Resiliência empreendedora: como blumenauenses superaram a crise apostando em micro e pequenas empresas

Aproveitar as oportunidades de mercado foi essencial para sobreviver a anos economicamente caóticos

Resiliência empreendedora: como blumenauenses superaram a crise apostando em micro e pequenas empresas

Aproveitar as oportunidades de mercado foi essencial para sobreviver a anos economicamente caóticos

Jotaan Silva

Nos últimos dois anos a economia mundial passou por uma crise inesperada e imprevisível. A chegada arrebatadora da Covid-19 afetou demais o mercado financeiro e a produtividade em todos os países do globo, inclusive o Brasil, que já convive com dificuldades econômicas anteriores à pandemia.

Mas, assim como em todas as crises, alguns grupos acabaram mais prejudicados do que a média. Um deles foi o do micro e pequeno empreendedor, que, diferente de empresas maiores, que contam com fundos ou incentivos milionários, precisaram buscar maneiras de suportar e passar pela – em muitos casos – pior crise de suas histórias.

Famosa pelo empreendedorismo e inovação, Blumenau tem muitos exemplos claros da resiliência aliada ao profissionalismo que resultaram em sucesso. Nunca foi tão fácil ou correto utilizar a frase “fazer de um limão uma limonada” como nestes casos.

Seja no setor alimentício, de eventos, tecnológico ou varejo, a cidade teve empresários e empreendedores que, mesmo em segmentos diferentes, tiveram um mesmo mantra: transformação.

Criada em 2012, a Central Soldas é uma empresa que realiza manutenção de máquinas de soldas e ferramentas elétricas, utilizadas em fábricas e indústrias. Sendo um dos principais setores da cidade e região, a empresa atingiu um grande número de clientes, conseguindo se manter e crescer ao longo dos anos.

Entretanto, esse crescimento estagnou, principalmente, na falta de planejamento. Com dois sócios, em 2017 a empresa começou a encontrar dificuldades logísticas e para não perder mercado, precisou de mais profissionalização.

Foi nesse momento que o fundador da empresa, Johnathan Thiago Luetke, buscou no cunhado, Elizandro Pedroso de Morais, uma ajuda para conseguir se organizar e voltar a crescer, sem perder a qualidade no serviço.

“Como eu já tinha uma experiência de quase 15 anos como gerente comercial e nesse ramo, ele me pediu ajuda para saber se era vantajoso continuar com o negócio dele. Fizemos uma análise e percebemos que já havia uma gama enorme de clientes, com indústrias e empresas grandes da cidade, mas que só faltava um pouco de estruturação”, explicou Elizandro, que se tornou novo sócio e gerente comercial da empresa.

Profissionalizando alguns setores, como financeiro, RH e logística, em cerca de um ano a Central Soldas voltou a crescer e triplicou o faturamento. Em meio a isso, os sócios perceberam uma oportunidade de mercado e criaram a Domum Máquinas, uma empresa co-irmã, de venda dos equipamentos.

Além da manutenção, agora eles também vendem ferramentas e equipamentos. Foto: Jotaan Silva/O Município Blumenau

Quando tudo aparentava ser mais um modelo de sucesso de profissionalização e oportunidade de mercado, um novo baque estremeceu o negócio: a pandemia. Em março de 2020, após iniciar o melhor mês da história das empresas, o cenário de incertezas começou.

De bate-pronto, com os riscos da doença, eles decidiram deixar os colaboradores em casa e continuaram trabalhando apenas com os sócios, já que as indústrias permaneceram atuando e precisavam de manutenção. Porém, o efeito dominó foi mais forte e eles também foram atingidos pela crise dos clientes.

“Começaram os atrasos de pagamentos, negociações, clientes que fecharam as portas. Foi uma bola de neve. A gente sentiu muito o tamanho do buraco que a pandemia trouxe, e não víamos um cenário de solução”.

Apesar da situação caótica e receio de ter que fechar os negócios, os sócios resolveram perseverar e fazer o mesmo que cinco anos atrás: arriscar. Fizeram o inverso de muitos concorrentes e, por meio de empréstimos – até nos CPFs dos sócios e parentes – buscaram os vácuos do mercado.

Com esta estratégia, compraram novos equipamentos, investiram na mão de obra rápida e em ofertas vantajosas para os clientes que estavam em baixa. Desta forma, se destacaram no mercado e conseguiram, além de se manter, criar uma garantia para o futuro.

“A gente começou a ver o que estava faltando nas indústrias, que não pararam, e começamos a comprar esses equipamentos. Aumentamos nossa gama de produtos e garantimos uma pronta-entrega mais rápida que antes. Abraçamos as oportunidades, a gente fez o inverso, inovamos para ficar bem no mercado”, conta Elizandro.

