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Conheça a história do bordado e como esta arte influenciou as práticas na Colônia Blumenau

Foto de capa: o nome da artista que criou este risco é Margot Nöring, de Blumenau. Margot faz esta arte há aproximadamente 70 anos, e até os dias atuais trabalha com bordados e cria “riscos”.

Há algum tempo observamos a existência de uma arte ancestral em Blumenau, entre as famílias tradicionais de toda a região e que teve sua história pretérita ligada à colônia por meio de seus pioneiros. Ainda presente dentro dos clubes de mães, artesanato, trajes históricos das várias regiões da Alemanha, enxoval atual e antigo, e decorações. Percebemos que há algo meio vago, quanto à verdadeira origem desta prática cultural – a arte do bordado – die Kunst des Stickens.

Afinal, qual é a origem e quais são as principais técnicas de bordados desenvolvidas dentro da cultura pioneira, na cidade de Blumenau e região, da antiga Colônia Blumenau?

A arte do bordado remonta a uma longa história, no âmbito dos vários períodos históricos, desde a Antiguidade. Achados arqueológicos mostram que já existiam tecidos bordados em 5000 a.C. Foram encontradas roupas bordadas em várias regiões, como Egito, China e América do Sul.

Nos primórdios, o bordado retratava figuras geométricas; depois, um pouco antes de Cristo e mais tarde, assumiu importância como símbolo religioso. Só tempos depois as peças de vestuário e objetos foram embelezadas com representações figurativas e imagens inteiras, somente como adorno. Fios de ouro, fitas e pérolas também foram usados para refinamento das peças acabadas.

Decorar roupas ganhou popularidade entre os povos, ao longo da história da civilização. Bordados nobres foram encontrados nas vestes e mantos dos cônsules, tribunos e imperadores romanos. Quando convertidos ao cristianismo, foram responsáveis por disseminá-los pela Europa. Na Idade Média, os mosteiros também usavam bordados para produzir paramentos litúrgicos ou para refinar tecidos usados em salas de igrejas.

Martírio de Santa Catarina – Data: cerca de 1200 – Lugar de origem: Renânia, Alemanha. Material: seda com linho. Fonte da imagem: Metropolitan Museum of Art.
Detalhe da figura anterior – Data do Bordado – mais ou menos ano de 1200.
Detalhe da figura anterior – Data do Bordado – mais ou menos ano de 1200.

Ao longo da história, predominantemente, os tecidos bordados sempre foram considerados um sinal de riqueza e poder. Bordar demandava muito tempo e dinheiro, e o ofício era um privilégio acessível somente à população abastada ou para fins religiosos, o que, de certa maneira, também reporta ao poder. As mulheres da aristocracia tinham acesso a este aprendizado através de parte de sua educação refinada, já na infância. Depois, a prática foi adotada dentro de outras famílias, onde as meninas também passaram a ter acesso a essa educação inspirada nas famílias nobres e burguesas, ao longo do processo de uso do bordado no Ocidente. No Oriente, o uso era bem mais antigo e também tinha as mesmas características sociais do Ocidente, em recortes de tempo diferentes.

O que é bordado?

Pano bordado em 1735, com o uso do ponto cruz – Fonte: Wikipédia.
Trabalho iniciado pela blumenauense Rosita Zeplin – Blumenau, 2023.

O bordado é uma técnica de decorar tecidos ou outros materiais, com diferentes finalidades ao longo da história da civilização, nos diferentes lugares do planeta, em tempos diferentes, usando uma agulha para aplicar linhas ou fios.

O bordado também pode incorporar outros materiais, como miçangas, pérolas, penas e lantejoulas.

Nos tempos atuais, o bordado é comercialmente usado em bonés, chapéus, casacos, cobertores, camisas, jeans, vestidos, meias e camisas de golfe. Ainda contamos com a tradição da arte em enxovais, presentes personalizados, na prática trazida pelos pioneiros que fundaram inúmeras cidades na região da antiga Colônia Blumenau e também no Brasil. Existem na região e ainda são feitos por mão habilidosas. Estão disponíveis com o uso de uma variedade de tipos de linha e de cores. Existem várias técnicas de bordado.

A história do Bordado

A história do bordado é baseada em uma técnica milenar para criar ornamentação em tecidos. Teve diferentes funções ao longo da história da civilização. A arte e o vestuário estão intimamente associados ao bordado e à tecelagem.

Origem

Bordado Egípcio. Fragmento têxtil com desenho entrelaçado, séculos XI-XII, Egito linho e seda Kelsey. Fonte: Museum of Archaeology.

A questão da origem do bordado foi discutida não apenas sob o ponto de vista histórico, mas também técnico. É quase certo que o berço do bordado está na China, onde a tecelagem era praticada já há 3000 a.C. O tecido bordado ou fragmento de tecido mais antigo vem da Dinastia Shang (1556-1051 a.C.).

Portanto, a técnica do bordado era conhecida pelos chineses, desde a Antiguidade. Também era conhecido e usado pelos povos indígenas americanos e pelos egípcios. A partir de seus desenhos ornamentais, seus motivos se limitavam a figuras geométricas.
Segundo depoimentos de especialistas, é puramente especulativo como o bordado chegou à nossa região.

[…] só poderia ser produzida numa área que, pelo seu peso político, criasse as condições econômicas necessárias para a prática do trabalho manual e, sobretudo, para o desenvolvimento da realização criativa.

Agulhas ósseas, Engen. Alto paleolítico. Foto: Axel Killian.

O bordado existe na região em que hoje se encontra a Alemanha, Heimat dos pioneiros da Colônia Blumenau, desde cerca de 600 a.C. Museus da pré-história e história antiga testemunham que as agulhas com orelhas já eram usadas na Idade do Gelo, e que as pessoas no Paleolítico usavam agulhas feitas de madeira, osso ou chifre e, depois, de bronze ou cobre.

Embrião da casa enxaimel construída na Alemanha, pelos pioneiros da agricultura e do pastoreio na região da Europa Central. WITTMANN, 2019.

 

 

Constantemente em movimento – o Paleolítico e o Mesolítico – a 5500 a.C., no clima rigoroso da Idade do Gelo, caçadores-coletores paleolíticos seguiram as rotas migratórias de cavalos selvagens e rebanhos de renas. Seu modo de vida móvel quase não deixou vestígios no solo. Poucos acampamentos de caça evidenciam seus hábitos. A arte desempenhou um papel importante para as pessoas, e é demonstrada nas figuras femininas perto de Engen em Hegau. São as obras de arte mais antigas do Sul de Baden. Após o fim da última Era Glacial, a vegetação mudou. Devido ao clima mais quente, uma densa área de floresta se desenvolveu na Europa Central. Como resultado, as culturas agrícolas do Oriente se espalharam neste país e os caçadores da Idade do Gelo desapareceram. A primeira e grande revolução do homem, que também deixou de vestir couro e passou a vestir tecidos e se fixou no solo construindo seus primeiros abrigos. Do Oriente, também chegou a arte de bordar.

