Na Via Expressa de Blumenau, só a burocracia foi prolongada

Desde que foi assinada a ordem de serviço da obra, em 2014, 27 pessoas morreram em acidentes na vizinha Pedro Zimmermann

Na Via Expressa de Blumenau, só a burocracia foi prolongada

Desde que foi assinada a ordem de serviço da obra, em 2014, 27 pessoas morreram em acidentes na vizinha Pedro Zimmermann

Bianca Bertoli

Quem deixa Blumenau pela Via Expressa avista, no encontro com a BR-470, um novo caminho em construção rumo ao Norte da cidade. A trilha larga, coberta por pedras e à espera de asfalto, prenuncia dias em que, para chegar ao limite com Massaranduba, bastará ao motorista seguir reto.

Do outro lado do morro, porém, o cenário é bem menos promissor. Em meio a rochas azuladas, terra e vegetação, há um banheiro químico – único sinal de que pessoas estiveram trabalhando no local. Os olhos alcançam logo à frente o ponto em que as pedras dão lugar ao barro. Depois, verde. Nada de pista, caminhões, máquinas ou trabalhadores. Só o verde.

Sávio James Pereira

A esta altura, 1,8 quilômetro de prolongamento da Via Expressa já deveria ter sido entregue. Prolongaram-se a burocracia, os prazos e o risco de se morrer no trânsito da região Norte. Desde a assinatura da ordem de serviço, em agosto de 2014, 27 pessoas morreram na rodovia SC-108, a Pedro Zimmermann, que seria a principal beneficiada pela Via Expressa paralela.

Burocracia prolongada

Diversos impasses atrasaram o andamento da obra. O último deles, no ano passado, foi o encontro de um volume de rochas maior do que o planejado. Agora, uma terceira empresa está analisando a situação para confirmar ou não essa realidade – se a resposta for positiva, serão necessários mais recursos.

Só assim os trabalhos poderão continuar e terminar dentro de um prazo muito maior que o esperado. A expectativa inicial era de que em noves meses o trecho ficaria pronto. Para esta etapa mais de R$ 30 milhões serão utilizados do total de R$ 140 milhões já garantidos para todo o prolongamento.

Em agosto de 2014, às vésperas das eleições, o governador Raimundo Colombo assinou a ordem de serviço para que as obras de extensão, que totalizam quase 16 quilômetros, pudessem começar. Como as desapropriações ainda não haviam acontecido e algumas tiveram de ser resolvidas na Justiça, os trabalhos começariam apenas em 2016. Logo depois, o governo esbarrou no obstáculo do volume de rochas.

O resultado de tudo isso se traduz no cenário. De um lado, a pista aberta apontando para um novo caminho. Do outro lado do morro, trabalho inacabado e desesperança.

Sávio James Pereira

Mortes

Desde o dia em que Colombo oficializou o início dos serviços, 27 pessoas morreram na Doutor Pedro Zimmermann (SC-108). O número de acidentes com vítimas subiu 26% entre 2016 e 2017. As mortes, 150%. No ano passado dez pessoas perderam a vida no trecho em que 847 veículos se envolveram em algum tipo de colisão, segundo o levantamento da Polícia Militar Rodoviária (PMRv). A expectativa é de que, com a Via Expressa prolongada, a rodovia se torne mais segura.

Prolongamento e acidentes

O projeto total tem quase 16 quilômetros, partindo da saída da Via Expressa, no bairro Fortaleza, e terminando no início do Morro da Vila Itoupava. Nos gabinetes oficiais, a nova estrada é chamada de prolongamento da SC-108, apesar de ser uma via paralela à atual Pedro Zimmermann, a SC-108 de fato.

Se a municipalização sair do papel, como já foi cogitado em reunião entre o município e governo estadual, o fluxo rodoviário passaria apenas pelo novo trecho da SC-108 e a Pedro Zimmermann se tornaria uma via urbana. Essa mudança poderia interferir nos números de acidentes, já que os mais graves envolvem veículos pesados.

Serra da Vila Itoupava

Muitos não sabem que o encontro do prolongamento com a atual rodovia será antes da subida da Vila Itoupava, famosa pelos acidentes que protagoniza. A ideia inicial era que a ligação entre o novo e o velho trecho ocorresse somente depois da serra.

“A comunidade não é contra a obra, que é boa para a região, mas é contra onde eles queriam passar, pela rua Paulo Nowaski. Não tem cabimento sair ali, é um local onde sempre dá acidente, é perigoso. O primeiro projeto, por trás do morro, seria o mais adequado”, afirma um dos líderes da Associação de Moradores Itoupava Alta, Sidnei Largura.

O adjunto da Secretaria de Estado da Infraestrutura (Sie), Paulo França, explica que, se optasse por contornar o morro, questões ambientais encareceriam muito o projeto, por isso foi decidido que o acesso será antes do aclive:

“Pensamos no melhor acesso e na segurança”, justifica.

O capitão e comandante da 3ª Companhia de Policia Militar Rodoviária (PMRv), Pablo Davi Henden, acredita que nenhuma das possíveis soluções deve mudar o problema dos acidentes. Para ele, a educação é a chave para redução dos números. Enquanto não houver fiscalização constante, com a ajuda de radares, o excesso de velocidade continuará matando.

“Pelo o que vejo no cotidiano, os acidentes que ocorrem ali envolvem carros que acabam saindo da pista, que se perdem”, explica Henden.

Promessa de retorno nos trabalhos

Em março, a história que caminha para o quarto ano de existência deve ganhar um novo capítulo. A expectativa de França é de que os trabalhos, “que estão praticamente parados”, sejam retomados a partir da segunda quinzena do próximo mês. A ideia é terminar o pagamento das 15 desapropriações até metade do ano, mesma data de conclusão da primeira etapa das obras.

Além de dois elevados, 1,8 quilômetro de rodovia será construído ligando a saída da Via Expressa à rua Guilherme Scharf, no bairro Fidélis – o processo licitatório do viaduto que será erguido nesta via deve sair nos próximos dias, segundo França. Já a obra completa (de quase 16 quilômetros) não tem prazo de entrega.

Falta de pressão por parte da sociedade blumenauense não é o motivo pelo qual a obra não evolui. Um grupo de empresários, conhecido como G6 – que reúne Acib, Ampe, CDL, Codeic, Intersindical Patronal e OAB -, cobra constantemente uma resposta do governo.

“O problema é que a obra está devagar, quase parando. Nós não aceitamos isso. Falta recursos sempre para Blumenau, para as outras regiões do estado sempre tem”, desabafa o presidente da Acib, Avelino Lombardi.

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