronavírus, Janete hoje vive normalmente. Na Itália, apesar da obrigatoriedade das máscaras, a quarentena já teve fim. Ainda assim, ela relembra o quanto o país sofreu no início da pandemia.

“Muita gente morreu, isso sem contar os que não sabemos pelos números oficiais. O que controlou a situação foi a quantidade de testes. Mas a maior preocupação em ter a doença é a incerteza. É algo novo, não temos tantos estudos. Psicologicamente, isso te deixa numa situação de muita ansiedade. É como estar perdida no mar”, diz.


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