Cristianismo

Coptas no Egito.

O avanço do cristianismo pode ser visto como um período especial para o desenvolvimento da arte têxtil: os coptas (cristãos no Egito) enterravam seus mortos em mantos tecidos e bordados, que, graças à areia seca do deserto, ainda hoje são achados bem preservados. A Antuérpia abriga uma das maiores e mais importantes coleções de tecidos coptas do mundo. Delicados tesouros de tecidos bordados com caligrafia árabe testemunham a história do Egito, a presença dos romanos e a influência da fé islâmica.

Resquícios da presença dos cristãos no Egito – os Coptas.

O fato de a tecelagem e o bordado copta também terem influenciado a arte nos séculos seguintes pode ser visto nas obras de Matisse e Picasso, bem como na arte cubista, onde os ornamentos da época podem ser encontrados novamente em forma abstrata.

Os coptas ou coptos (em copta: ⲟⲩⲣⲉⲙ’ⲛⲭⲏⲙⲓ ‘ⲛ’Ⲭⲣⲏⲥⲧⲓ’ⲁⲛⲟⲥ são egípcios cujos ancestrais abraçaram o cristianismo no século I. Formam um dos principais grupos etno-religiosos do país.

Religioso copta brasileiro, Padre Kelmon – Brasil.

A palavra “copta” foi usada originalmente no árabe clássico, para se referir aos egípcios em geral, porém passou por uma mudança semântica ao longo dos séculos. Passou a se referir mais especificamente aos cristãos egípcios depois que a maior parte desta população se converteu ao Islã (após o século VII). Atualmente, o termo é principalmente aplicado aos membros da Igreja Ortodoxa Copta, independentemente de sua origem étnica. Para ilustrar, é a linha religiosa do Padre Kelmon, no Brasil.

A túnica de lã copta com trama de tapeçaria (1,54 cm de altura e 104,01 cm de largura) é mantida no Metropolitan Museum, em Nova York. Data do século VI-VII – época da ocupação árabe. Fonte: Metropolitan Museum de Nova York.
Bordado egípcio dos coptas.

O período copta é apenas parte da história da arte egípcia, depois que a cidade de Alexandria foi fundada por Alexandre, o Grande. A partir do século IV, dominou a cultura greco-helenística (332-30 a.C.) e, em seguida, o império mundial romano (30 a.C.-395 d.C.), que se espalhou pela Europa a partir do grande Império, como já mencionado. Entre os séculos IV e VII (395-640) governaram os bizantinos, depois vieram os árabes (638-644), que pertenciam à área cultural islâmica. Todas essas culturas contribuíram para o desenvolvimento do bordado e trouxeram mudanças com suas diferentes habilidades em motivos e técnicas. Os achados funerários egípcios tardios testemunham a arte assíria de bordar roupas magníficas, os bordados coloridos dos babilônios, e as roupas de linho bordadas de cores, dos frígios que habitavam o Noroeste da Ásia Menor. Os gregos e os romanos os viam como os inventores do bordado, de onde vem o termo opus phrygium. Mas não confere.

Museu Ashmolean, Universidade de Oxford – parte frontal de uma túnica copta com motivos geométricos e pássaros bordados com seda colorido em tecido de linho.

Naquela época, o tecido de lã era a base, e os fios de linho ou fios de lã retorcidos eram usados para ponto de corrente e haste. Os achados da China ou da Índia falam de uma arte de bordar muito desenvolvida, em que já se trabalhavam pontos de corrente na seda, muito antes dos cristãos. Costura sofisticada de crina em vários tipos de tecido, sem falar no feltro, foi encontrada nas montanhas siberianas de Altai.

A peça da fotografia é uma tapeçaria chinesa da antiguidade, bordada à mão com fios de ouro. A peça se encontra em perfeitas condições, sem danos no tecido e no bordado. As manchas são reflexos, pois esta está emoldurado e com vidro na frente. Trata-se de uma peça rara e foi originalmente adquirida pela loja de antiguidades “Joseph Willimann S.A.” de Lucerne – Suíça. Dimensão 1,15 x 057 cm. Fonte: Ricardo.

Detalhes da peça anterior

Muitos dos pontos usados na peça são conhecidos hoje no Ocidente, até os dias atuais.
Várias técnicas de bordados em uma mesma peça.
Há a presença de pontos usados pelas mulheres pioneiras do Vale do Itajaí em seus ricos enxovais, e adotados até hoje em seus grupos de amigas. A técnica da Pintura de Agulha – Nadelmalerei.

Bordado local da Colônia Blumenau sobre um Wandschoner – Pano de parede. Fonte: WITTMANN, 2022.

Bordado – Símbolo de Riqueza e Poder

Na região mediterrânea, a base do bordado (de seda) foi lançada pelos árabes que ali se estabeleceram e adotada pelos gregos. O bordado de seda permaneceu como importante ramo de produção na Itália, após a conquista da Grécia (com adoção das práticas artísticas gregas – do bordado à arquitetura) até os tempos modernos – e que foi difundida pelos romanos durante seu Grande Império, em grande parte do território europeu (na região territorial da Alemanha também – de onde veio o bordado para a região do Vale do Itajaí). Fantástico.

Bordado local da Colônia Blumenau sobre um Wandschoner – Pano de parede. Fonte: WITTMANN, 2022.

O testemunho mais importante deste tempo, na Itália, é representado pelo manto de coroação de Roger II (1113-1154) feito na oficina da corte em Palermo. É uma prova da época – em torno de 1171, quando os normandos (vikings originais) conquistaram a Sicília e deixaram os árabes que viviam no local, trabalharem em Tiraz (oficinas reais). Salvos pela arte do bordado.

Detalhes do bordado do manto real de Roger II – Motivos orientais

Manto real de Roger II, com uma inscrição em árabe com a data Hijrah de 528 (1133-1134). Tesouro Imperial, Viena, no Palácio Hofburg.
Material – seda estampada (tinta de quermes), bordado em ouro e seda, pérolas, ouro com esmalte cloisonné, pedras preciosas. Altura de 146 cm, largura de 345 cm. Fonte Wikipédia.

Detalhes do manto real

Guilda dos Alfaiates na Idade Média. Fonte: Berufe-Enzyklopädie.

