Muitas escolas blumenauenses se destacam por seus projetos de educação ambiental. O tema, que já virou reportagem especial em O Município Blumenau, é hoje uma das bases do ensino municipal. Porém, poucos sabem como o assunto entrou nas salas de aula da cidade.

Natural de Itajaí, Roseli de Andrade veio para Blumenau para estudar Ciências Naturais na Furb. Interessada pelo meio ambiente desde criança por influência do pai orquidófilo, ela já havia feito magistério no ensino médio. Em seguida, seguiu sua formação na área para poder dar aulas em todos os níveis escolares.

“Sempre fui muito curiosa para entender as coisas. Queria saber por que certas plantas eram diferentes das outras. E sempre tive vontade de lecionar. A biologia me fascina até hoje”, conta Roseli, atualmente com 57 anos.

Como professora, ela atuou em diversas escolas de Blumenau. A carreira começou na rua Araranguá, na escola municipal Alice Thiele, passou pela Machado de Assis e até pela estadual Hercílio Deeke.

“Dei aula em tanto lugar… e também coordenei os clubes de ciências da rede municipal nos anos 90 e orientava em projetos para participação em feiras e mostras”, lembra.

Roseli era conhecida pela sua dedicação. Todos os anos, ela levava a turma da sexta série para Bombinhas, para conhecer de perto os animais marinhos. “Os alunos queriam chegar na sexta série só por causa da viagem. Ela ficou tão famosa que dei curso para outros professores”.

O orquidário é o espaço no qual Roseli tem trabalhado durante a pandemia. Foto: Alice Kienen/O Município Blumenau

Foi em 1994 que Roseli entrou na escola que transformaria: a Visconde de Taunay. Logo que chegou na Itoupava Central, ela foi convidada pela diretora que estava de saída a concorrer ao cargo. Nova na instituição, ela precisou conquistar o apoio dos colegas, alguns ainda desconhecidos, mas foi eleita.

Apesar de sempre ter sido engajada na educação ambiental, foi um congresso em 2011 que fortaleceu sua relação com o tema. Foi em Pirinópolis, Goiás, que Roseli teve contato com escolas totalmente voltadas para a sustentabilidade.

Ao voltar para Blumenau, ela colocou como meta tornar a Visconde de Taunay uma delas. ‘Mostrei as fotos para os professores e todos se empolgaram. Estabelecemos metas em agosto e mostramos para a prefeitura contribuir com ideias”, conta.

Coordenadores da Secretaria de Educação decidiram expandir a conversa. Foi aí que surgiu a proposta do Café com Ideias. No evento, profissionais como engenheiros, arquitetos, professores universitários, empresários, vereadores e pais de alunos desenvolveram juntos o projeto.

“Coloquei todos os problemas que tínhamos e pedi se eles podiam ajudar. Não com dinheiro, mas com ideias e maneiras sustentáveis de resolvê-los. Tanto para a questão ambiental, quanto financeira”, explica Roseli.

Foram muitos sábados de mutirões com os alunos e professores que integraram o comitê. Logo, a universidade abraçou a ideia e bolsistas da Furb entraram na escola para desenvolver outros projetos.

“A escola acabou fazendo parte de dissertações de mestrado. Em uma delas, a aluna aplicou o questionário Vadecrie, que avalia os 100 critérios da Rede Internacional de Escolas Criativas. A Visconde atingiu 85 deles e passou a fazer parte da RIEC”, comemora a professora.

Projeto Escola Sustentável foi apresentado em um colóquio internacional em 2018, em Portugal. Foto: Acervo pessoal

Em 2013, a instituição recebeu o certificado da rede espanhola, que tem sede em Barcelona. Mas este não foi o único reconhecimento da Visconde. No mesmo ano, ela foi uma das únicas escolas do Sul do Brasil a atingir os critérios estabelecidos pelo Ministério da Educação para escolas inovadoras, criativas e sustentáveis.

“O tripé envolvia a questão social, ambiental e econômica. As unidades precisavam ter uma gestão democrática e criativa. Os currículos multidisciplinares precisavam criar consciência dos estudantes sem fragmentar conhecimentos. E o espaço precisava promover interação, criatividade, inovação e protagonismo dos alunos além da sala de aula. Além disso, precisa sair dos muros da escola e ir para a comunidade”, lembra.

Entre diferentes mandatos, Roseli dirigiu a escola até 2015. Neste meio tempo, ela também assumiu temporariamente a direção das escolas Conselheiro Mafra e Oscar Unbehaun a convite da Secretaria de Educação. Além disso, se tornou diretora de programas de projeto da pasta e assessorou a secretária da época. Porém, ela decidiu voltar para a escola do coração até a aposentadoria, em 2016.

Após um ano “dormindo e acordando a hora que queria”, como a própria Roseli descreve, ela se cansou da aposentadoria. Depois de 32 anos atuando como professora, ela aceitou um convite da Secretaria de Educação.

Hoje, Roseli coordena a área de sustentabilidade e projetos de educação ambiental. Neste ano, todas as escolas e CEIs de Blumenau devem fazer parte do programa para escolas sustentáveis.

A formação de professores também é uma das áreas de atuações da especialista. Antes da pandemia, ela abriu 500 vagas para um curso não obrigatório. Mais de 600 pessoas se inscreveram. Agora, ela busca meios de manter as aulas por meio digital, já que existe muito interesse.

“Eu consegui fazer uma relação da teoria com a prática que não é tão difícil quanto imaginam. Como posso trabalhar história numa horta? Ou matemática no pomar? Depende da criatividade do professor captar o que ele tem no seu entorno para fazer mais sentido para o aluno”, exemplifica.

Alice Kienen/O Município Blumenau

Para Roseli, uma escola sustentável precisa tornar isso uma construção com todos. O objetivo é que os estudantes construam a consciência ambiental e tenham as ideias e cheguem às soluções sozinhos. “Isso não se cria da noite para o dia, não se faz só no Dia do Meio Ambiente. Ações isoladas não educam nem criam hábitos”, argumenta.


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