Josué de Souza

Cientista social e professor, é autor do livro Religião, Política e Poder, pela EdiFurb.

“No primeiro ano do atual governo, o Natal é marcado por uma polêmica em torno de um filme de humor”

Colunista faz relação com o especial de Natal do grupo Porta dos Fundos com livro O Nome da Rosa, de 1983

Josué de Souza

Cientista social e professor, é autor do livro Religião, Política e Poder, pela EdiFurb.

“No primeiro ano do atual governo, o Natal é marcado por uma polêmica em torno de um filme de humor”

Colunista faz relação com o especial de Natal do grupo Porta dos Fundos com livro O Nome da Rosa, de 1983

Josué de Souza

Natal de 2019, o primeiro Natal do ano da graça de deus do governo “terrivelmente cristão”.  Sim, eu sei, neste país onde o primeiro ato do colonizador foi uma missa, a religião sempre legitimou o poder político. Mas “nunca antes na história deste país” tivemos tanta gente no primeiro escalão do governo dizendo que está lá em nome de Deus.  Pois é, no primeiro ano do governo, o Natal é marcado por uma polêmica em torno de um filme de humor.

Gosto do Natal, sempre gostei! A cena do primeiro Natal é simbólica. O Deus todo poderoso escolhe um estábulo para seu filho nascer, com pastores de ovelhas como testemunhas, uma profissão sem valor. A mensagem cristã mostra que seus seguidores devem ser comprometidos com os empobrecidos, excluídos, fracos e doentes.

É inevitável a relação entre a polêmica em torno do especial de Natal do Grupo Portas dos Fundos e o clássico da literatura mundial “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco (1983). O livro é um romance policial sobre uma série de assassinatos ocorridos em um mosteiro. Um monge franciscano, Guilherme de Baskerville, é chamado para solucionar o caso.  De pano de fundo, desenvolve-se o debate em torno da proibição do riso.

Um velho monge e bibliotecário Jorge de Burgos, tenta restringir e proibir o acesso a livros e obras que provocam a risos, definido por ele como que define o riso como fonte de dúvida e pecado. Entre as vítimas assassinadas, a primeira delas é um ilustrador Adelmo de Otranto, assassinado porque seus desenhos provocavam o riso.

“Ouvi pessoas que riam de coisas risíveis e lembrei-lhes um dos princípios de nossa regra. E como disse o salmista, se o monge deve abster-se de boas conversas pelo voto de silêncio, por muito maior razão deve subtrair-se às más conversas”, justificou seu assassino.

O livro de Umberto Eco é ambientado no ano de 1327, período de desintegração do feudalismo e formação do capitalismo na Europa Ocidental. O surgimento do que hoje conhecemos como modernidade. O período marcou diversas transformações, econômicas, sociais, culturais, entre elas religiosas, representadas através da reforma protestante desencadeada por Martinho Lutero na Alemanha em 1517.

Essas transformações levaram os valores de liberdade de expressão, a separação entre igreja e estado, e o racionalismo como forma de explicação da realidade.

No natal de 2019, os Jorge de Burgos fogem do incêndio da biblioteca, e moribundos ameaçam censurar a o riso, a arte, a ciência e o conhecimento.

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