Esta herança bordada, com 11 kg de miçangas e outras preciosidades, pode ser vista no Tesouro Real de Viena.
A independência política de Florença, Gênova, Pisa, Siena e Veneza, a partir do século XIV, viabilizou o desenvolvimento do efervescente comércio e, a partir deste, houve inovações técnicas e estilísticas no território italiano. Os séculos XIII e XIV tiveram uma grande influência no desenvolvimento do bordado. Curiosamente, a atividade de bordar envolve a política das guildas, que organizavam artes e ofícios nas cidades, na época. Funcionava assim: se as bordadeiras registrassem sua residência na cidade e também seu ofício, podiam trabalhar como artistas freelancers; caso contrário, eram designadas para a Guilda de Alfaiates ou pintores, o que significava que também estavam localizadas entre os artesãos que atendiam a elite dessa cidade. As oficinas da corte e do mosteiro também recebiam encomendas de bordados, nessa época, e a influência dos conventos na prática e disseminação do bordado teve relevante papel.
A expressão ora et labora (rezar e trabalhar) estava alinhada às regras monásticas. As vidraças e os bordados de pintor tecnicamente desenvolvidos eram também feitos por um grande número de “ajudantes leigos”, pois as ordens de reis e príncipes – especialmente as dos Condes de Borgonha – eram tantas e exigentes que, se os mosteiros não pudessem cumprir suas solicitações, as cortes dos príncipes governantes adotavam seus próprios motivos e símbolos.

Whitework.

Os bordados eram feitos com seda colorida em ponto, dividido sobre fundo dourado, e os motivos eram, muitas vezes, inspirados em pintores conhecidos e famosos, como Giotto (1337) ou Botticelli (1445-1510).

Os príncipes de Borgonha tinham almofadas de seda e uma tenda de cetim feitas com os brasões de todos os países que pertenciam à Borgonha, com seu lema bordado. As técnicas de bordado, nessa época, eram diversas. As mais conhecidas são: ponto claustro, ponto bruxa, ponto plano, ponto cruz e ponto sobreposição com lã ou seda colorida; ponto folha, ponto corrente, ponto festão com fio de linho, e muitos pontos acima e abaixo com ouro fio.

Whitework, conhecido bordado com seda colorida e miçangas em linho, pontos planos offset e técnicas de alimentação de ouro e prata foram usadas tanto no Norte da Europa, quanto da Sicília para a Inglaterra do final do século XV.

Roupas íntimas de enxovais das moças da sociedade com bordados de diversas técnicas.

Nesse tempo, o bordado europeu atingiu seu auge. O bordado em relevo já estava no seu auge. Com esta técnica, os motivos eram previamente forrados com arame, papel, tecido ou mesmo marfim; os espaços entre eles eram realçados com fio de ouro na técnica do alimentador afundado e, não raro, estes eram decorados com pérolas verdadeiras.

O bordado de seda foi o primeiro ramo do comércio de seda na Europa Central, no século XIV, antes da fiação e tecelagem de seda, bem como do tingimento de seda. Só então Londres, Paris e algumas cidades holandesas e alemãs se tornaram importantes centros de produção e comércio de produtos de seda, ao norte dos Alpes.
Idade Média – bordadeiras.

As figuras eram muitas vezes “modeladas de fibras vegetais, envoltas com fios de linho, cobertas com tafetá de seda e depois bordadas com fios de seda coloridos, ouro e prata”.
O bordado em relevo foi criado pelo desejo gótico de expressividade e naturalismo plástico, mas a beleza do bordado à mão dos séculos passados não foi mais alcançada.

Influência Oriental na Europa

Por meio do comércio da Inglaterra com os países orientais, a influência dos países otomanos e árabes se tornou visível também na arte do bordado. Os mauresques, arte dos mouros, foram usadas nos motivos. Como é sabido, “o Islã proíbe seus crentes de retratar pessoas e animais para fins decorativos. Desenvolveram-se, assim, linhas e formas abstratas, entrelaçadas, que já não tinham qualquer referência floral.”

Fonte: Museunsportal Berlin.
Fonte: Museunsportal Berlin.

Os maurescos desenvolveram-se no quadro da ornamentação renascentista e os arabescos surgiram das máscaras e meias-figuras incorporadas.
A porta de entrada europeia para a arte islâmica era a cidade de Veneza, onde o acúmulo de riqueza da nova classe que surgia (comerciantes e banqueiros), o novo estilo de arte, a escala descera dos “céus” (catedrais) para a escala do homem (artes e universidades) – sob a ótica do renascimento – a arte e a cultura atingiram um pico grandioso para as pessoas e não mais somente para a igreja e a nobreza, como era comum na Idade Média.
Nesse tempo, a técnica do bordado em lã, seda e linho tornou-se cada vez mais perfeita, e à medida que a procura crescia, devido ao crescente acúmulo de riquezas, muitas bordadeiras ganharam grande reputação. Algumas até gozando de uma relação de confiança com membros da nobreza.

Ano de 1620- Blackwork Jacket, Museu da Rainha Victoria & Albert. Fonte: Costume Antique.
Bordados dos anos 1516, 1527 e 1530. Fonte: Costume Antique.
1533, Hans Holbein dJ – Die Gesandten. Renascimento de ideais antigos. O foco agora estava na personalidade humana. A burguesia era agora uma potência dirigente, econômica e politicamente, e com isto também faziam uso da arte do bordado. Fonte: Costume Antique.

Os bordados deste período receberam ainda mais requinte. Surgiram como decorações arrebatadoras; motivos imaginativos eram frequentemente executados em pontos corridos e planos; técnicas de apliques foram inventadas e, mais recentemente, foram usados seda preta sobre fio dourado, subjacente na técnica de ponto cruz. Bordados de tapeçaria, enfeites e muitos bordados simbólicos também experimentaram um ponto alto no uso doméstico de todos aqueles que poderiam adquiri-lo.
Desde o início do século XVI, quando a impressão de livros foi inventada, tanto os bordadores de arte e seda, quanto os leigos, tiraram novas ideias de inúmeros livros de modelos que propagavam a arte através do “risco”. Atualmente, esses livros de modelos são históricos documentos sobre o desenvolvimento secular da arte do bordado.

Tirado de uma revista publicada com moldes para bordar – década de 1950.
Mary Cornwallis, Condessa de Bath, 1575. Vestido com mangas delicadas com apliques e bordados, e também a saia e o corpete.

Os bordados cruzados na Alemanha (origem romana – abaixo explicado), os estilos mouriscos na Itália e os bordados em metal tornaram-se cada vez mais populares e foram usados para móveis, roupas de cama, toalhas, aparadores ou dossel de cama. Forneceram aos quartos da nobreza e da burguesia um “caráter caseiro e ao mesmo tempo representativo. Desta forma, o bordado é também uma expressão visível da importância econômica e da riqueza desta classe, que ao mesmo tempo foi o portador cultural da sua época.”
A moda espanhola também deve ser mencionada, na qual grande importância foi dada à aparência pessoal. Guarnições de camisas primorosamente bordadas, lenços de peito, aventais e véus com pedras preciosas e pérolas, mangas decoradas, corpetes e casacos curtos são testemunho desta moda, no século XVI.