Sócios conseguiram se reiventar e voltar a crescer, mesmo na crise. Foto: Jotaan Silva/O Município Blumenau

“Contamos também com a ajuda de prazos maiores dos fornecedores, de uma redução drástica no nosso aluguel. Mas ao invés de nos aproveitar disso como garantia, repassamos o mesmo para os nossos clientes, demos mais prazo também aos fornecedores e diminuímos nossos lucros mesmo quando precisávamos muito. Tudo para conquistar e manter os parceiros”.

Após dois anos, o cenário de desenvolviemnto retornou mesmo após a pior crise que podiam enfrentar. Voltando a crescer, a empresa inaugura em julho deste ano um espaço maior, pensando num futuro promissor.

Um outro exemplo blumenauense de transformação para driblar a crise é da marca Brickel. Antes uma pizzaria de rodízio, a empresa mudou após estar prestes a fechar e se tornou uma indústria de pizzas congeladas com venda no varejo e de franquias.

Diretor da Brickel, Nickolas Peters conta que o início da pandemia também foi um baque. No início de 2020, eles contavam com uma pizzaria em Blumenau e outra em Curitiba. Em março do mesmo ano, abriram um terceiro restaurante, em São José dos Pinhais, no Paraná. Porém, após cerca de duas semanas funcionando, a pandemia chegou, dando início a um dramático abre e fecha.

“Foi horrível, devastador. Porque usamos nosso caixa para investir nessa nova pizzaria, e funcionamos por uns 20 dias. Depois, ficamos alguns meses fechados nas três cidades, quando abria, era por poucos dias e fechava de novo, mas sem movimento também, porque todo mundo estava com medo, não saía de casa”, conta ele.

O tempo foi passando e as dificuldades aumentando. Mesmo após reabrir os restaurantes a situação não melhorou. Com os investimentos feitos e tantos meses no prejuízo, tiveram que tomar a decisão de fechar o restaurante em Blumenau.

Mas ao invés de desistir totalmente dos negócios na cidade, eles resolveram arriscar e colocar em prática uma ideia que estava em stand by: produzir pizzas congeladas para vender no varejo.

“Sabe quando você tem uma ideia, mas sempre vai empurrando? Era isso. A pandemia nos forçou a colocar em prática essa ideia antiga”.

Foto: Jotaan Silva/O Município Blumenau

No início do projeto a empresa definiu que iria vender fatias de pizza congeladas nos mercados e conveniências. Mas depois perceberam que era possível e vantajoso vender também diretamente, e começaram com um contêiner.

Assim como todo início de empresa – ainda mais durante uma crise econômica devido a pandemia – as pizzas congeladas em fatias deram resultado. Porém, ainda não eram rentáveis suficientes, principalmente porque ainda haviam duas outras pizzarias abertas.

Mas com foco no projeto, eles decidiram fechar o restaurante recém-aberto em São José dos Pinhais, mantendo apenas a fábrica em Blumenau e a pizzaria em Curitiba. Além disso, investiram também em franquias, oportunizando que outros parceiros pudessem abrir espaços oferecendo a pizza Brickel.

“A gente sempre pensou em franquias. Mas com a pizzaria não era viável. Com as fatias se tornou, porque é algo mais simples e controlável. Nós fazemos todas as pizzas e temos o padrão de qualidade, e o empreendedor tem um investimento bem menor, com resultado muito mais rápido”, ressalta o empresário.

Foto: Jotaan Silva/O Município BlumenauDo

Atualmente, em Blumenau a empresa atua com a fabricação e venda das pizzas em fatias e inteiras congeladas para o varejo e também na venda direta e franquias. Após alguns meses com o projeto, somado ao movimento normalizado do restaurante em Curitiba, a empresa conseguiu sair do vermelho. Além disso, já começa a colher resultados neste ano, abrindo novas franquias em Blumenau e região.

Além de exemplos positivos do empreendedorismo e esforço, o sucesso das micro e pequenas empresas em Blumenau também resultam em mais empregabilidade e em melhorias para a cidade. Segundo dados da Secretaria da Fazenda do município, elas representam em média 7% da receita corrente do município.

Em 2019, o total arrecadado pela categoria foi de R$ 76,41 milhões (7,29% da receita municipal). Em 2020 esse número teve uma pequena redução – muito por conta da pandemia – e caiu para R$ 76,22 milhões (6,71%) e em 2021 subiu para R$ 94,95 milhões, representando 7,36%.

Neste ano, a expectativa é aumentar esse número, já que até maio deste ano foram arrecadados R$ 49,69 milhões, uma média de R$ 9,93 milhões mensais.

O mercado de micro e pequenas empresas segue em crescimento expressivo no Brasil nos últimos anos. Dados do Observatório de Negócios do Sebrae SC apontam que até junho deste ano foram criados mais de 50.628 novos negócios no estado. Além disso, desde 2019 são mais de 363 mil novos CNPJs abertos em Santa Catarina.

No país, os números também são expressivos. Em 2020 foram abertas 3,2 milhões de novas empresas, sendo 2,6 milhões de MEIs e 656 mil MPEs. Em 2021 foram 2,3 milhões de novos negócios, e até junho deste ano, mais 930 mil.

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