Arte de excelência e nobre

Sobre os bordados ingleses dos séculos XVI e XVII – denominados bordados elizabetanos – relacionados à rainha Isabel I (1558-1603) é importante destacar que em nenhum momento, antes ou depois, “o traje secular na Inglaterra foi tão decorado com bordados, do que naquela época. ”

Os bordados riquíssimos trabalhados com seda colorida e fios de ouro e prata. Motivos com um significado mais profundo para as pessoas no século XVI são frequentemente encontrados. Elizabeth I no final da década de 1590. Fonte: Epochs of Fashion.

A nobre arte do bordado e o cuidado especial com que os objetos de valor eram fixados em mantas, cortinas, baldaquinos e toalhas de mesa podem ser vistos nos registros catalográficos da época e testemunham uma riqueza de motivos e grande habilidade técnica, muito além de abranger somente o enxoval das moças de família que pessoas da atualidade imaginam. Eram obras de arte de fato. Os motivos típicos de animais e plantas foram usados como modelos em livros famosos, como o de Thomas Trevelyon (1608) ou o livro-modelo de Johannes Siebmacher (1597) – Schön Neues Modelbuch – conhecidos nos países de língua alemã.

Motivos – “riscos” de bordados do livro de Thomas Trevelyon (1608).
Do livro “Schön Neues Modelbuch” – Johannes Siebmacher (1597).
Ponto cruz.

Nos primeiros livros que mencionavam as técnicas dos pontos de bordados, predominava o ponto cruz. No Renascimento, predominava a ornamentação com figuras populares da mitologia. Durante o período barroco, os livros de bordados voltaram a adaptar-se ao gosto da época e ofereciam moldes para flores e todo tipo de objetos que deviam ser desenhados nos tecidos. Bordados de linho, pontos de claustro ou bruxa, pontos de espinha de peixe, pontos de urdidura e recortados abertos, pontos planos e de haste, nó francês e pontos divididos e trabalho de alimentador são apenas algumas das técnicas usadas na época. As tapeçarias de camas de aparato, antepêndios ou capas de batizado com brasões, placas de caixão e panos batismais, confeccionados em materiais de beleza ímpar e caros sob vários aspectos, como a seda, o tafetá, o brocado, o linho, culminavam com o apogeu da gravura bordada.

Trabalho em Branco

Trabalho em Branco

Nessa época renascentista, também estava na moda o Whitework, que evoluiu do Piquetwork. Poderíamos dizer que, na verdade, era uma imitação de renda. Isso então evoluiu para o “Bordado Dresden” ou Point de Saxe e as variantes posteriores bem conhecidas, como Ilhós e Bordado Madeira.

No grupo de Whitework também estão os bordados recortados, como o Richelieu, em homenagem ao cardeal francês Richelieu (1585-1642). Na Suíça, o desenvolvimento do Whitework levou à criação do mundialmente famoso Bordado St. Gallner; e no Norte, o conhecido Bordado Hardanger.

O extenso bordado das figuras da Idade Média, que havia desaparecido no período Gótico Tardio e cada vez mais, no Renascimento, foi quase totalmente trocado pela decoração ornamental nos períodos Barroco e Rococó.

A França dita a moda no século XVII

No século XVII, o modo de vida, a arte e os pontos focais da corte francesa marcaram a moda em toda a Europa e fora dela. A vestimenta de gala usada em recepções e festivais era fundamental e de importância – principalmente com a presença do bordado em si. Além de Paris, Lyon era a outra cidade de indústria da seda francesa.

Indumentária com tecidos nobres bordados – França do século XVII.

De acordo com um relatório de Roland de la Platiere, 20.000 pessoas teriam sido empregadas neste setor da seda, em 1778; destas, 6.000 eram bordadeiras.
Os motivos variaram de cravos, tulipas e rosetas do sol a tiras em espiral, romãs e arabescos, bem como peônias, amores-perfeitos, cestos suspensos e treliças em um fundo pontilhado, entre outros. Seda cor de marfim, tecido de seda acetinada (atlas da urdidura), tecido de linho em trama simples, tafetá de seda manca, brocado de seda ou moiré de seda, gaze de seda e tecido de algodão.
Os tipos de bordados tornaram-se cada vez mais extensos e exigentes.
Repetidamente encontramos uma espécie de reminiscência na história da arte.
Onde o estilo anterior foi vivido ao extremo, à exuberância das formas do rococó segue-se a desilusão do classicismo.
No bordado também o classicismo se reporta à Antiguidade. Não apenas na arquitetura, mas também na arte têxtil, as flores de lótus, os louros e as pirâmides são redescobertas e, ao mesmo tempo, lembram a campanha de Napoleão no Egito.

Napoleão Bonaparte – com traje ricamente bordado.

As capas bordadas dos móveis dão uma visão adequada das diferentes opções e estilos da decoração no Classicismo e no império francês. Motivos que reportam às lendas gregas são usados em capas de petit point, arranjos de flores em bordados de seda em almofadas de encosto, bordados de chenille para telas de fogão ou pandeiros em sofás e cadeiras foram muito usados.

A técnica do Gobelin em uma almofada.

A moda feminina é apresentada de uma forma completamente nova e a cor branca domina. Os vestidos compridos, desenhados segundo os modelos gregos, eram bordados com pequenos motivos e os acessórios testemunham a variedade de decorações bordadas da época. Os padrões são inicialmente assimétricos-verticais; entre 1760 e 1780, tornam-se simétricos e são típicas gavinhas de flores, pavões flutuantes, instrumentos musicais e animais míticos, meias-figuras, arranjos de flores com trevo.

Marie Antoniette – 1780. Vestido repleto de arabescos e babados clássicos.
Retrato de Marie Antoniette, de Jean-Baptiste Gautier-Dagoty, 1775, Palácio de Versalhes, França. Foto: Getty Images.

Século XVIII, XIX até o presente

A popularidade cada vez maior do bordado, conduziu parte desta história para a Inglaterra, mais tarde para a Borgonha, quando atingiu seu verdadeiro auge. Durante algum tempo, o bordado não foi mais tão usado, por inúmeros motivos e, na era Biedermeier, foi resgatado novamente nas casas, na decoração e na indumentária das pessoas. Entre 1815 e 1848, ou seja, entre o Congresso de Viena e a Revolução Burguesa, o bordado foi retomado como uma atividade de lazer para as mulheres nobres e burguesas. Nos momentos de reuniões de família ou na hora do chá, era usado para bordar quadros, capas de cadeiras ou telas de fogo.
A história do bordado também testemunhou o desenvolvimento de técnicas especiais de executá-lo, e foram usadas para “estampar” toalhas de mesa de linho com o ponto cruz, em específico. A técnica do ponto de tapeçaria foi usada para adicionar bordados decorativos em murais e capas de almofadas. A história do bordado se estende até os dias atuais. A popularidade de embelezar tecidos, com a arte e a criatividade dos bordados, repassados de uma geração para outra, permanece até o tempo presente, com a adição de novas técnicas, sem esquecer as antigas e tradicionais.

Bordado em Wandschoner ou pano de parede bordado por Friderike Döor, Blumenau. Técnica usada – ponto cruz.

Em síntese, muitas das técnicas de bordados adotadas na Europa e depois levadas para suas colônias tiveram sua origem na China, ainda na Antiguidade. Também, o bordado já era produzido pelos povos indígenas americanos e pelos egípcios que tinham contato com o povo cristão.
O primeiro povo a adotar o bordado retratando, pela primeira vez, animais e figuras humanas, é representado pelos assírios. Bordavam tais motivos em suas roupas e em cortinas decorativas. Este povo repassou a técnica artística para os gregos e estes, dominados, foram “copiados” pelos romanos, que passaram a chamar o trabalho e a técnica de bordado.

Bordado Médio: técnica: ponto cruz em tafetá, desenho de árvores com homens assírios de pé, de perfil em ambos os lados. O desenho provavelmente é anterior ao bordado – Norte da África, século XVIII e XIX. Fonte: Alamy.

No século XI, nobres e clérigos usavam bordados para agregar valor às suas vestes. Os tecidos bordados do Oriente chegaram rapidamente à Europa como sinal de riqueza e poder. Os casacos dos imperadores alemães mostraram seu alto padrão com a presença do bordado. Na Idade Média, os mosteiros usavam bordados para decorar mantos e vestimentas. Durante a evolução da história do bordado, contatamos que o bordado à mão pode ser um processo demorado e caro. O ofício do bordado ficou, portanto, reservado às famílias abastadas e à igreja.

Tapeçaria de Bayeux-Laid threads, uma técnica de superfície feita de lã sobre linho, bordada na Idade Média, século XI. Com motivos apresentando uma variedade de animais diferentes, edifícios cerimoniais, soldados com navios cheios de munição. Esta tela monumental foi bordada em algum lugar no final do início dos séculos XI-XII e sobrevive até hoje.

Die allmächtige Amulett – O todo-poderoso amuleto – Uma das primeiras técnicas ancestrais do Vale do Itajaí – via Pomeranos

Bordado ancestral – antes da chegada do cristianismo no Norte da Alemanha e na Rússia.

Mokosh (Makosh) – era uma deusa eslava do destino – religião primitiva do Norte da Alemanha, reporta à fertilidade e centro familiar. O tempo necessário para que uma moça estivesse apta a desenvolver estes bordados na região norte, junto ao Báltico, e também na Rússia, era de somente 3 anos, e ela tinha ciência de que não era algo que fazia para si; também não era visto como um trabalho, mas sim, uma oportunidade de expressar seus pedidos e esperanças à divindade que seus ancestrais reverenciavam. O bordado tinha aspecto religioso. Esta prática se popularizou entre as pessoas, e mais moças bordavam mensagens de esperança e pedidos que os eslavos dirigiam ao seu patrono e protetor – os poderes superiores. Cada símbolo na tela tinha um significado sagrado, pois se aplicava a importantes cerimônias, crenças e costumes. Os padrões bordados para nossos ancestrais eram uma espécie de pentagrama, e cada signo – toda a história.
Assim, por exemplo, mostrando um diamante no centro de uma ponta, a bordadeira estava destacando a divindade feminina Mokosh, a Deusa do Destino, que simbolizava a unidade de seus ancestrais, riqueza, terra, conforto do lar e bem-estar.

Antigo bordado superior eslavo em roupas; talvez o talismã mais forte fosse o ponto cruz. A cruz – um símbolo do poder dos quatro elementos, mãos estendidas defendendo contra as forças das trevas que amam o feminino e o masculino. A amante habilidosa sabia bordar bem a cruz; isso significa que o destino lhe era favorável. O primeiro ponto necessariamente sobreposto à esquerda, revela o feminino, o poder protetor materno; o segundo, à direita, é chamado à virilidade. Quando a bordadeira quis criar não apenas um amuleto forte e poderoso, tentou fazer todo o trabalho de uma vez – no intervalo do nascer ao pôr do sol. Nossos ancestrais dos povos eslavos valorizavam os menores detalhes e, para estas bordadeiras, o bordado não era um ofício fácil de diversão e recreação – era sagrado.

Técnicas de Bordado

Ao longo da história do bordado, dependendo do local e da cultura, e também do período histórico, foram muitas as técnicas adotadas nesta arte. Mostramos algumas principais, que têm ligação com a história do bordado na região da Colônia Blumenau, que teve sua origem na Alemanha e na Itália, predominantemente.

A história do ponto cruz – Kreuzstich

Imperador Constantino tendo a visão no céu.

Esta técnica envolve bordar pequenas cruzes em um tecido contável. Primeiro, é feito um ponto diagonal, depois um segundo em um ângulo de 90 graus com ele. Se você bordar várias cruzes seguidas, primeiro borde todos os pontos inferiores um ao lado do outro, e depois os pontos superiores na carreira de trás sobre eles.

Constantino e Elena.

A história do ponto cruz tem ligação com o cristianismo e sua história/conversão. Esta é complementada com uma antiga lenda do imperador Constantino, muito comum e conhecida na Alemanha.
Pensando em seu futuro destino, contam que o imperador Constantino, de repente, teve uma visão no céu da imagem de uma cruz e a inscrição Sim erobern inscrita por uma força invisível. O imperador, imediatamente, interpretou o significado da visão como uma mensagem de poder superior e fez esta marca, um símbolo de seu emblema pessoal e a colocou no lugar da águia, que até então ostentava em seu estandarte. Quando derrotou seu inimigo em batalha, na ponte de Milviana, Constantino se convenceu do poder do Deus Cristão, e proibiu a perseguição aos apóstolos, ordenando ser obrigatório o uso do símbolo que adotou, a cruz, em todas as celebrações cerimoniais, inclusive na decoração das roupas. As vestes do clero foram autorizadas a receber o bordado da cruz. Nessa época, os seguidores do cristianismo – residentes dos mosteiros – se autodenominavam “noivas de Cristo” e, portanto, deveriam bordar suas vestimentas com a cruz, dando origem ao ponto cruz e, a partir deste, a outros pontos também.

Bordado de Igreja

Bordado com a imagem de uma pomba, com motivo religioso e representando o perdão de Deus a partir da inciativa e imposição do imperador Constantino, que, ao criar o símbolo da cruz, tornou-se um ícone religioso dos cristãos, que perdura até os dias atuais. Os bordados adornaram não apenas as roupas dos sacerdotes, mas também, a decoração do púlpito, o altar. No templo surgiram símbolos especiais, cujo valor representava a pureza e o amor, renascimento e ressurreição. Por exemplo, o símbolo do infinito, uma vida justa para os verdadeiros cristãos, era representada na flor que brotou das lágrimas de Eva quando deixou o paraíso – eram lírios da Páscoa ou narcisos. O valor do bordado representando uma pomba é tratado como “o perdão dos nossos pecados” – a ressurreição de uma alma perdida.
Com o tempo, as bordadeiras começaram a bordar imagens – é assim que a palavra é traduzida do grego “símbolo”. Provavelmente, o que desencadeou o surgimento da arte dos bordados foi a necessidade de mobilidade dos soldados (Cruzados) e sacerdotes do cristianismo, em que cada um dos grupos assumiram símbolos próprios e diferentes uns dos outros, onde cada um assumiu o símbolo de sua Campanha Militar.

O Bordado Eclesiástico, embora retendo todos os cânones rigorosos e a tradição de seu fazer, era maravilhoso, mas, definitivamente, não era uma tarefa fácil. Era muito trabalhoso e penoso para as noviças e freiras. Quando iniciavam um trabalho de bordado, borrifavam água benta e usavam apenas costura facial, ou seja, toda vez que a agulha furava o tecido, elas sussurravam: “Meu Senhor”, e quando a agulha voltava de dentro para fora, diziam: “Tem piedade”. Acreditavam que só nestas condições é que o bordado adquiria valor santo e desejado de bem-aventurança que um símbolo religioso e de fé deveria conferir aos verdadeiros cristãos e devotos. As roupas bordadas assim, tinham em si, então, conteúdo de ícones sagrados. Lembrando que isto acontecia na época/cenário do livro escrito por Humberto Eco – Em Nome da Rosa.

Bordado de Ouro – Goldstickerei

Ao lado do Bordado de Pérolas, o Bordado de Ouro é a forma mais rica de bordado. Fios de ouro são usados para aplicar ornamentos em um suporte têxtil. É usado principalmente para a produção de enfeites e para paramentos litúrgicos (ao lado).

Bordado com fio de ouro – alto relevo.

 

 

 

 

 

 

Bargello ou Bordado Florentino

Bargello, também chamado de Bordado Florentino, Point d’Hongrie, ponto irlandês ou ponto chama. Bordado que cobre toda a área, no qual os pontos são guiados paralelamente à fibra em dois a cinco fios transversais. Deslocar levemente os pontos cria padrões abstratos em ziguezague ou curvas. O registro mais antigo deste bordado foi encontrado em cadeiras do século XVII, pertencentes ao Museo nazionale del Bargello, que formalmente emprestou o nome à técnica.

Kilim

O ponto Kilim e seu derivado, o ponto haste, formam padrões que parecem tricotados. O design do ponto Kilim apresenta nervuras horizontais; o do ponto haste, verticais. Ambos os padrões são feitos de carreiras de pontos diagonais, com os pontos indo em direções opostas em carreiras alternadas. Com o ponto haste, os pespontos são feitos entre as fileiras de pontos Kilim. Ambos os pontos são adequados para áreas de padrões grandes e pequenos.

Bordado Kilim de Eliana Pacheco, Blumenau.

Gobelin

A antiga Casa Meyer – Rua XV de Novembro, Blumenau.

O Bordado Gobelin é uma imitação de tapeçaria, cujo nome vem da manufatura Gobelin. Em contraste com a técnica de tricô/tapeçaria – Wirktechnik – que cria áreas coloridas inserindo fios de trama de cores diferentes nos fios tensos da urdidura, no Bordado Gobelin, os retículos do material de suporte, tecido, recebem bordados diagonalmente com linhas de bordar coloridas. A definição do motivo é delineada a partir da combinação hábil de pontos com poucos tons de cor. É usado em murais, almofadas e outras peças decorativas. É usual, para este bordado, efetuar telas especiais comuns em tapeçaria e linha de bordar de pura lã.

Existem kits de bordado especialmente preparados, em lojas especializadas, que contêm tanto a tela, na qual o motivo da imagem já pode ser impresso, quanto a linha de bordar, tal qual eram produzidos para outra técnica de bordar oferecida pela conhecida Casa Meyer de Blumenau. Mais detalhes na sequência.

Bordado Gobelin de Cristiane Hirt, Blumenau.
Bordado Gobelin de Eliana Pacheco, Blumenau.
Bolsa feita com tecido com Bordado Gobelin.

Ponto de tapeçaria: com a técnica de bordado muito simples, também conhecida como meio ponto de cruz, a área do motivo é totalmente bordada no material de suporte, com os retículos sempre na diagonal na mesma direção. A qualidade do acabamento manual fica evidente na uniformidade dos pontos, que cobrem totalmente o forro.

Em tempos passados, no Vale do Itajaí era muito encontrado em casas de famílias mais abastadas. Encontramos um exemplar na casa da família de Ralf Krüger, em Trombudo Central, Alto Vale do Itajaí e o fotografamos – ver abaixo.

Aparente tapeçaria, que na verdade é um bordado com ponto Gobelin pendurada na parede do Krüger Haus, Trombudo Central – Alto Vale do Itajaí, que ilustra o cotidiano da vida privada de uma família da Alemanha do século XVIII/XIX.

Observando o ambiente retratado no Bordado Gobelin, refletimos de como este veio para o interior da Colônia Blumenau – qual seria sua história?

Esta maneira de usar o Bordado Gobelin, em forma de tapeçaria, floresceu na Europa durante a Idade Média devido, por um lado à abundância de lã e, por outro, pela quantidade de mão de obra disponível, embora já fosse usada pelos gregos e romanos, na Antiguidade.

Na França, despontou seu uso durante o Renascimento, e no século que se seguiu a este movimento artístico-cultural. Alcançou sua maior expressão no reinado francês de Luís XIV – copiado em toda a Europa, principalmente na famosa manufatura dos Gobelins – como esta peça de Trombudo Central.

As obras criadas pelos Gobelins se converteram em peças clássicas e de arte.

Quadro bordado com ponto Gobelin, localizado na residência de Ralf Krüger em Trombudo Central-SC – Alto Vale do Itajaí.

Pintura de Agulha – Nadelmalerei – nome da técnica dos bordados comercializados na Casa Meyer – Blumenau

Bordado assim nomeado, porque faz uso de vários tons de cores dentro de um mesmo motivo, aludindo ao efeito possível em uma pintura – pintura de agulha quando são criadas transições de cores nas representações que lembram quadros pintados. Na pintura com agulha, os pontos acetinados são costurados e matizados em tons de cores finas. Os pontos são ajustados firmemente, e sua direção segue a forma do padrão escolhido. A pintura com agulha é frequentemente combinada com pontos de haste, pontos divididos e pontos de nó francês.

Seda não torcida e ligeiramente torcida é usada como linha neste bordado. No entanto, lã, chenille ou fio fiado também, em alguns casos, podem ser usados.

Este é o bordado adotado pela tradicional Casa Meyer de Blumenau para comercializar nos anos em que atendia na Rua XV de Novembro. Como casas comerciais semelhantes existentes na Europa, fornecia aos seus clientes a base do tecido, com o “risco” do motivo, e as cores das linhas e quantidades devidamente marcadas no “risco”. Registramos este Kit de Nadelmalerei em janeiro de 2023, na residência de Rosita Zeplin.

O bordado Pintura de Agulha – Nadelmalerei – é muito tradicional na região de Blumenau e foi uma das práticas artísticas trazidas pelas famílias pioneiras, em que as moças bordavam, além de seus vestidos tradicionais, comuns no Norte da Alemanha, também peças decorativas da casa, como roupas de cama e toalhas.

No vídeo abaixo, Rosita Zeplin mostrando um pouco sobre o bordado.

Bordados na residência Zeplin

Esta peça bordada por Rosita Zeplin, com a técnica Nadelmalerei, tem mais de 60 anos.


Uma série de kits prontos para bordar, com tecido, “risco” e linhas de acordo com o desenho.

Outros bordados que registramos, feitos com a técnica Nadelmalerei

Vestido de traje do Norte da Alemanha.
Traje masculino do Sul da Alemanha. Heliomar Schwambach do Espírito Santo, residente na região idealizou e confeccionou.

Toalha bordada pela avó de Bettina Staudinger – Lüderwald Aichinger – Ibirama-SC. Antiga Colônia Blumenau.
Clube de Mães – Feira da Amizade – Blumenau SC.

Bordado Ajour – Ajour-Stickerei

O Bordado Ajour é um bordado em que os fios de tecido soltos são puxados juntamente com um fio, criando aberturas. As bordas não precisam ser arrumadas, pois são conseguidas, quando puxados os fios juntos. Diferentes tipos de abertura podem ser obtidos com diferentes variações de pontos, que podem ser preenchidos com outros pontos de renda. Exemplos famosos desse tipo de bordado foram as rendas de Dresden e os bordados Ayrshire da Escócia. Bordados clássicos são bordados feitos monocromáticos – branco.

Richelieu

Um tipo de trabalho branco – Whitework, que ainda é popular atualmente e é conhecido como Richelieu ou Bordado de Decote. A linha de borda ou a borda do buraco é bordada com um ponto recortado (também chamado de languette ou ponto de laço). O tecido pode então ser cuidadosamente cortado sob a borda do ponto recortado na borda externa ou no orifício. Este bordado recebeu o nome do cardeal Richelieu, que o apresentou como um substituto mais barato para elaboradas rendas de agulha.

Bordado Hardanger

A técnica de Bordado Hardanger é nova e especial; se fosse na arquitetura, se diria eclética, pois envolve a somatória de outras duas ou três técnicas distintas, utilizando o ponto cruz, Richelieu e Ajour, entre outras.

Bordado Sashiko

Técnica decorativa japonesa a partir desta técnica de bordado.

 

 

 

 

 

 

Trabalho de pena – Quillwork

Quillwork é uma técnica ornamental usada pelos nativos americanos.

Bordado Maiorquino

Composição mista de bordado e crochê, onde alguns pontos de corrente são feitos na área de bordar com uma agulha de crochê. Podem ser feitas duas carreiras de crochê com uma pequena distância entre si, que depois será preenchida com linhas de ponto corrente para fixá-las.

O material de bordado

A linha-fio

As linhas-fios são especiais para este fim – bordar. As mais comuns na atualidade, são fio de bordar e fio de pérolas. A linha de bordar tem 6 camadas e também pode ser dividida em fios mais finos para bordados com detalhes finos e delicados. O fio pérola é indivisível, mas é brilhante e tem uma superfície mais lisa. Mas outros materiais também podem ser usados para bordar e foram amplamente usados nos séculos passados, como, por exemplo, filamentos de seda, fios de seda torcidos, fitas de seda estreitas, fios de lã, fios de algodão (costura) ou fios de efeito como chenille.

Agulhas de bordar

A agulha é a ferramenta mais importante e elementar para o bordado. Uma agulha de costura ou, bordado é, geralmente, um alfinete de metal de formato especial com um olho ou um gancho integrado para que possa ser usado para perfurar o tecido, conduzindo a fio-linha. As agulhas são fornecidas com uma ou duas pontas. A linha de costura ou bordado, também conhecida como linha da agulha, é puxada/passada pelo olho. O gancho da agulha, após perfurar a base do bordado dentro de um determinado processo e combinação, pode formar um ponto.


Existem cinco tipos básicos de agulhas:

• Agulhas de costura ou bordado de ponta única para bordar com o olho no eixo da agulha;
• agulhas de ponta dupla para máquinas de bordar à mão com o olho no meio da agulha;
• agulhas pontiagudas para máquinas de costura e bordado;
• agulhas de gancho para ponto corrente ou máquinas de bordar de manivela;
• agulhas para máquinas de bordar especiais, por ex. B., para máquinas de bordar orientais, tufting , etc.;
• agulha de costura manual.

Existem tamanhos diferentes de agulhas. Quanto mais fino for o fio do tecido, mais fina deve ser a agulha utilizada. O diâmetro e o comprimento da agulha, como também seu olho (tamanho e forma) são projetados de maneira diferente, de acordo com a linha e sua base de tecido.

Campo de bordar

Dependendo da técnica de bordar utilizada, existem diferentes tipos de tecidos para bordar. O tecido deve ser contável para ponto cruz, mas não é necessário que seja para a técnica Pintura com Agulha – o bordado da Casa Meyer. Tecidos contáveis incluem tecido Aida, lona ou linho. Os tecidos elásticos, por outro lado, são inadequados para qualquer tipo de bordado. A gaze de seda é frequentemente usada para bordados em petit point.

Bastidor de bordar

Para não puxar o tecido junto com o bordado e evitar distorções no padrão, o tecido é esticado em um bastidor de bordar. Geralmente é redondo e consiste em um anel interno e um externo, entre os quais o tecido é colocado.
Material base pesado para receber um bordado de ouro, precisa de uma moldura quadrada, que consiste em uma longarina e duas ripas perfuradas. O tecido deve ser costurado nas longarinas como em um retângulo. Desta forma, até mesmo bordados de grande formato podem ser realizados muito bem sem distorções.

Resumindo…

Definitivamente, o resultado de um bordado é uma peça de arte, que acompanhou a tendência dos períodos da História da Arte, dentro da História da Civilização, e também as mudanças tecnológicas e seus inúmeros novos materiais, sem esquecer dos tradicionais; sem perdê-los de vista, como de fato fosse uma herança ancestral. Com isto, atualmente existem inúmeras técnicas de bordar dentro da linha manual e, também, mecanizada/industrial, alinhadas com todas as demais práticas do homem do século XXI.

Abstrato do século XXI, de Ana Tereza Barbosa.

Observamos que a arte, o bordado, teve o período, impulsão dentro dos períodos históricos em que a religião ditava as práticas das famílias, dentro das cidades, com maior intensidade na Idade Média, do período gótico, cuja sociedade era regida pela igreja católica centrada em Roma. Depois, também teve muito destaque no Renascimento, quando o ponto focal desceu do céu para a terra, mediante o surgimento de novas classes sociais, além da nobreza e do clero, a arte do bordado adentrou as casas dos mais abastados como um elemento. A exemplo de outras artes da época – ostentava riqueza e poder, que passou a ser um desejo de consumo e prática de todas as famílias, e também, passou a fazer parte da educação das moças – indispensável no decorrer de feitio do enxoval, ou indispensável dentro do novo lar que surgia. Não era mais confeccionado somente por artesãos, padres e freiras, mas dentro de todas as casas.

Óleo sobre tela, cujo motivo é uma moça bordando junto à janela de sua sala. Obra de Carl Vilhelm Holsøe – Ano 1863 – Técnica de óleo sobre tela, 61x51cm – assinado no canto inferior direito: Holsøe. Fonte: Galeria Dr. Nöth.
Bordado Gobelin, fotografado em uma sala da Cidade de Trombudo Central – antiga Colônia Blumenau, que retrata o cotidiano da vida privada de uma família da Alemanha do Século XVIII/XIX. O que fazem? São mulheres bordando em uma grande sala, próximo à lareira. Famílias como estas migraram para a Colônia Blumenau.

Nos séculos XVIII e XIX, o bordado estava popularizado em todas as casas europeias, e destas chegou nas malas a milhares de colônias ao longo do planeta, dentro desta linha evolutiva. Também chegou à Colônia Blumenau, com todas as cores, ferramentas, riscos e linhas, trabalhando as muitas técnicas.

Imagens do Museu de Hábitos e Costumes – Blumenau-SC

Museu do Imigrante – Timbó-SC

Museu Weege – Pomerode SC

Em Blumenau, no mês de maio de 2022 foi assinado um projeto de lei que tornou o bordado da Casa Meyer, Patrimônio Imaterial de Blumenau.

Esta técnica de bordar – chamada “da Casa Meyer” é técnica trazida da Alemanha pelos pioneiros denominada ou conhecida como Pintura de Agulha ou, em alemão, Nadelmalerei, existente na Europa desde que o bordado chegou à região a partir da China, onde era confeccionado desde a Antiguidade, em tecidos de seda. Chegou à Europa através da cidade italiana de Veneza. O projeto de lei é de autoria da vereadora de Blumenau Cristiane Loureiro, e foi assinada às 16h do dia 20 de maio de 2022, na sala Freya Gross, da Fundação Cultural de Blumenau, em um evento aberto ao público.

Primeiro: bordado antigo chinês; segundo bordado característico do Vale do Itajaí; terceiro bordado em traje oriundo da Alemanha, momento presente.
Um tesouro pertencente à terceira geração de uma família da região da antiga Colônia Blumenau.
Margot Nöring – fez os riscos dos bordados de Rosita Zeplin e aprendeu a arte com as irmãs do Colégio Sagrada Família de Blumenau, como também outras moças deste tempo.

“Eu risco bordados há 70 anos e este é um desenho que eu criei. Até hoje trabalho com bordados.” Margot Nöring – Blumenau

Conhecer é preciso.
Registro para a História!

Referências

  • Berufe-Enzyklopädie. Die neuesten Berufe in unserer Enzyklopädie. Die Schneider – Schneider im Mittelalter. Disponível em: https://berufe-dieser-welt.de/die-schneider/ . Acesso em: 13 de janeiro de 2023 – 14h23.
  • Friedrich Schöner, Klaus Freier. Stickereitechniken. Fachbuch der Hand- und Maschinenstickerei. VEB Fachbuchverlag, Leipzig 1982.
  • Johanna Mestorf in Berliner Gesellschaft für Anthropologie, Ethnologie und Urgeschichte: Zeitschrift für Ethnologie. Verlag von A. Asher & Co, 1889, S. 109–110.
  • Lothar Bühring, Nora Grawitter: Fachlexikon Stickerei und Spitze. Auflage, Deutsches Innovationszentrum für Stickerei e.V., 2010.
  • Memória Digital. Casa Meyer. 7 de novembro de 2018. Fundação Cultural de Blumenau – FCBLU – Memória Digital. Disponível em: https://www.blumenau.sc.gov.br/secretarias/fundacao-cultural/fcblu/memaoria-digital-casa-meyer63 . Acesso em: 12 de janeiro – 00h02.
  • Ruth Grönwoldt. Stickerei von der Vorzeit bis zur Gegenwart. München 1993.
  • Stickerei Geschichte und Entwicklung des Handwerks. 1. Juni 2017 Handmadebase. Disponível Em: https://handmadebase-com.translate.goog/de/embroidery-history-and-development-Crafts/?_x_tr_sl=de&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt-BR&_x_tr_pto=sc. Acesso em: 12 de janeiro de 2023 – 20h33.
  • GEIHSEDER, Agnes. Eine historische Übersicht über Entwicklung und Techniken. University of Artistic and Industrial Design Linz – Art University Linz (Instituto de Arte e Design com especialização em têxtil. art. design.). Número de catálogo V308132.
  • Metropolitan Museum of Art – The Met. Stole with the Martyrdom of St. Catherine. The Collection Medieval Art. Disponível em:https://www.metmuseum.org/art/collection/search/468624. Acesso em 12 de janeiro de 2023 – 21h38
  • Thérèse de Dillmont. Encyklopaedie der weiblichen Handarbeiten. Bibliothek DMC, Dornach (Elsass) um 1900.
  • WITTMANN, Angelina. Fragmentos Históricos – Colônia Blumenau: Arquitetura – Cidade – Sociedade – Cultural. Volume 1. 1° edição. Blumenau, SC: AmoLer Editora, 2022. 572p.; il.; 17 x23cm.

Leituras Complementares

Bordado – Decoração de Páscoa – na mesa
Bordado – Sugestões de riscos
Wandschoner – Pano de Parede
Bordado – Sugestões de riscos I
• Bordado – Decoração de Páscoa – na mesa
Bordado – Sugestões de riscos II
Museu de Hábitos e Costumes de Blumenau – Momentos de sua inauguração
Legado Hermann Weege – Pomerode
Trombudo Central-SC – Em uma “Roda de Conversa” no Krüger Haus

Sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
@angewittmann (Instagram)
@AngelWittmann (Twitter)

Chegou o livro “Fragmentos Históricos – Colônia Blumenau” – inspirado nos artigos desta coluna. Primeiro lançamento em Blumenau – dia 9 de março de 2023 – Fundação Cultural de Blumenau/MAB. Você é nosso convidado.

 Agradecemos este espaço que nos inspirou a colocar parte deste conteúdo nesta publicação. Colocaremos nas Bibliotecas das Escolas Municipais e nas principais bibliotecas de Blumenau.